Paraguai do “paraíso das compras” dos anos 1970 ao novo “polo de oportunidades” dos anos 2020 para mais de 89 mil brasileiros


Fonte: A Ponte Internacional da Amizade, que liga Foz do Iguaçu (Paraná) a Ciudad del Este (Alto Paraná).

A Ponte Internacional da Amizade, que liga Foz do Iguaçu (Paraná) a Ciudad del Este (Alto Paraná), foi inaugurada em 27 de março de 1965. A cerimônia contou com a presença do então presidente do Brasil, o marechal Humberto Castello Branco (1964-1967), e do presidente do Paraguai, o general Alfredo Stroessner (1954-1989). Até hoje, a ponte passando o Rio Paraná permanece como um dos principais símbolos da integração fronteiriça entre Brasil e Paraguai, além de constituir um importante corredor turístico, comercial e logístico da América do Sul.

Entre os anos 1970 e 1994, especialmente durante o período de hiperinflação, elevada instabilidade econômica e severas restrições às importações no Brasil, milhares de brasileiros cruzavam a fronteira em busca de produtos mais baratos e mercadorias estrangeiras no Paraguai, como perfumes franceses e aparelhos eletrônicos japoneses.

Para muitos brasileiros, o primeiro contato com a modernidade tecnológica ocorreu justamente no Paraguai, por exemplo, os famosos walkmans da Sony, símbolos de uma geração que descobria o som portátil em plena ascensão da cultura pop global. Jamais esquecerei o dia em que ganhei de minha saudosa mãe um walkman azul, trazido de sua primeira e única viagem ao Paraguai em dezembro de 1982. Mais do que um presente especial, aquele aparelho eletrônico Made in Japan representava um fragmento da modernidade internacional chegando ao cotidiano de milhares de famílias brasileiras.

Naquele período, cidades como Ciudad del Este transformaram-se em verdadeiros polos comerciais da América do Sul. O Paraguai consolidava-se como um grande centro de reexportação de produtos importados, aproveitando sua estrutura tributária mais leve e sua posição estratégica na Tríplice Fronteira. O país sul-americano era visto, sobretudo, como um destino de consumo de produtos baratos para brasileiros e argentinos.

Desde 2020, porém, o cenário passou por profundas transformações socioeconômicas. O Paraguai já não atrai apenas consumidores ocasionais e turistas internacionais. O país passou também a atrair trabalhadores, empresários, fazendeiros, investidores, estudantes, nômades digitais e aposentados brasileiros. O antigo “paraíso das compras” começa gradualmente a transformar-se em um novo “polo de oportunidades” e de reorganização patrimonial para milhares de famílias brasileiras.

Segundo dados da Direção Nacional de Migrações do Paraguai, em 2025 foram concedidas 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros, configurando um recorde histórico. Desse total, mais de 23,5 mil foram destinadas a brasileiros, o que representa mais da metade das concessões registradas no país e um volume muito superior ao dos segundos colocados, os argentinos, com cerca de 4,3 mil autorizações.

Esse contingente populacional evidencia uma forte aceleração do fluxo migratório brasileiro, que mais do que dobrou em relação a 2020, quando pouco mais de 10 mil brasileiros haviam solicitado residência permanente no Paraguai.

Vale ressaltar que, entre 2020 e 2025, mais de 89 mil brasileiros solicitaram residência no Paraguai ao longo dos últimos seis anos, evidenciando o fortalecimento dos fluxos migratórios entre Brasil e o país vizinho e a crescente atratividade do território paraguaio como destino de mobilidade econômica, educacional e de investimentos.

A nova migração brasileira para o Paraguai é marcada por forte heterogeneidade social e econômica. Há empresários atraídos por um ambiente regulatório menos burocrático; produtores rurais em busca de terras férteis mais acessíveis; estudantes de Medicina e Odontologia interessados em mensalidades mais baixas; investidores imobiliários; aposentados em busca de menor custo de vida; além de famílias inteiras procurando ampliar seu poder de compra e reduzir custos cotidianos de um lar.

A moeda oficial do Paraguai é o guarani, enquanto o espanhol constitui um dos principais idiomas do país, ao lado do guarani, ambos reconhecidos como línguas oficiais. O fenômeno atual revela transformações importantes na dinâmica econômica da América do Sul. Enquanto o Brasil convive há décadas com elevada carga tributária, juros altos, burocracia complexa, elevada insegurança jurídica e altos custos operacionais para empresas, o Paraguai vem construindo uma estratégia de competitividade baseada na simplificação tributária e abertura ao capital estrangeiro.

Segundo os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a carga tributária bruta (CTB) do Paraguai situa-se em 14,50% do PIB, enquanto no Brasil a CTB é de 32,40% do PIB. A CTB brasileira é cerca de 2,2 vezes maior do que a paraguaia, evidenciando uma diferença estrutural relevante entre os dois países no que se refere ao peso dos tributos sobre a economia.

Um dos pilares desse novo modelo econômico paraguaio é a chamada Lei de Maquila, criada em 1997 para estimular a instalação de empresas voltadas à exportação de bens e serviços. O regime permite que companhias estrangeiras produzam no Paraguai pagando apenas uma taxa de 1% sobre o valor exportado. A lei regulamentada em 2000 transformou o país em um importante destino industrial para segmentos ligados à montagem de autopeças, confecções, eletroeletrônicos, plásticos e calçados. Além de alíquota de 0% na importação de insumos, como máquinas, equipamentos e matérias-primas.

O Paraguai deixou de ser apenas uma rota tradicional de importação para consolidar-se também como um relevante polo de produção industrial, exportação e expansão regional na América do Sul. Empresas como Nike, Adidas, Fila, Lacoste, Lupo, Riachuelo e JBS já possuem unidades fabris instaladas em cidades paraguaias, aproveitando vantagens competitivas como custos operacionais mais baixos, incentivos fiscais, energia barata e localização estratégica no Mercado Comum do Sul (MERCOSUL).

O Paraguai compartilha a Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu com o Brasil desde 1984 e a Usina Hidrelétrica Binacional de Yacyretá com a Argentina desde 1994, tendo alcançado plena operação em 2011, após a conclusão de suas obras de ampliação.

Esse arranjo energético binacional assegura ao Paraguai uma elevada oferta de energia elétrica, o que constitui um dos principais pilares de sua competitividade econômica regional. Essa disponibilidade energética beneficia não apenas consumidores residenciais, mas também empresários, produtores rurais e um amplo conjunto de agentes econômicos privados, incluindo indústrias, agroindústrias, empresas do segmento de alimentos, comércio atacadista e varejista e serviços logísticos.

A partir dessas plantas industriais, os produtos são exportados tanto para os países do bloco econômico regional quanto para outros mercados sul-americanos, como a Colômbia e o Peru, reforçando a crescente integração produtiva e logística do Paraguai.

No campo tributário, o Paraguai adota o conhecido sistema “10-10-10”, com 10% de Imposto de Renda Pessoa Física, 10% de Imposto de Renda Pessoa Jurídica e 10% de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) sobre o consumo. Em comparação ao sistema tributário brasileiro, reconhecido internacionalmente por sua elevada complexidade e cumulatividade, o modelo paraguaio apresenta maior simplicidade operacional, previsibilidade e menor custo administrativo.

Outro fator relevante é o custo de vida. O Paraguai é o país mais barato para viver na América do Sul, segundo a Numbeo. Em Assunção, capital do Paraguai, o aluguel de imóveis de alto padrão pode custar entre 40% e 60% menos do que em grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro. Energia, água, combustíveis e alimentação apresentam custos relativamente mais baixos em diferentes cidades paraguaias.

O Paraguai, portanto, já não pode ser interpretado apenas pela antiga imagem do comércio de produtos estrangeiros baratos. O país com uma população total de 6,7 milhões de habitantes, vem passando por um processo relativamente silencioso de modernização econômica, urbanização e integração produtiva regional. Nos últimos seis anos, Assunção, Ciudad del Este, Encarnación e Pedro Juan Caballero expandiram seu mercado imobiliário, o setor financeiro e sua capacidade de atração de investimento estrangeiro direto (IED).

Além disso, sua posição geográfica estratégica no centro da América do Sul favorece a logística regional. O fortalecimento da hidrovia Paraguai-Paraná, a crescente integração energética e a expansão do agronegócio transformaram o país em uma importante plataforma regional de exportação e produção de produtos do agro, como bioetanol, grãos (soja e milho) e carne bovina, por exemplos.

O avanço da imigração brasileira para o Paraguai também revela uma mudança simbólica relevante, pela primeira vez em décadas, parte da classe média brasileira começa a enxergar o país vizinho não apenas como destino de compras, mas também como espaço de mobilidade social, reorganização econômica e construção patrimonial.

Vale ressaltar que o Paraguai figura entre os principais destinos de brasileiros no exterior, com uma comunidade estimada em mais de 263 mil residentes. Esse contingente o coloca atrás dos Estados Unidos, com cerca de 2,0 milhões de brasileiros residentes, e de Portugal, com aproximadamente 513 mil brasileiros residentes, evidenciando a relevância do Paraguai no fluxo migratório brasileiro nos últimos seis anos, especialmente no contexto sul-americano.

Nos dias atuais, o valor máximo permitido para compras no Paraguai, em um único dia, é de US$ 500 por pessoa, o equivalente a R$ 2.506,70 na cotação de 22 de maio de 2026, considerando o dólar comercial na faixa de R$ 5,0134. Apesar das transformações econômicas recentes do país vizinho, milhares de turistas brasileiros continuam atravessando a Ponte Internacional da Amizade, em busca de celulares, perfumes, roupas, calçados, brinquedos, notebooks e computadores com preços mais competitivos.

É preciso destacar também que a economia do Brasil apresenta escala superior à do Paraguai. Segundo os dados do Banco Mundial para 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) nominal do Brasil é de US$ 2,18 trilhões, enquanto o PIB nominal do Paraguai é de US$ 46,4 bilhões, ou seja, o PIB brasileiro é 46,98 vezes maior do que o PIB paraguaio.

O Paraguai sem saída para o mar,  ainda convive com elevada desigualdade social, alta pobreza, elevada informalidade, limitações de infraestrutura, problemas nas áreas de saúde e de educação e forte dependência do agronegócio, do comércio e das exportações de energia elétrica. Entretanto, o crescimento econômico estável, a baixa carga tributária, os menores custos trabalhistas e operacionais e o maior Índice de Liberdade Econômica vêm alterando a percepção regional sobre o Paraguai, que passa gradualmente a ocupar uma nova posição no imaginário econômico e social dos brasileiros em plena Quarta Revolução Industrial que atravessaram a ponte.


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