Juro alto e falta de mão de obra desafiam investimentos no Brasil, diz CEO da Bosch

Gaston Diaz Perez tem 25 anos de carreira na Bosch, gigante global que investe e vende serviços de tecnologia em setores como mobilidade, indústria, agronegócio e bens de consumo. Começou como gerente na Argentina, seu país natal, passou pela Espanha e atuou como CFO e VP da companhia no Brasil antes de se tornar CEO para toda a América Latina, em 2022. Atualmente, também acumula a função de CEO global do grupo na área de serviços. Em conversa com o BRAZIL ECONOMY durante participação em um evento na capital paulista, ele abordou, entre outros temas, o atual momento da companhia no País e na região, além dos esforços no investimento em mão de obra qualificada na área de tecnologia. Confira:

A Bosch América Latina fechou o ano fiscal de 2025 com vendas de R$ 11,6 bilhões. A perspectiva é de mais um ano nesse patamar positivo?
A companhia está no mundo todo e o cenário atual é difícil, com muitas mudanças geopolíticas. Mesmo em um cenário desafiador, vamos bem na América Latina, com uma taxa de crescimento médio anual superior a 10% nos últimos cinco anos. Temos investido no Brasil para transformá-lo no centro de desenvolvimento global da área de agronegócio. Nós temos times na Alemanha, nos EUA e na Austrália que são gerenciados pelo Brasil, e isso, dentro da empresa, é uma novidade, já que geralmente unidades desses tamanhos são gerenciadas pela matriz. Sobre o restante da região, os negócios da Bosch vão bem nos demais mercados, com exceção da Venezuela, que tem uma problemática conhecida. Como destaques, cito Colômbia e Peru. Se pegarmos toda a região, vamos investir R$ 1 bilhão em 2026, e tudo isso posiciona a América Latina como uma das áreas de atuação mais competitivas do grupo globalmente.

A IA tem sido uma ferramenta utilizada pela companhia na região?
Sim. Vejo que a IA é uma parceira importante no processo de transição para a mobilidade sustentável, já que ela deve ser alcançada por múltiplas frentes que reduzam a dependência de uma única tecnologia e permitam uma adaptação gradual dos mercados e das infraestruturas. Aliás, já faz 25 anos que trabalho na companhia e, quando comecei no escritório de Buenos Aires, a primeira coisa que me falaram é que o respeito ao meio ambiente é um dos valores da Bosch. Então, não é algo que fazemos só agora porque o ESG entrou na moda. Sempre tivemos a preocupação de que nossos produtos ajudassem na redução do consumo de energia e água e na produção de produtos sustentáveis, e a IA é essencial nisso.

Pode citar exemplos de novas tecnologias nesse sentido?
Uma das mais interessantes é a nossa plantadeira inteligente, que coloca as sementes nos lugares desejados para ter uma maior produção. Também destaco as máquinas girantes que jogam produtos químicos a 20 km por hora por meio da inteligência artificial. A grande vantagem é que essa ferramenta mira e acerta apenas as ervas daninhas, garantindo um respeito maior ao solo.

Para desenvolver essas tecnologias, a Bosch deve recorrer a uma mão de obra mais qualificada. Isso tem sido um problema para a companhia no Brasil?
A falta de mão de obra com a devida qualificação é um fato, mas nosso caminho escolhido é investir no desenvolvimento dos talentos de que precisamos. Nós temos uma escola de talentos digitais de dois anos de duração dentro da Bosch, em Campinas, onde já estudam 400 jovens, e a meta é chegar a mil. Quando eles terminam o programa, 95% ficam conosco. Então, estamos formando nossa própria mão de obra para os projetos nacionais e internacionais da companhia. É uma forma de posicionar a região como um hub de serviços digitais para o mundo e possibilitar que jovens talentos tenham novas possibilidades de trabalho. Hoje, o Brasil é nosso 3º polo global de formação de mão de obra na área digital, atrás da Índia, que atende a Ásia e o Pacífico, e da Polônia, que atende a Europa.

Esse investimento na mão de obra é feito em outros países da região?
Não, nosso centro de investimento e desenvolvimento de talentos é o Brasil. Nos outros países latino-americanos, temos operações comerciais, logística, marketing e aplicação no geral, mas não temos engenharia e desenvolvimento digital. Isso está concentrado no mercado brasileiro.

Na última semana, o Banco Central reduziu a taxa de juros para 14%. Ainda é um patamar que prejudica os negócios da companhia?
Quando somos competitivos, conquistamos a confiança da matriz para aumentar os investimentos no mercado brasileiro, com esforços estratégicos que otimizam a cadeia de suprimentos e garantem aos clientes acesso a serviços de excelência. Por isso, claramente, para quem tem que investir na nossa tecnologia, o atual valor da Selic está atrapalhando. Este ano, a venda de máquinas agrícolas está difícil e esperamos que, nos próximos meses, isso comece a andar, mas os juros têm um peso importante, já que são equipamentos que você troca a cada cinco anos e, por isso, são considerados investimentos pesados.

A região de Campinas, onde fica a sede da Bosch, é vista como promissora para investidores da área de data centers. É algo de que a Bosch necessita para aumentar sua produtividade?
Não, já que estamos conectados às redes globais, gerenciadas principalmente por empresas dos EUA e outras que estão migrando para a Europa. Mas vejo que o Brasil está virando um hub de data centers, só que, na prática, com a era digital e a inteligência artificial, você se conecta às nuvens e não depende de que o data center esteja necessariamente perto da empresa.

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