Para romper o isolamento da arte do RS na América do Sul

Durante décadas, artistas visuais do Rio Grande do Sul conviveram com uma espécie de dupla periferia: distantes dos principais centros econômicos e culturais do Brasil e, ao mesmo tempo, pouco integrados aos circuitos latino-americanos, apesar da proximidade geográfica e das inúmeras afinidades históricas e culturais com os países vizinhos. É justamente nesse ponto de tensão que nasce o projeto Istmo – Circuitos Criativos América do Sul, iniciativa que pretende criar pontes concretas entre a produção artística gaúcha e agentes culturais de oito países do continente.

Idealizado por Laura Cattani e por mim, ambos artistas, curadores e professores, o projeto aposta na criação de redes de intercâmbio éticas, sustentáveis e duradouras, reunindo curadoras, artistas, instituições, universidades e espaços independentes em torno de uma plataforma de circulação cultural. Além de promover encontros pontuais, o Istmo pretende operar como um dispositivo permanente de mediação entre diferentes contextos artísticos sul-americanos.

“O Rio Grande do Sul permanece afastado tanto dos circuitos brasileiros quanto dos circuitos latino-americanos. Essa dupla condição faz com que a produção gaúcha circule pouco e raramente seja incluída nas narrativas continentais, apesar de sua força e singularidade”, afirma Laura.

Segundo ela, muitos artistas gaúchos conseguem acessar redes internacionais apenas por esforço individual, frequentemente precisando migrar para centros como São Paulo para obter reconhecimento e inserção profissional. “Essa migração se tornou quase um rito tácito de validação profissional. Mas ela exige recursos financeiros, reorganização da vida e afastamento de redes de apoio. Para muitos, torna-se proibitiva”, observa.

O projeto foi concebido justamente para reduzir essas assimetrias. Durante sua realização, curadoras e agentes culturais sul-americanas visitaram instituições, espaços culturais, universidades e iniciativas independentes do Estado, além de participarem de leituras de portfólio, palestras, oficinas, exposição virtual, catálogo e documentário.

“A internet amplia o acesso, mas não substitui o encontro. O Istmo funciona como um catalisador presencial de relações profundas, permitindo que a diversidade da produção gaúcha seja vista e compreendida dentro do panorama sul-americano”, explica.

A proposta também busca enfrentar hierarquias históricas que costumam atravessar processos de internacionalização cultural. Para Laura, uma inserção ética no circuito internacional depende menos da lógica de mercado e mais da construção de relações baseadas em reciprocidade, afinidade poética e responsabilidade cultural.

“A internacionalização só é sustentável quando representa muitas vozes e muitas formas de produção, e não apenas aquelas tradicionalmente visibilizadas”, afirma.

Esse compromisso aparece tanto na escolha das curadoras convidadas quanto na estrutura do edital aberto aos artistas. A chamada buscava contemplar ao menos 40% de mulheres, pessoas negras, indígenas, quilombolas, LGBTQIA+, pessoas com deficiência e integrantes de comunidades historicamente minorizadas – perspectiva que foi amplamente superada.

Outro aspecto central do projeto é a diversidade institucional apresentada às convidadas estrangeiras. Em vez de concentrar as visitas apenas em instituições consolidadas, o Istmo inclui também espaços periféricos, autogeridos e independentes, oferecendo um panorama mais complexo do ecossistema artístico gaúcho. “O projeto não quer mostrar uma versão filtrada da cena cultural do estado, mas sua multiplicidade real”, resume Laura.

Ao reunir agentes culturais de diferentes países, o Istmo também pretende deslocar imagens cristalizadas sobre o Rio Grande do Sul. Frequentemente percebida de fora como homogênea ou excessivamente vinculada a uma identidade regional rígida, a produção contemporânea gaúcha revela, segundo Laura, justamente o oposto: uma cena marcada pela pluralidade, pela experimentação e por trajetórias autorais independentes. A curadora equatoriana Syl Quezada argumenta que “Participar do projeto de Laura e Munir foi uma experiência enriquecedora para pensar a arte a partir de diferentes latitudes, olhares e sensibilidades, construindo formas de nos integrarmos, nos conhecermos e colaborarmos mutuamente para a circulação e o intercâmbio entre artistas, curadores e gestores culturais”.

E, de fato, o que mais nos interessa é essa multiplicidade. O projeto ajuda a construir um novo imaginário sobre o estado, não como identidade única, mas como um coro polifônico. Como afirma a curadora Colombiana Carolina Cerón:

“Porto Alegre foi um resgate. Percorrer sua cena artística me devolveu a estranheza diante da criação, essa capacidade de assombro que o ofício docente às vezes vai ofuscando. Os artistas que conheci não são apenas referências bibliográficas: são sementes. Entram nas minhas aulas com nome próprio, com processo, com contexto vivo, e, a partir daí, propagam algo, o contato, que nenhum livro de história da arte latino-americana pode substituir”.

As transformações esperadas não se limitam ao campo simbólico. A expectativa é que o projeto gere impactos concretos na circulação profissional dos artistas e no fortalecimento institucional do setor cultural gaúcho. Entre os possíveis desdobramentos estão convites para exposições internacionais, residências artísticas, intercâmbios pedagógicos, cooperações institucionais e redes permanentes de pesquisa e circulação.

Para Laura Cattani, o mais importante talvez seja justamente inaugurar uma nova percepção de pertencimento continental. “A alteridade é fundamental. É no encontro com o outro que compreendemos melhor quem somos e quem ainda podemos ser”, conclui.

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