O Racismo que o Brasil prefere ver no vizinho – Brasil 247

A Copa do Mundo está terminando. Neste domingo, Argentina e Espanha decidem o título, e depois de um mês de jogos, memes e indignação nas redes, o Brasil já formou sua opinião sobre quem é o vilão da vez: a Argentina. Vídeos de torcedores entoando cânticos racistas, gestos ofensivos em campo, inúmeras reportagens falando do apagamento histórico dos povos originários e da população afrodescendente no país vizinho, tudo isso circulou muito, e por semanas pareceu que o país inteiro tinha descoberto que racismo existe do outro lado da fronteira. Faz sentido, de certa forma: é justamente durante o Mundial que os holofotes estão ligados. Câmera em cima do jogador, microfone em cima da torcida, mundo inteiro assistindo. Qualquer gesto suspeito de racismo virou notícia internacional em minutos.

Só que esse holofote é seletivo e, olha só, nem para o outro finalista ele acende com tanta intensidade. A Espanha, que também disputa o título hoje, tem dentro do próprio elenco um retrato claro de como o racismo aparece ali. Lamine Yamal, hoje uma das principais peças da seleção espanhola, é filho de pai marroquino e já foi alvo de ataques racistas nas redes, inclusive ligados à sua origem. E ele não é um caso isolado: o futebol espanhol convive há anos com episódios desse tipo, dentro e fora de campo, muitas vezes disfarçados de “crítica”, “provocação” ou “brincadeira”.

E o próprio Vini Jr. é a prova mais gritante disso. Durante partidas pelo Real Madrid, ele foi alvo de racismo em campos espanhóis inúmeras vezes: gritos de macaco vindos da arquibancada, um boneco enforcado pendurado numa ponte antes de um clássico, faixas ofensivas, comentários tentando minimizar o problema como se fosse “provocação normal do futebol”. Ele precisou ir a público repetidas vezes, denunciar, cobrar punição e ainda enfrentar tentativas de minimizar o problema ou tratá-lo como exagero. Só que nada disso vira pauta com a mesma força por aqui durante a Copa.

Grande parte da indignação que circulou no Brasil durante a Copa se concentrou na Argentina, porque foi lá que muitos dos episódios ficaram mais evidentes, mais filmados, mais fáceis de recortar em quinze segundos de vídeo, mesmo com um brasileiro sofrendo o mesmo tipo de ataque, de forma recorrente, na própria Espanha que está na final hoje. E aí mora o problema: o Brasil aponta o dedo para o vizinho e esquece do próprio quintal. Porque o racismo brasileiro não precisa de Copa do Mundo para acontecer. Ele não depende de evento nenhum, está espalhado no cotidiano, o ano inteiro, longe de qualquer câmera internacional. Está na piada que ainda circula em churrasco de família e ninguém questiona. Está na suspeita automática diante de uma pessoa negra. Está na entrevista de emprego em que um bom currículo nem sempre é suficiente. Está no número de pessoas negras mortas pela polícia ou encarceradas, que segue absurdamente desproporcional e que, ao contrário do gesto de um torcedor argentino ou de um comentário racista contra Yamal, não costuma produzir a mesma onda imediata de indignação coletiva.

A diferença não está apenas na gravidade do racismo, mas também na visibilidade dele. O que acontece nos estádios, com câmera e replay, dá para recortar e condenar em um post. O que acontece no Brasil é estrutural, difuso e também se reproduz nas instituições, não cabe num vídeo curto, exige olhar para dentro, e isso incomoda muito mais.

Não é sobre defender o que rola nos jogos, nem na Argentina, nem na Espanha. Isso é grave e precisa ser denunciado, sem meio-termo. A questão é outra: por que a indignação ganha tanta força com o palco internacional ligado, especialmente quando o racismo vem do país que estamos torcendo contra? Por que essa mesma fúria não aparece quando o racismo está no vizinho, no colega de trabalho, nas instituições ou diante de nós mesmos, o ano inteiro, sem bola rolando?

Tem um ditado popular que cabe muito bem aqui: quem tem teto de vidro não deveria atirar pedra no telhado do vizinho. A gente adora atirar pedra durante a Copa, mas esquece que o nosso teto também é de vidro, e rachado há décadas. Enquanto a final acontece hoje e a Copa se encerra, vale a pena pensar: será que essa indignação toda vai continuar amanhã, quando não tiver mais jogo, nem Argentina, nem Espanha, só o Brasil de novo com seus próprios problemas?

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