Sorria, você está sendo vigiado: o “solucionismo tecnológico” na segurança pública

Sofia Bolina

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O “prisômetro” no site do Smart Sampa destaca, até o momento de publicação desta matéria, que 3.424 foragidos foram capturados com a ajuda do programa na capital paulista, através de videomonitoramento com câmeras inteligentes.

Mas esse tipo de tecnologia falha: um policial militar fardado no Centro de São Paulo e um jardineiro voluntário de uma Unidade Básica de Saúde (UBS), por exemplo, foram ambos erroneamente identificados como foragidos. 

Casos como esses levantam a questão da vigilância que cresce no cotidiano. Dos prédios comerciais que visitamos uma única vez aos estádios de futebol, o monitoramento está por toda parte, junto com o armazenamento de nossos dados pessoais.

A justificativa para o uso dessas tecnologias é justamente a proteção e prevenção contra crimes, tanto em escala governamental como de forma privada.  Para a jornalista Cecília Olliveira, diretora e fundadora do Instituto Fogo Cruzado, o fenômeno descreve um “solucionismo tecnológico”. “Que tipo de estrutura de vigilância estamos construindo em nome da segurança?”, questiona.

Em painel no São Paulo Beyond Business (SP2B), esta semana, Olliveira conversou sobre o assunto com Pedro Saliba, coordenador de Assimetrias e Poder no Data Privacy Brasil, e com Ricardo Balestreri, coordenador do Núcleo de Segurança Pública, Urbanismo Social e Territórios do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper. 

Os três discutiram se o uso de câmeras e tecnologias de reconhecimento facial é uma política realmente efetiva, ou se são apenas eficientes em produzir certas métricas, sobretudo no atual contexto de eleições. Em 2026, é a segurança pública a maior preocupação do brasileiro – embora se sentir seguro e estar de fato seguro sejam coisas diferentes. 

O Atlas da Violência de 2026 informa que o número de homicídios no país caiu, mas a sensação de insegurança aumentou, como registra o índice Google Trends. Nos últimos quatro anos, as pesquisas pela palavra “crime” no Brasil praticamente dobraram, o que reforça o foco da população no tema da segurança.

Microsoft Teams monitoramento presencial
Crédito: Freepik

O mesmo relatório explica que a difusão da sensação de insegurança também acontece porque o ambiente onde os crimes ocorrem mudou. Antes, crimes contra o patrimônio (como roubos e furtos) aconteciam nas ruas. Para se proteger, o brasileiro deveria evitar circular em uma determinada área da cidade.

Hoje, existem os crimes cibernéticos que ocorrem sem que o cidadão saia de casa, em âmbito digital. Entre 2018 e 2024, os roubos reportados à polícia caíram pela metade, mas os estelionatos (sobretudo os virtuais) aumentaram em cinco vezes.

NOVOS CRIMES, MENTALIDADES ANTIGAS

O crime mudou, mas a forma como o combatemos é a mesma, há 40 anos, apontou Balestreri. Mesmo com as tecnologias de reconhecimento facial e inteligências artificiais, que trazem ar de inovação, seu uso é baseado em uma lógica antiga, imperativa, na qual a polícia protege apenas os mais abastados.

Nas favelas, o cenário é outro: ações policiais violentas, como o massacre que chocou o país em outubro do ano passado, nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. “Isso dá pontos para políticos inescrupulosos, mas não resolve a segurança pública”, diz ele.

O Atlas da Violência de 2026 informa que o número de homicídios caiu, mas a sensação de insegurança aumentou.

Além disso, o roubo ou furto de um celular não acontece mais pelo valor do aparelho em si, mas pelos diversos crimes que podem ser cometidos por meio dele, com acesso a dados bancários de seu antigo dono.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 83,2% da população acima de 16 anos tem medo de sofrer golpe pela internet/ celular. É o que aparece em primeiro lugar na lista de 13 tipos de crime apresentados pelo relatório. Roubo à mão armada (82,3%), ser morto durante um assalto (80,7%) e ter o celular furtado ou roubado (78,8%) vêm logo em seguida.

Os crimes como roubos de celulares, segundo Balestreri, são tratados como avulsos, enquanto o alto número de ocorrências aponta que a raiz, na verdade, é o crime organizado, que se infiltra em altas instituições do país.

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É o que chama de “processo de mexicanização” do Brasil, fazendo referência ao domínio das facções na sociedade mexicana.

Ele também ressalta a diversificação das atividades do crime organizado. Se, no passado, o foco era o tráfico de drogas, atualmente o mercado do ouro, de bebidas, de combustíveis e os crimes virtuais geram muito mais dinheiro. 

DESIGUALDADES NA TECNOLOGIA

Considerando as tecnologias por trás da vigilância proposta como solução de segurança pública, Pedro Saliba, do Data Privacy Brasil, diz que os sistemas de reconhecimento facial são falhos, porque reproduzem os preconceitos de quem constrói os dispositivos.

Uma pesquisa sobre o tema, feita pelo National Institute of Standards and Technology (NIST, ou Instituto Nacional de Normas e Tecnologias dos EUA), concluiu que os sistemas apresentavam taxas de erro maiores na identificação de pessoas negras, indígenas e asiáticas.

Essa fatia da população é mais suscetível a falsos positivos. Ou seja, são mais identificadas como procurados pela justiça ou criminosos quando não o são de fato.

logotipo do movimento Tire meu rosto da sua mira

Levando em conta esse tipo de racismo, no Brasil, a iniciativa Tire Meu Rosto da Sua Mira pede o fim do uso de tecnologias de reconhecimento facial.

“A capacidade de identificar individualmente e rastrear pessoas mina direitos como os de privacidade e proteção de dados, de liberdade de expressão e de reunião, de igualdade e de não-discriminação,” diz o site da mobilização.

Saliba aponta que os riscos desses vieses são grandes e questiona a integração do Smart Sampa a sistemas de saúde públicos. Em um estudo de 2025, o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) não conseguiu comprovar a melhora na segurança da cidade de São Paulo por causa do programa, que custa R$ 9,8 milhões por mês. O CESeC destacou, ainda, que 93 pessoas haviam sido erroneamente identificadas até a publicação do estudo.

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Na confiança de que o reconhecimento facial é efetivo, Saliba diz que existe também a crença de que os rostos das pessoas não passam por qualquer mudança, o que não é verdade. Além do viés racista, essas tecnologias têm alta taxa de erros para crianças e adolescentes, pessoas trans, e idosos.

Em Brasília, o uso difundido de canetas emagrecedoras fez com que o sistema de reconhecimento facial do Supremo Tribunal Federal (STF) apresentasse falhas, fazendo com que muitos cadastros tivessem de ser atualizados. 

É PRECISO ABRIR A “CAIXA PRETA”

“A segurança pública é uma grande caixa preta”, aponta o coordenador do Data Privacy Brasil, se referindo à falta de transparência, especialmente no que diz respeito à proteção de dados e aos riscos para as liberdades civis.

“A câmera corporal [para uso de policiais] só faz sentido se ela gravar o tempo todo e tivermos acesso às imagens”, pontua, mencionando também o vácuo normativo – a falta de regulamentação – no campo.

Para Ricardo Balestreri, a adoção de tecnologias, que são ferramentas, e não soluções em si, precisa ainda assim ser acompanhada da participação das pessoas. Não só policiais, mas da sociedade de forma geral.

Ele defende que a população não pode mais ser apenas objeto, e sim sujeito das ações de segurança pública, participando de discussões e de modelos de policiamento comunitário.

Cecília Olliveira chamou atenção para a necessidade de se debater a soberania digital brasileira, em específico na segurança pública, que deve considerar não apenas os provedores de nuvens, os cabos submarinos e os data centers, como também o poder de quem fornece essa infraestrutura.

Ao fim da conversa, os três ainda ressaltaram medidas muito mais analógicas e efetivas do que as câmeras: mais iluminação nas ruas e a ocupação de espaços. Onde há gente vivendo a cidade, há maior segurança – e maior sensação de que estamos seguros.


SOBRE A AUTORA

Sofia Bolina é jornalista, formada em Estudos Culturais pela Universidade Humboldt de Berlim e mestre em escrita de não-ficção pela Un… saiba mais


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