As férias deveriam ser sinônimo de descanso e relaxamento. Direito garantido por lei aos trabalhadores formais, elas costumam ser o momento de sair da rotina acelerada, colocar o pé no freio e aproveitar os dias de forma mais tranquila. No entanto, um período que deveria servir para recuperar as energias muitas vezes acaba sendo marcado por ansiedade e culpa.
Expectativas elevadas no trabalho, dificuldade para se desconectar, insônia e outros sinais mostram que a rotina tem levado muitas pessoas à exaustão. Nesse contexto, a incapacidade de descansar durante as férias pode revelar desequilíbrios no estilo de vida e, principalmente, problemas relacionados à saúde.
O médico psiquiatra cooperado da Unimed Porto Alegre Paulo Belmonte explica que as férias não devem ser encaradas como uma exceção em meio a um estilo de vida acelerado. Para produzirem efeitos positivos, elas precisam estar inseridas em uma rotina construída ao longo do tempo, com equilíbrio entre trabalho, descanso, lazer e cuidados com a saúde.
— O lazer não deve ser algo episódico, restrito apenas às férias, mas distribuído ao longo dos dias, junto com atividade física regular e interação social. Tudo isso promove uma vida mais longa, com menor morbidade, menor incidência de dislipidemia — alteração nos níveis de colesterol e triglicerídeos no sangue — e redução da necessidade de intervenções para doenças vasculares e demência. Se as férias forem vistas fora desse contexto de estilo de vida saudável, elas não terão um efeito duradouro — afirma o psiquiatra.
Cuidado com o sono
Para algumas pessoas, entrar de férias significa enfrentar episódios de insônia. Isso acontece porque elas se cobram tanto que sentem como se não tivessem o “direito” de descansar, destaca o médico pneumologista cooperado da Unimed Porto Alegre Fábio Maraschin Haggstram, especialista em sono.
Segundo ele, pessoas com esse perfil de autocobrança tendem a ruminar pensamentos na hora de dormir. Ficam pensando nas pendências do trabalho, no que deixaram para trás, no que ainda precisavam fazer ou se esqueceram de alguma tarefa.
— Geralmente, essas pessoas já têm tendência à insônia e ao hábito de ruminar pensamentos durante a noite. Na rotina diária, acabam pegando no sono por exaustão física e mental, de tão cansadas que estão. Quando param para relaxar nas férias, porém, o cérebro começa a revisitar todas essas preocupações. Essa é uma característica clássica de quem tem propensão à insônia — explica Haggstram.
Na outra ponta, há quem aproveite as férias para tentar “recuperar” todo o sono perdido ao longo do ano. Apesar dessa tentativa, o médico ressalta que o período de descanso não é suficiente para compensar totalmente uma dívida crônica. Ele alerta que a privação de sono aumenta significativamente o risco de desenvolver diabetes, dislipidemia e transtornos de humor.
— As férias servem para revelar o nosso relógio biológico verdadeiro. Elas mostram se você naturalmente funciona melhor acordando mais cedo ou mais tarde, dormindo mais cedo ou mais tarde. Se, durante as férias, você percebe que continua acordando cedo espontaneamente, mantenha esse hábito. Respeite esse padrão para não expor seu corpo à privação de sono — orienta.
Cuidado com a exaustão
Além do cansaço acumulado ao longo do ano, as férias também podem revelar sinais de burnout, síndrome caracterizada por um estado de exaustão física e mental provocado pelo estresse crônico no trabalho. Conforme Belmonte, essa condição não deve ser confundida com um cansaço comum, pois está relacionada a uma rotina marcada por cobranças excessivas e jornadas prolongadas.
— Quando uma pessoa já está em processo de burnout, o repouso isolado durante as férias não resolve o problema por si só. Ela precisa aproveitar esse período para se reorganizar mentalmente, aprender a lidar com as pressões e evitar que a situação se repita — afirma.
O psiquiatra reforça que, para que o descanso tenha efeito real, não basta interromper as atividades por alguns dias. É preciso aproveitar esse período para refletir sobre a rotina, planejar o retorno ao trabalho, estabelecer limites para as demandas profissionais e reorganizar a forma como lida com elas. Essa mudança contribui para reduzir o risco de adoecimento e favorece uma relação mais saudável com o trabalho.
— Claro que é difícil se desligar totalmente de tudo, como se fosse possível “tirar o aparelho da tomada” por um mês. Mas, durante as férias, é possível reduzir significativamente o ritmo. Para que esse descanso produza resultados duradouros, porém, a pessoa precisa manter, no dia a dia, um estilo de vida equilibrado, com uma divisão saudável entre trabalho, momentos de lazer, hobbies e convivência com a família e os amigos. O ideal é que adultos pratiquem, no mínimo, 300 minutos de atividade física moderada por semana, além de manter uma alimentação adequada e controlar o uso de substâncias — finaliza.
Cinco sinais de que você não está conseguindo descansar
As férias costumam revelar hábitos e comportamentos que passam despercebidos na correria do dia a dia. Se mesmo longe do trabalho você se identifica com os sinais abaixo, talvez seja hora de repensar a forma como tem equilibrado trabalho, descanso e lazer.
Você não consegue ficar sem fazer nada
Se a sensação de “não produzir” gera desconforto, é possível que sua rotina tenha condicionado o cérebro a associar descanso com perda de tempo. Aprender a desacelerar também faz parte de uma vida saudável.
Dorme mais, mas continua cansado
Dormir até mais tarde nem sempre significa recuperar as energias. O cansaço persistente pode indicar uma privação crônica de sono ou até mesmo um quadro de exaustão física e mental acumulado ao longo dos meses.
Pensar nas tarefas que ficaram pendentes ou sentir que deveria estar sendo produtivo mesmo durante as férias é um sinal de que o trabalho continua ocupando espaço excessivo na sua rotina, inclusive mentalmente.
Precisa estar sempre ocupado
Se até os momentos de lazer precisam ser preenchidos por uma programação intensa, talvez exista dificuldade em simplesmente desacelerar. O descanso também inclui momentos sem compromissos ou metas.
Mal saiu de férias e já se imagina voltando ao trabalho
Quando a mente permanece presa às demandas profissionais, mesmo durante o período de descanso, o organismo tem dificuldade para se recuperar. Esse comportamento pode indicar excesso de estresse e dificuldade de desconexão.
Como desconectar de verdade
As férias começam antes da viagem e não terminam no último dia de folga. Algumas atitudes simples favorecem um descanso mais efetivo e tornam o retorno à rotina mais leve.
- Organize a saída: conclua as pendências mais urgentes e deixe orientações para quem assumirá suas atividades
- Ative a resposta automática: programe a mensagem de “fora do escritório” informando a data de retorno e o contato em caso de necessidade
- Desconecte-se: desative notificações de aplicativos de trabalho
- Desacelere de verdade: permita que o corpo e a mente saiam do ritmo de urgência
- Faça pausas das telas: reserve momentos longe do celular para aproveitar o ambiente e as pessoas ao seu redor
- Não transforme o lazer em obrigação: evite preencher todos os horários com atividades
- Busque novos estímulos: experimente atividades diferentes da rotina e procure se afastar de assuntos ligados ao trabalho
- Retome o ritmo gradualmente: evite voltar acelerando. Uma transição mais tranquila ajuda a prolongar os benefícios das férias
- Tenha um dia de adaptação: retorne da viagem um dia antes de reassumir o trabalho para reorganizar a rotina e descansar da logística
- Comece pelas prioridades: no primeiro dia, reserve um tempo para revisar e-mails, alinhar informações e organizar as demandas antes de entrar em reuniões
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