No último mês de julho, o Cetic.br divulgou a 16ª edição da TIC Empresas: apenas 17% das empresas brasileiras incorporaram inteligência artificial de forma estruturada aos seus processos. O número ganha dimensão quando cruzado com levantamento do Google em parceria com o Ipsos: 78% dos brasileiros já usam IA no dia a dia. As pessoas chegaram antes das organizações.
Esse gap não tem origem tecnológica. Os modelos estão disponíveis e o custo de implementação caiu de forma consistente nos últimos anos. O que falta é o setor que deveria conduzir essa transição com autoridade: o RH. A área responsável por preparar as empresas para o futuro do trabalho ainda opera como se esse futuro não tivesse chegado. Não porque seus profissionais desconheçam o tema, mas porque estão ocupados demais com o presente para construir o que vem depois.
O dado central
A pesquisa do Cetic.br revelou algo além da estatística. Entre as empresas que já utilizam IA, 80% compraram softwares prontos e 60% contrataram fornecedores externos. A tecnologia chegou pelas bordas: por contratos terceirizados, por ferramentas sem integração sistêmica, por decisões que ficaram fora do RH. O que não aconteceu foi uma deliberação sobre como a inteligência artificial se encaixa na estratégia de pessoas. Essa decisão exige tempo, diagnóstico e liderança interna
O Productivity Ranking 2024, do The Conference Board, adiciona urgência: cada hora trabalhada no Brasil gera US$ 21 em riqueza, contra US$ 91 nos Estados Unidos. Para mudarmos essa realidade, precisamos focar em como as organizações estruturam o trabalho humano.
Quando o guardião da transição está preso na operação
Fernando Gadotti chegou a esse diagnóstico pelo caminho mais direto: trabalhando dentro do problema. Com trajetória na interseção entre tecnologia e gestão de pessoas, o empreendedor identificou que as lideranças de RH não carecem de visão sobre IA. Carecem de tempo para implementá-la. A Tako, empresa que fundou, partiu dessa premissa: antes de perguntar como o RH vai adotar inteligência artificial, é preciso perguntar de onde ele vai tirar espaço para isso.
O diagnóstico de Gadotti aponta para uma ironia estrutural. O RH é o único setor com autoridade para conduzir a implementação de IA: conhecer a cultura, os fluxos, as competências e os pontos de fricção que nenhum consultor externo mapeia com a mesma precisão. Mas passa a maior parte do tempo em tarefas que a própria IA poderia executar: fechamento de folha, triagem de candidatos em processos com milhares de vagas, e gestão de toda a jornada do colaborador.
“As empresas estão implementando IA em volta do RH, não com o RH. Compram ferramentas, contratam consultorias e esperam que a mudança aconteça. Sem o RH no centro, a implementação resolve processo, não organização, pois apenas o RH é capaz de redesenhar funções e distribuir novas atividades com a chegada da AI”, afirma Gadotti.
A Tako foi construída para fechar esse ciclo, aplicando IA nas três frentes que concentram a burocracia de RH: folha de pagamento, recrutamento e gestão de processos de pessoas. Neste último, área que representa um desperdício estimado em mais de cinquenta bilhões de reais por ano, a plataforma foi desenvolvida para navegar a complexidade do sistema jurídico nacional.
O vácuo que Fernando Gadotti decidiu ocupar
No início de agosto, a Tako reuniu mais de 500 lideranças de RH, além de pesquisadores e professores de Stanford para debater esse desafio no Tako Summit. A adesão confirma o que os dados sinalizaram: o setor reconhece o problema. A Endeavor identificou em Gadotti o que define empreendedores de alto impacto: enxergar uma ineficiência estrutural que o mercado normalizou. A Tako integra o ecossistema Endeavor Brasil como evidência de que o Efeito Multiplicador começa quando um founder decide que o problema que ninguém resolve é exatamente o que ele vai resolver.
Se a tese de Gadotti estiver certa, o próximo ciclo de produtividade das empresas brasileiras não vai ser liderado pelo departamento de TI. Vai ser conduzido por líderes de RH que tiveram espaço para parar de operar o presente e construir o que vem depois. “A próxima vantagem competitiva não vai vir de quem comprou o melhor modelo de IA. Vai vir de quem construiu a organização capaz de absorvê-lo. Essa é uma decisão de gestão de pessoas, não de tecnologia”, diz Gadotti.
*Por Fernando Gadotti, CEO e fundador da Tako.
A Endeavor é uma rede global presente em mais de 40 países e formada pelos empreendedores e empreendedoras que mais crescem no mundo. No Brasil desde 2000, acelera negócios com potencial escalável por meio do programa Scale-Up e promove conexões entre os maiores líderes do país e empreendedores em início de jornada. Também investe em startups em fases Seed e Series A, com o fundo Scale-Up Ventures.
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