Natasha Craveiro – Produtora e realizadora: “A maturidade dos criadores já é uma certeza internacional”

Natasha Craveiro acaba de regressar da Suíça, onde participou no disputado Open Doors, programa do Festival de Locarno que apoia, financia e forma cineastas de países com infra-estruturas cinematográficas mais frágeis. Essa passagem por um dos grandes palcos do cinema independente internacional é o ponto de partida para uma conversa sobre identidade, criação e o lugar de Cabo Verde no cinema mundial. “É possível dialogar com o mundo e conquistar os maiores palcos do cinema sem perder a nossa raiz”, defende. O seu percurso lá fora comprova aquilo a que chama a maturidade dos criadores cabo-verdianos. Para a realizadora e produtora, o desafio está agora em criar, dentro do país, condições para que esse percurso se consolide e se traduza numa verdadeira indústria: “o que falta é um ecossistema estatal que deixe de ser reactivo e passe a agir como parceiro estratégico”, aponta.

Esteve recentemente no Festival de Locarno, um dos festivais mais prestigiados do cinema independente mundial. O que significou, a nível pessoal, profissional e como cabo-verdiana estar presente nesse espaço?

Estar presente no Festival de Locarno e, concretamente, ter sido seleccionada para um programa de prestígio do Open Doors, é uma conquista gigantesca a todos os níveis, pessoal, profissional e institucional. Como tenho tido oportunidade de defender, esta presença demonstra com clareza que, a partir de uma ilha no meio do Atlântico, temos uma voz forte, singular e universal. Representar este Cabo Verde que me viu nascer e crescer, que alimentou o meu imaginário de infância e que acompanhou cada uma das minhas metamorfoses enquanto mulher, carrega um orgulho desmedido. A nível profissional, é o reconhecimento internacional do trabalho rigoroso e consistente que a Korikaxoru Films tem vindo a desenvolver. A nível pessoal e como mulher cabo-verdiana, é a prova viva de que, apesar das imensas dificuldades e assimetrias que enfrentamos no nosso sector, é perfeitamente possível dialogar com o mundo e conquistar os maiores palcos do cinema sem perder a nossa raiz. Podemos, se assim o desejarmos, explorar o mundo a partir de casa.

Foi a Locarno com “dja branku dja”. Pode apresentar-nos o projecto, explicar o que a levou a querer contar esta história e porque escolheu uma linguagem híbrida para tratar o trauma colonial?

“dja branku dja” é um projecto de longa-metragem híbrida que parte de uma história da minha própria família para funcionar como uma lente através da qual abordo o trauma colonial, o Cabo Verde pós-colonial e a nossa contínua busca pela identidade. Encaro o cinema como um meio de reflexão sobre questões que atravessam a minha vida e a sociedade em que vivo, assuntos que me inquietam e sobre os quais sinto urgência em falar e partilhar. O filme não cai na tentação de assumir a posição de quem traz verdades prontas. Trabalhos como este nascem antes de uma partilha honesta: “Esta dor existe e dói-me; também te dói a ti? Vamos tentar perceber por que razão dói e como podemos encontrar alívio?” O filme começa na minha história pessoal e na vivência do abandono paterno a que eu e os meus irmãos fomos sujeitos. Procura compreender o perfil deste pai, um homem nascido num Cabo Verde colonial que, quando essa realidade histórica muda, escolhe permanecer do “outro lado”. Para encontrar sentido em acontecimentos que, por nos serem tão próximos, por vezes perdemos foco, foi indispensável recorrer a Frantz Fanon, ao pensamento de Amílcar Cabral e até ao trabalho de bell hooks. A opção por uma linguagem híbrida, cruzando o factual e o documental com a ficção, surge precisamente porque a memória e o trauma não são lineares. O hibridismo dá-me o espaço e os elementos necessários para criar a partir desse lugar entre a memória e o sonho, permitindo-me traduzir visualmente esse mundo.

Entretanto, a sua “Pirinha” já leva mais de ano e meio de circulação e cerca de 40 festivais, incluindo o prémio recente no Brasil (Mostra Adélia Sampaio). O que é que esse percurso lhe diz sobre a capacidade de uma história cabo-verdiana viajar e encontrar outros públicos?

O percurso do “Pirinha” tem sido, acima de tudo, um belo presente. Tem sido profundamente gratificante acompanhar a sua caminhada pelas salas por onde passou e, em especial, testemunhar cada uma das almas que conseguiu tocar. É um filme que continua vivo e a traçar o seu caminho. Agora em Setembro terá a sua estreia em Paris, no Seytou Africa (Festival de Documentários Africanos e Afrodiaspóricos), e está também disponível para o público na plataforma de streaming brasileira Filmicca. Para mim, esta trajectória de mais de um ano e meio, com cerca de 40 festivais e reconhecimentos como o prémio na Mostra Adélia Sampaio, confirma algo essencial: uma história cabo-verdiana é, acima de tudo, uma história humana. Por essa mesma razão, tem todo o potencial de alcançar e emocionar públicos em qualquer canto do mundo. A especificidade não reside na universalidade do sentimento, mas sim no olhar. É na forma como escolhemos contar a nossa história, na nossa sensibilidade, no nosso ritmo e na nossa estética, que reside a verdadeira assinatura de um cinema cabo-verdiano.

Já passou pelo IDFA (International Documentary Film Festival Amsterdam), Festival de Cannes, FESPACO (Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou), IFFR (International Film Festival Rotterdam) e agora Locarno. Como é apresentar a realidade cinematográfica cabo-verdiana a produtores, realizadores e distribuidores internacionais? O que é que mais desperta curiosidade sobre o nosso cinema?

Apresentar a realidade cinematográfica cabo-verdiana em espaços de topo como IDFA, Cannes, FESPACO, IFFR e Locarno é um exercício singular, estimulante e de imensa responsabilidade. Começar por afirmar que somos um país de meio milhão de habitantes é um dado que, por si só, causa logo um grande impacto. É um número que fala imediatamente sobre a nossa escala, sobre as fragilidades estruturais e sobre os limites do nosso ecossistema local. No entanto, o verdadeiro trabalho passa por ir muito além dessa métrica dimensional. O que mais desperta a curiosidade dos produtores, realizadores e distribuidores internacionais é precisamente a riqueza do que reside dentro dessa escala: uma população vibrante e profundamente plural, repleta de histórias por contar, aliada a uma paisagem geográfica e cultural incrivelmente diversificada. Quando apresentamos esses elementos, a força das nossas gentes, a complexidade das nossas vivências e a singularidade do nosso território, deslocamos a conversa da limitação para a oportunidade.

De que forma as suas experiências e formações no estrangeiro moldaram a tua visão artística e a forma como olha para as estórias de Cabo Verde?

As minhas experiências e formações no estrangeiro deram-me, acima de tudo, ferramentas e perspectiva, mas o ensinamento mais valioso que me trouxeram foi a certeza de que a autenticidade e a honestidade intelectual são tudo. Estar em contacto com diferentes escolas, mercados e linguagens fez-me compreender que não precisamos e nem devemos cair na tentação da cópia ou da mimetização de fórmulas externas para contar as nossas próprias histórias. Pelo contrário: quanto mais fiéis formos à nossa essência e ao nosso olhar singular, mais relevante se torna o nosso cinema no ecossistema global. Aprendi também que é preciso manter uma vigilância crítica constante para evitar a colonização do nosso imaginário. Olhar para Cabo Verde depois dessas experiências reforçou a minha determinação em não permitir que a forma como pensamos, estruturamos e filmamos as nossas histórias venha formatada por olhar exterior algum. As formações deram-me a técnica, mas a terra e a nossa vivência dão-me a verdade e é essa verdade que deve proteger e guiar a nossa integridade artística.

E o que é que tem conseguido trazer dessas experiências para Cabo Verde – conhecimento, contactos, formas de trabalhar – para os seus projectos e iniciativas, seja através da Korikaxoru, da Academy, do Cine Clube Mancarra ou do Kafuka?

Certamente que trago conhecimento técnico, uma rede de contactos internacionais sólida e novas metodologias de trabalho, mas o meu maior cuidado é garantir que nada disso é aplicado de forma cega. Tenho sempre presente que a nossa realidade é muito particular e que temos a necessidade constante de reajustar a régua às nossas especificidades locais. Através da Korikaxoru Films, trago padrões rigorosos de desenvolvimento, coprodução e circuito de mercados. Na Korikaxoru Academy e no Cine Clube Mancarra, o foco passa por partilhar essa bagagem, promovendo a literacia visual, a formação de públicos e capacitando novos talentos com ferramentas adequadas ao nosso contexto. Já com o Kafuka African Film Festival, canalizamos essas conexões globais para criar um ponto de encontro estratégico no Atlântico, trazendo programadores, realizadores e parceiros directamente para Cabo Verde. Trata-se de importar conhecimento e pontes do exterior, mas redesenhá-los para servirem as nossas necessidades reais, fortalecendo e profissionalizando o nosso ecossistema a partir de dentro.

A Korikaxoru Films celebra praticamente uma década. Olhando para trás, qual foi a viragem mais importante da produtora?

Costumo dizer que existe um antes e um depois do Ouaga Film Lab. Ter participado nesse laboratório, no Burkina Faso, marcou a viragem mais decisiva da história da Korikaxoru Films. Foi um divisor de águas porque nos colocou no radar da indústria do cinema no continente africano e na sua diáspora. Essa experiência abriu-nos imensas portas e deu início à construção de uma rede de contactos e parcerias estratégicas sem preço, conexões que continuam, até hoje, a sustentar a nossa capacidade de co-produção e o nosso posicionamento no circuito internacional. Se antes o projecto da produtora se alimentava sobretudo de intenção e resiliência local, o Ouaga Film Lab deu-nos a validação e o impulso estrutural necessários para nos consolidarmos como uma produtora cabo-verdiana com voz, visão e presença global.

Falando do cinema cabo-verdiano no geral, uma vez disse que “não existe uma indústria”. O que seria, para si, um sinal real de que as políticas públicas “acompanharam a maturidade dos criadores”?

O sinal mais claro e genuíno seria ver os nossos governantes a ouvirem, de forma concreta, quem está no terreno a fazer cinema no dia-a-dia. É crucial que escutem quem sente, na pele, onde a dor realmente dói. Esse acompanhamento traduzir-se-ia na urgência de levar a sério a revisão e melhoria da Lei do Cinema, mas também na criação de instituições vocacionadas e com meios reais para a sua efectiva implementação. A maturidade dos criadores já é uma certeza internacional; o que falta é um ecossistema estatal que deixe de ser reactivo e passe a agir como parceiro estratégico.

Se pudesse escolher uma única mudança estrutural para o cinema cabo-verdiano nos próximos cinco anos, qual seria?

A criação de uma Film Commission em Cabo Verde. No entanto, essa mudança só fará sentido se for feita a partir de dentro, ouvindo rigorosamente os profissionais que estão cá no terreno. Não podemos continuar a cair na fórmula fácil de chamar consultores ou estruturas estrangeiras para desenharem modelos sem nos ouvirem e sem compreenderem as nossas dinâmicas. Uma Film Commission cabo-verdiana tem de nascer do diálogo com quem faz o ecossistema local funcionar, valorizando o conhecimento interno e garantindo que o impacto e a sustentabilidade desse investimento ficam, em primeiro lugar, no nosso país.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1290 de 19 de Agosto de 2026.

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