Negócios vão do Brasil para o país vizinho e atuam no chamado regime de maquila: pagam uma média de 12% de imposto e encargos trabalhistas, contra 80% no Brasil
O Paraguai atraiu 232 empresas brasileiras desde 2007 para atuar dentro da Lei de Maquila –uma norma legal que permite a companhias estrangeiras voltadas para a exportação produzirem no país vizinho pagando menos impostos. Tais companhias são conhecidas como maquiladoras. O movimento se acentuou nos últimos anos, pois mais facilidades foram criadas para atrair negócios de outros países.
O principal atrativo é a baixa carga tributária. Fábricas sob esse regime têm impostos e encargos trabalhistas totais de 12%, em média, contra 80% no Brasil.
Segundo levantamento feito com base em dados do governo paraguaio e da Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai, o número de maquiladoras brasileiras corresponde a 70% das mais de 320 empresas estrangeiras que optaram pelo país vizinho.
O infográfico a seguir detalha como são os custos de uma fábrica no Paraguai em comparação com o que pagaria no Brasil, tanto em impostos e taxas como também encargos trabalhistas.
Essas empresas empregam cerca de 25.000 pessoas no Paraguai –vagas que poderiam estar no Brasil.
Eis a lista do governo paraguaio com as operações sob o regime de 2007 a 2024 na íntegra (PDF – 495 kB).
IMPOSTOS SIMPLIFICADOS
A estrutura tributária é complexa no Brasil. No Paraguai, é mais simples e menos onerosa. As empresas pagam só 1% sobre o valor agregado, ou seja, sobre aquilo que foi adicionado em cada etapa da produção ou comercialização de um produto ou serviço.
Maquiladoras têm ainda isenção de imposto de renda sobre o pagamento de dividendos, na compra de máquinas e na importação de matéria-prima.
Outra vantagem está no custo da mão de obra. Embora o salário-mínimo no Paraguai seja maior que o brasileiro (2,9 milhões guaranis, ou de R$ 2.300 a R$ 2.400, dependendo da cotação, contra R$ 1.621), os encargos trabalhistas são bem menores.
O funcionário com carteira assinada no Paraguai custa de 30% a 40% menos que um que é empregado seguindo as regras da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) no Brasil, uma lei criada em 1943 pelo ditador Getúlio Vargas (1882-1954) sob inspiração das regras fascistas da Itália, a “Carta del Lavoro”, e que teve poucas modernizações até hoje.

As férias aumentam progressivamente a cada ano no Paraguai, e só chegam a 30 dias depois de 10 anos na empresa. Além disso, não há FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), e a parcela da Previdência é menor.
A carga horária semanal é de 48 horas no país, contra 44 no Brasil. No mercado brasileiro, em breve, deve haver uma redução para 40 horas semanais, com 2 dias de descanso por semana, como está em proposta de emenda à Constituição debatida pelo Congresso.
Caso o Brasil reduza a jornada para 40 horas semanais, como estabelece a proposta do fim da escala 6 X 1, o trabalhador paraguaio passaria a trabalhar 8 horas a mais por semana. Na prática, isso representaria cerca de 416 horas adicionais por ano —equivalente a aproximadamente 52 dias úteis de trabalho.
MIGRAÇÕES RECENTES
Das maquiladoras com origem no Brasil, 40 (17,2%) iniciaram a operação a partir de 2023 —e 26 delas se mudaram no período de 2024 a 2026.

RECEITA E VOLUME
As 10 maiores maquiladoras brasileiras operando no Paraguai tiveram receita de exportação de US$ 1,3 bilhão em 2025, segundo o Datasur, plataforma que reúne dados globais de importação e exportação. Ou seja, o Brasil deixa de arrecadar sobre essa quantia.
Eis a íntegra da lista com as maiores exportadoras do Paraguai em 2025 (PDF – 4,6 kB).

Estão fora do sistema de maquila no Paraguai parte das operações da JBS, maior produtora do mundo de proteína animal, e da Inpasa, maior biorrefinaria de etanol de grãos da América Latina.
Essas empresas usam a lei para exportação só em alguns itens. Beneficiam-se de isenções oferecidas pelas leis paraguaias, como, por exemplo, na compra de maquinário.
TRIPLO 10
Nem todas as companhias brasileiras no Paraguai aparecem na lista de maquiladoras, porque o país tem outros regimes de incentivos, como zonas francas, além de leis que facilitam o investimento estrangeiro em turismo, mercado financeiro, além da indústria.
Mesmo para companhias fora do regime de maquila, o Paraguai apresenta sistema tributário bem mais simples, o chamado triplo 10:
- 10% de IR empresarial;
- 10% de IR pessoal;
- 10% de IVA (Imposto sobre Valor Agregado).
Na última década, grandes empresas brasileiras iniciaram ou retomaram a produção. É o caso de Lupo, Estrela, M.Dias Branco, Karsten, JBS e Lunelli. A BRF está no país pela subsidiária Hercosul, focada em ração animal.
Nos últimos 2 anos, fora do regime especial, a Vale expandiu os investimentos em logística no país. Já a Camil adquiriu a Rice Paraguai e da Villa Oliva Rice e ganhou condições de operar no mercado interno paraguaio.
Planta da Leoni, na cidade de San Lorenzo, no Paraguai (a 320 km da fronteira com o Brasil). Unidade produz sistemas de fiação e cabos automotivos para a Stellantis e para a GM
Em 2026, a Karsten passou a fabricar toalhas no Paraguai. A empresa não divulga números oficiais de receita e faturamento. A estimativa é de US$ 10 milhões a US$ 18 milhões, considerando a capacidade da planta instalada em comparação com seus pares.
A fabricante de calçados infantis Kidy também decidiu produzir no Paraguai neste ano. A Efisa se juntará às empresas no 2º semestre.
A companhia já está presente no Paraguai desde 2012, mas com plantações florestais e processamento de madeira. A nova unidade usará matérias-primas locais e importadas para fabricar embalagens e pallets.
Mais de US$ 182 milhões (perto de R$ 1 bilhão) foram investidos no Paraguai por 6 empresas de origem brasileira de 2025 a 2026:
- JBS: US$ 70 milhões;
- Karsten: US$ 40 milhões;
- Lupo: US$ 30 milhões;
- Kidy: US$ 30 milhões;
- Efisa: US$ 9 milhões;
- Fiasul: US$ 3 milhões.
Multinacionais com grandes operações no Brasil transferiram parte da produção para o Paraguai. É o caso da japonesa Yazaki, a sul-coreana TNT Auto Parts e a alemã Kromberg & Schubert.
A suíça Nestlé tem forte operação no Brasil e decidiu mudar para o Paraguai só a sua área de suporte administrativo, justamente por conta dos encargos trabalhistas menores. Segundo a companhia, desde 2019 ela mantém em Assunção o NBS Latam (Nestlé Business Services), “que fornece assistência interna do Paraguai para 21 países da América”.
No país vizinho, a empresa “atualmente conta com mais de 80 colaboradores que desenvolvem integralmente todas as atividades de marketing, logística e distribuição, vendas, comunicações e finanças”.
PEQUENOS EMPREENDEDORES
Empresários brasileiros que atuam em emprendimentos menores também estão abrindo ou transferindo seus negócios para o país. De acordo com a porta-voz da Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai, Giulliana Gracete, essa modalidade de empresa já é a maioria.
A segurança jurídica é o atrativo principal tanto para pequenas quanto para grandes empresas. “As regras são mais estáveis, há menor complexidade tributária e incentivos de longo prazo”, afirma Gracete.
Segundo ela, o Paraguai “é alvo de interesse desde 2015, mas a procura aumentou com mudanças recentes no sistema tributário brasileiro [taxação de dividendos]”.
Em reuniões, a Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai recebe de 20 a 40 executivos por mês interessados em investir no país, de acordo com a própria organização.
INDÚSTRIA TÊXTIL
As varejistas Renner, Riachuelo, C&A e Carrefour optaram por contratar terceirizadas têxteis no Paraguai, como a Texcin e a Hoahi. Em vez de oferecer empregos para produtores no Brasil, a opção foi trazer material fabricado no Paraguai porque os impostos são muito menores do que os brasileiros.
A Riachuelo se associou à Texcin em um projeto de um centro de confecção de US$ 5 milhões. Na planta são feitas coleções femininas. Mais US$ 5 milhões serão aplicados numa 2ª etapa de expansão.
Outra empresa brasileira que firmou parceria com a Texcin foi a Dass. Fabricante de produtos esportivos para marcas como Nike e Adidas, a companhia começou a operar no Paraguai com a Dasstex, unidade voltada à produção de confecções. Em comunicado institucional, o Grupo Dass afirmou que a entrada no país vizinho faz parte de sua estratégia de crescimento regional e fortalecimento da produção.
A iniciativa terá investimento de US$ 40 milhões e deve gerar mais de 600 empregos no Paraguai. A produção será realizada na planta da Texcin, onde funcionará a Dasstex. Procurada pelo Poder360, a Dass disse em nota que os investimentos que faz no Paraguai desde 2025 não vão levar ao fechamento de suas unidades no Brasil e na Argentina.
Chegada da Dass ao Paraguai gera investimentos de US$ 40 milhões e mais de 600 empregos
Das 232 empresas maquiladoras brasileiras no Paraguai, 89 são do setor de confecção e tecidos. O setor têxtil é o que tem maior número de operações no país vizinho entre maquiladoras brasileiras:
- 47 produzem plásticos e derivados;
- 30 produzem alumínio e derivados;
- 18 produzem farmacêuticos e químicos;
- 17 produzem produtos alimentícios
- 16 produzem eletrônicos;
- 14 produzem peças automotivas;
- 1 é do setor de gráficas e impressão.
O diretor executivo da ABVTEX (Associação Brasileira de Varejo Têxtil), Edmundo Lima, afirma que o fator decisivo para migração de parte da operação para o Paraguai é a grande diferença de custos.
“No Brasil, a carga tributária e os encargos trabalhistas tornam a produção ‘impraticável, chegando a algo próximo de 80% a 90% do custo do produto. Já no Paraguai, esse custo ficaria em torno de 10%. O Paraguai também oferece vantagem na exportação para o Brasil dentro do Mercosul, já que produtos com origem paraguaia entram sem imposto de importação. Embora paguem ICMS ainda compensa”, diz.
De acordo com Lima, “as mudanças recentes no Brasil, como a redução de impostos de importação para compras internacionais de até 50 dólares [taxa das blusinhas], pioraram ainda mais a competitividade do varejo e da indústria nacional, acelerando o movimento de saída de empresas”.
Ele prevê um possível “êxodo” de indústrias para o Paraguai e até fechamento de operações no Brasil, com perda de empregos e investimentos.
Sobre o fim da escala 6 X 1, Lima declara que “qualquer mudança relevante nas regras de jornada do trabalho precisa ser debatida com responsabilidade, previsibilidade e avaliação dos impactos econômicos sobre toda a cadeia produtiva”.
A produtividade do trabalhador da indústria brasileira está estagnada há décadas. O nível tem se mantido muito abaixo do verificado em países com as mesmas características do Brasil e, nos últimos 5 anos, a taxa está caindo.
Em 2024, na comparação com 2023, a queda foi de 0,8%, segundo estudo mais recente da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Eis a íntegra (PDF – 1 MB).
Planta da Lunelli em Minga Guazú, cidade do Alto Paraná (a 20 km da fronteira com o Brasil). A empresa tem duas unidades no Paraguai
LEI DE MAQUILA
O Paraguai criou a Lei de Maquila em 1997, mas o modelo de incentivos foi ampliado pelo governo do atual presidente, Santiago Peña (Partido Colorado, direita). A partir de 2025, foi estabelecido prazo inicial de 20 anos para os benefícios, com possibilidade de renovação.
A reforma ampliou a segurança jurídica, dá mais celeridade à adesão ao modelo, reduz custos operacionais e aumenta o número de companhias aptas a acessar os benefícios tributários. Eis a íntegra do texto (PDF – 18 MB, em espanhol).
Para operar no regime, a empresa precisa ser exportadora e não pode vender para o mercado interno. A empresa faz o pedido ao governo, que avalia a concessão. O tempo entre o estudo do projeto e o início da operação é de 3 meses a 2 anos.
A participação das maquiladoras nas exportações de bens manufaturados saiu de 34% em 2015 para 65% em 2024 e 69% em 2025.
As exportações dessas empresas bateram US$ 1,26 bilhão em 2025, nível recorde e que deve ser superado em 2026. Em janeiro, somaram US$ 115 milhões, alta de 15% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Outra mudança causada pela reforma de 2025 foi a inclusão dos serviços no regime de maquila. Antes, esse tipo de atividade não tinha categoria própria e era tratado como bens intangíveis. Agora, passa a ter enquadramento específico em um modelo até então voltado à produção de bens.
“Uma empresa de serviços se instala em um tempo muito menor que uma empresa de bens”, disse ao Poder360 o advogado Oscar Mersan de Gásperi, CEO da empresa de consultoria paraguaia sobre investimentos estrangeiros M360.
Além do sistema tributário menos complexo e incentivos, o Paraguai possui:
- energia mais barata;
- menores encargos trabalhistas;
- crédito mais barato (taxa de juros no Paraguai é de 5,50% ao ano).
DESTINO: BRASIL
O principal destino das exportações das maquiladoras brasileiras é o Brasil. Estão no Departamento do Alto Paraná, até 50 km da fronteira com o Brasil, 47% das maquiladoras. O objetivo é facilitar a integração logística com Estados como Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
Segundo a porta-voz da Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai, Giulliana Gracete, o Paraguai se tornou, com isso, um hub industrial do Mercosul, destino de 80% das exportações. Ao entrar no Brasil, os produtos pagam ICMS (Imposto sobre Circulação de Bens e Consumos), mas estão isentos do Imposto de Importação.
No Paraguai, essas empresas estrangeiras contam ainda com isenção de imposto de renda sobre o pagamento de dividendos no valor correspondente ao de compras de máquinas e de matéria-prima.
Os principais produtos exportados das maquiladoras são:
- peças automotivas: 15%;
- produtos alimentícios: 20%;
- confecções e tecidos: 15%;
- alumínio e derivados: 7%;
- eletrônica e eletricidade: 5%;
- plástico e derivados: 5%;
- produtos químicos e farmacêuticos: 5%.

GOVERNO BRASILEIRO
O Poder perguntou ao Ministério da Fazenda e ao MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) qual a avaliação sobre a mudança de empresas brasileiras para o Paraguai. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. Este texto será atualizado assim que alguma manifestação for recebida.
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