Polícia Federal do Brasil faz operação para apurar uso ilegal de dinheiro público em filme sobre Bolsonaro

Obra cinematográfica foi financiada por Daniel Vorcaro, banqueiro preso por fraude e corrupção, mas as autoridades suspeitam que deputados de extrema-direita tenham destinado verbas do Estado para a produção

A Polícia Federal brasileira cumpriu esta quinta-feira 49 mandados de busca e apreensão no âmbito da operação Meak Up, que investiga a suspeita de uso ilegal de dinheiro público na produção do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro. Um dos visados foi o deputado federal Mário Frias, produtor-executivo da longa-metragem e ex-secretário especial da Cultura de Bolsonaro. 

Em causa está, entre outras coisas, o envio de dois milhões de reais (337.200 euros na cotação atual) de Frias ao Instituto Conhecer Brasil (ICB). O valor foi transferido entre fevereiro e outubro de 2025 através de emendas parlamentares, um recurso que permite o controlo de parte do orçamento do país por deputados. Os parlamentares, então, podem destinar quantias a 
estados, municípios, órgãos públicos e entidades privadas sem fins lucrativos que executem políticas públicas. 

O ICB é uma organização não governamental (ONG) que pertence a Karina Ferreira Gama, dona da produtora Go Up Produções, que é responsável pelo filme Dark Horse. 

A suspeita das autoridades é que deputados da extrema-direita bolsonarista tenham enviado dinheiro público à organização que serviria para financiar a longa-metragem sobre Jair Bolsonaro, apesar de isso ser ilegal. Entre os suspeitos estão também Alexandre Ramagem, Carla Zambelli, Bia Kicis e Marcos Pollon, todos que são ou foram parlamentares pelo Partido Liberal. 

Kicis e Pollon, segundo a PF, destinaram 150 mil e um milhão de reais, respetivamente, a outra empresa de Karina Ferreira Gama, a Academia Nacional de Cultura. 

Os investigadores também identificaram o envio de 645 mil reais por Mário Frias diretamente para a produtora Go Up, o que gerou desconfiança sobre a origem do dinheiro. Isto porque o valor seria incompatível com o rendimento mensal do político, que é em torno de 44 mil reais – quase 15 vezes menor. Uma transferência de 755 mil pela empresa NTT também é motivo de desconfiança. 

A NTT faz parte do mesmo grupo empresarial de outras instituições que foram subcontratadas pelo Instituto Conhecer Brasil. Deste modo, segundo O Globo, a polícia entende que há relação entre o valor recebido por essas empresas e o montante enviado pela NTT. 

A operação desta quinta-feira

Na operação desta quinta-feira, a Polícia Federal encontrou sete armas de fogo num endereço ligado ao advogado de Mário Frias. A instituição ainda não divulgou sob nome de quem os equipamentos estão registados.

Posteriormente, Flávio Dino, juiz do Supremo Tribunal Federal, determinou que todos os alvos da Polícia Federal estão proibidos de sair do Brasil sem autorização. Os investigados também não podem comunicar entre si. 

Sobre Mário Frias, o magistrado relembrou que, no passo, o deputado “retardou a prestação de informações” ao STF por estar fora do Brasil, “exigindo a adoção de diligências junto da Presidência da Câmara dos Deputados para averiguar a regularidade administrativa da sua ausência”. Dino também mencionou que “o cenário público nacional, lamentavelmente, deu provas recentes de que a evasão internacional é via cogitada por alguns parlamentares brasileiros ante a perspectiva da persecução penal”. 

Nos últimos anos, três deputados importantes optaram por sair do Brasil para evitar a prisão. Alexandre Ramagem, condenado por golpe de Estado, passou a viver nos Estados Unidos, assim como Eduardo Bolsonaro, condenado por coação no curso do processo. Carla Zambelli, por sua vez, fugiu para a Itália após ser condenada por invadir o sistema informático do Conselho Nacional de Justiça. 

O próprio Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliária, cogitou deixar o país. Em 2024, o New York Times revelou que o antigo presidente, na época sob investigação, se escondeu na embaixada da Hungria em Brasília quando pensou que seria detido. Posteriormente, a Polícia Federal encontrou um pedido de asilo na Argentina que não chegou a ser submetido. 

Financiamento do filme e outras suspeitas

Em maio, o website The Intercept Brasil divulgou áudios que revelavam que Flávio Bolsonaro articulou um financiamento de 24 milhões de dólares de Daniel Vorcaro, banqueiro preso por fraude e corrupção, para o Dark Horse. O senador chegou a enviar um áudio para pedir um novo pagamento um dia antes da primeira prisão de Vorcaro. 

Ao se justificar, Flávio Bolsonaro alegou que estava à procura de um financiamento privado para o filme do pais, alegando que isso seria natural e que não houve o envolvimento de verbas públicas na produção. As investigações da Polícia Federal agora contradizem o candidato à presidência da República. 

O financiamento de Dark Horse ainda levantou outras suspeitas por parte das autoridades brasileiras. Os pagamentos feitos por Vorcaro à Go Up Produções, que até então nunca havia produzido uma longa-metragem, eram intermediados pelo fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e gerido por Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro. Há, então, a suspeita de que parte do valor seria utilizado para financiar a vida de luxo do ex-deputado de extrema-direita. 

Segundo a revista piauí, há ainda outras situações que levantam um alerta em relação aos filme. O valor investido nas etapas de pré-produção é considerado alto demais e os gastos foram em sua maioria efetuados nos Estados Unidos, apesar de a obra ter sido gravada no Brasil. 

Flávio Bolsonaro e os alvos da operação desta quinta-feira negam irregularidades. 

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