Papa Leão, Angola, três meses depois … (II)

O Papa Leão XIV visitou Angola há 3 meses. O tempo vai passando e decantando o essencial dos seus gestos e palavras. Desafiei algumas pessoas angolanas (clérigos, religiosos ou leigos) a escolher a frase do Papa que mais deixou marcas na sua vida e que tem potencial para ajudar Angola a crescer. As reações vieram do mundo inteiro. Eis a segunda parte …

Tony Neves CSSp

Atores da mudança

‘Não sejais meros espectadores da história, descei à rua e sede os atores principais da mudança’ – foi a frase do Papa Leão que mais marcou D. Maurício Camuto, Secretário-Geral da Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé (CEAST) e um dos coordenadores desta visita papal. A Ir. Salomé Cambungululu fez a mesma escolha.

O P. Nito Chatulica, Maria Mussolovela e o P. Miguel Cambiona salientaram: ‘Venho até vós para encontrar o vosso povo, como um peregrino que procura os sinais da passagem de Deus por esta terra que Ele ama’. Continua o P. Armando Livamba: ‘Não vos falo como um político, mas como um pastor que ouve o clamor de um povo que anseia por justiça. Peço-vos com coragem que a verdade exige, que quebreis as correntes de uma governação que muitas vezes se fecha em si mesma, ignorando as periferias onde a vida é mais frágil’. O P. Mário P. Bernardo vai na mesma linha: ‘Apelo à vossa coragem para combater a corrupção e a exclusão social. Não temais o diálogo nem as vozes que divergem de vós; uma paz que se sustenta no silenciamento do outro é uma paz falsa’. O P. Felisberto Sakulukusu destaca: ’sede arquitetos de uma nova Angola, onde a abundância da terra seja, finalmente, a alegria de todos os seus habitantes’. É que – como lembrou o Papa e realçam a Ir. Florência Cassinda e o P. Jeremias Praia, ‘vós sabeis bem que, demasiadas vezes, se olhou e se olha às vossas terras para dar ou, mais frequentemente, para tirar algo. É necessário quebrar esta cadeia de interesses que reduz a realidade e a própria vida a uma mera mercadoria’.

Não extinguir visões nem sonhos

Pois – destaca o P. Arnaldo Simão – ‘O descontentamento, o sentimento de impotência e de desenraizamento separam-nos, em vez de nos colocarem em relação, difundindo um clima de estraneidade em relação aos assuntos públicos,  desprezo perante a desgraça alheia e a negação de todo o tipo de fraternidade’.

Lucas Cassule, Alzira Simões, o P. Adelino Calonda e Ogbonna Maneme lembram: ‘Angola pode crescer muito se, em primeiro lugar, vós, que detendes autoridade no país, acreditardes na multiformidade da sua riqueza. Não temais as divergências, nem extingais as visões dos jovens e os sonhos dos idosos’.

Ana Rocha, Matias Tonico, Romyana Conceição, Davilson Mundjanga e o P. José Chivangulula salientam: ‘A Igreja Católica, cuja obra de serviço ao país sei o quanto estimais, deseja ser fermento na massa e promover o crescimento de um modelo justo de convivência, livre das escravidões impostas por elites com muito dinheiro e falsas alegrias’.

Por uma memória reconciliada

Para o P. Gaudêncio Sangandu, ficou-lhe na memória o apelo do Papa aos Religiosos, Religiosas e catequistas: ‘Promovei, pois, uma memória reconciliada, educando todos para a concórdia e prezando, no meio de vós, o testemunho sereno daqueles irmãos e irmãs, que depois de passarem tormentos dolorosos, tudo perdoaram. Alegrai-vos com eles! Fazei festa pela paz!’. Pois – como escolheram a Ir. Ana Cambongo, Manuel Cativa, o P. João Marques, Sebastião Daniel, a Ir. Teresa Tchipeta, Horácio Manuel e a Ir. Cecília José – ‘Não tenham medo do amanhã. Pertençam totalmente ao Senhor. Não tenham medo de dizer sim a Cristo”.

E não podíamos passar ao lado do que o Papa disse no Santuário da Senhora da Muxima, como salienta Gilberto Gil Lopes, dos Escuteiros, membro da organização: ‘Mamã Muxima, tueza kokué, Mamã Muxima, tutambululé: ‘Mãe do coração, viemos até Vós, para vos oferecer tudo’. Assim diz o Hino a Mamã Muxima, continuando deste modo: ‘Viemos pedir a vossa bênção’. Igualmente, as Irmãs Isabel e Júlia Clementina apostam na Muxima onde o Papa interpelou: ‘Também a vós, a Mãe do Céu confia um grande projeto: o de construir um mundo melhor, acolhedor, onde não haja mais guerras, nem injustiças, nem miséria, nem desonestidade, e onde os princípios do Evangelho inspirem e moldem cada vez mais os corações, as estruturas e os programas, para o bem de todos. É o amor que deve triunfar, não a guerra! É isso que nos ensina o coração de Maria, o coração da Mãe de todos’.

Conclusão: rumo ao futuro

Graciett Lopes, António Bartolomeu e a Ir. Helena Tchilombo põem o Papa a apontar o futuro: ‘Angola, mantém-te fiel às tuas raízes cristãs! Assim, poderás continuar, cada vez melhor, a dar o teu contributo para a construção da justiça e da paz em África e em todo o mundo’.

Concluo com D. José Manuel Imbamba, presidente da CEAST e o P. Avelino Sangameya: “Sem interioridade não há libertação. Sem encontro não há política. Sem o outro não há justiça. Juntos, é possível construir em Angola um projeto de esperança.”

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