Na manhã de segunda-feira, às 7h34 no horário local, o solo da Colômbia tremeu com uma força que o país não sentia há uma década.
Um terremoto de magnitude 7,4 sacudiu o departamento de Chocó, no oeste do país, com epicentro próximo a San José del Palmar, sendo sentido com intensidade em Cali, Pereira, Manizales, Medellín e até no Equador e no Panamá.
O número de mortos chegou a 169 até a última atualização — e ainda está subindo enquanto as equipes de resgate trabalham sob os escombros de edifícios que desabaram em Cali, onde pelo menos 20 estruturas colapsaram.
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Semanas atrás, escrevi aqui sobre o terremoto que devastou a Venezuela — mais de 1.700 mortos em La Guaira e na Grande Caracas. Agora é a Colômbia. E a pergunta que o leitor está fazendo, com razão, é: isso é coincidência ou há algo estrutural acontecendo na América do Sul?
O terremoto que acordou Cali às 7 da manhã
O momento foi especialmente cruel. O abalo ocorreu pouco depois das 7h30 no horário local, quando milhares de colombianos estavam acordando, preparando o café, mandando filhos para a escola. Edifícios que resistiriam a um tremor noturno com menos gente dentro foram pegos com famílias inteiras em seus apartamentos.
Em Risaralda, o governador relatou 40 mortos, incluindo 18 na cidade de Pereira. No Valle del Cauca, foram 27 mortes. Em Medellín, um morto. Em Cali, o prefeito informou que ao menos 20 estruturas desabaram e há pessoas presas sob os escombros, tendo solicitado apoio de equipes de resgate de Bogotá e Medellín.
A Colômbia declarou situação de “desastre nacional” e suspendeu operações nos aeroportos das cidades afetadas.
Hospitais foram danificados — o que significa que as vítimas que sobreviveram ao colapso dos prédios enfrentaram o desafio adicional de chegar a um sistema de saúde sobrecarregado e parcialmente fora de operação.
A réplica que veio logo depois
Uma réplica de magnitude 5,0 ocorreu às 8h18, menos de uma hora depois do terremoto principal — complicando ainda mais os trabalhos de resgate, assustando as equipes que vasculhavam os escombros e gerando novos colapsos em estruturas que haviam sobrevivido ao primeiro abalo já enfraquecidas.
Primeiro Venezuela, agora Colômbia — é coincidência?
Não é. Mas a explicação é mais complexa do que parece — porque Venezuela e Colômbia estão sendo sacudidas por fontes geológicas diferentes.
A América do Sul é um continente pressionado por múltiplos lados. Ao contrário do Brasil Central — cuja estabilidade geológica é secular — o norte e o oeste do continente estão numa das regiões tectonicamente mais ativas do planeta.
A América do Sul espremida entre três placas tectônicas
O terremoto colombiano foi provocado por uma falha de desligamento em profundidade intermediária, representando uma ruptura no interior da Placa de Nazca enquanto esta sofre subducção para leste sob a Placa Sul-Americana, ao longo da Fossa Equador-Colômbia.
Para entender isso em linguagem simples: imagine o fundo do Oceano Pacífico como uma imensa placa de rocha que se move em direção à América do Sul.
Quando essa placa — a Placa de Nazca — encontra o continente, ela mergulha por baixo. Esse processo, chamado de subducção, acontece com uma energia monumental.
E é essa energia acumulada ao longo de décadas que, quando liberada subitamente, produz terremotos como o de segunda-feira.
É o mesmo processo que criou os Andes — a cadeia montanhosa mais longa do mundo, resultado direto dessa colisão geológica que dura milhões de anos. E é o mesmo processo que explica por que a costa pacífica da América do Sul — Colômbia, Equador, Peru, Chile — é uma das regiões sísmicas mais ativas do planeta.
Duas fontes diferentes, mesmo continente
O terremoto da Venezuela, em junho de 2026, veio de outro lugar.
A Venezuela fica na costa norte do continente, e sua atividade sísmica é provocada pela interação entre a Placa do Caribe e a Placa Sul-Americana — uma fronteira tectônica completamente diferente da que causou o desastre colombiano.
Em outras palavras: a América do Sul está sendo pressionada simultaneamente pelo oeste (Placa de Nazca, responsável pelos terremotos do Pacífico) e pelo norte (Placa do Caribe, responsável pelos terremotos da Venezuela e da região caribenha).
São duas forças independentes, agindo em bordas diferentes do mesmo continente — e ambas têm histórico de produzir terremotos devastadores.
Por que as cidades colombianas são tão vulneráveis
Se a geologia explica por que os terremotos acontecem, outro fator explica por que eles matam tanto: a vulnerabilidade das cidades.
A Colômbia tem normas de construção antisísmica. O problema é que boa parte do parque edificado das suas cidades foi construído antes dessas normas existirem — ou ignorando-as.
Cali, a terceira maior cidade do país e uma das mais afetadas pelo terremoto de segunda-feira, cresceu de forma acelerada e frequentemente desordenada ao longo do século XX.
Edifícios mais antigos, com estruturas de concreto inadequado ou sem reforço sísmico, são os que colapsam primeiro quando o solo treme.
O mesmo padrão se repetiu na Venezuela em junho: La Guaira é uma cidade construída numa faixa estreita entre o mar e as montanhas, com pouco espaço e muita verticalidade — o que a torna especialmente vulnerável a sismos que sacudem estruturas verticais.
O Brasil está seguro?
É inevitável que o leitor brasileiro, depois de dois terremotos mortais em dois meses no continente, faça essa pergunta.
A resposta é: em grande medida, sim. O Brasil Central e a maior parte do território nacional estão assentados sobre o Escudo Brasileiro e o Escudo das Guianas — formações geológicas antigas, estáveis e muito distantes das bordas de placas tectônicas ativas.
A atividade sísmica no Brasil existe, mas é em geral de baixa intensidade e raramente causa danos significativos.
As regiões brasileiras com maior atividade sísmica relativa são o Nordeste — especialmente o Rio Grande do Norte e o Ceará, que registram pequenos tremores com alguma frequência — e o norte do país, mais próximo da fronteira com as zonas ativas.
Mas mesmo nesses casos, a intensidade é incomparável com o que acontece nos Andes ou na costa caribenha.
O Brasil tem a sorte geológica de ser um país velho — sua rocha é antiga, consolidada e estável. Enquanto os vizinhos andinos constroem suas nações sobre uma das zonas de colisão mais ativas do planeta, o Brasil repousa sobre uma das formações rochosas mais antigas e estáveis do hemisfério.
O que muda depois de um terremoto deste tamanho
Terremotos de magnitude 7,4 com epicentro em áreas habitadas deixam marcas que duram décadas. A reconstrução da infraestrutura danificada em Cali, Pereira e Manizales levará anos.
O trauma das populações afetadas — especialmente de quem perdeu familiares sob os escombros — não desaparece com o fim das operações de resgate.
Há também uma lição que os terremotos sul-americanos continuam ensinando e que os governos continuam assimilando lentamente: o investimento em preparação e em infraestrutura sísmica salva mais vidas do que qualquer operação de resgate.
O Chile, que está sobre a mesma Placa de Nazca e sofre terremotos ainda mais fortes do que a Colômbia, tem índices de mortalidade muito menores em desastres sísmicos — justamente porque décadas de investimento em normas construtivas rigorosas, sistemas de alerta precoce e planejamento urbano fizeram diferença.
A América do Sul não pode escolher onde está localizada no tabuleiro tectônico do planeta. Mas pode escolher como constrói suas cidades — e como se prepara para o próximo tremor, que não é questão de se vai acontecer, mas de quando.
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