Estudo projeta alta de 47% nas mortes por poluição do transporte no Brasil; reversão exige eletrificação ambiciosa da frota
Enquanto você lê a primeira frase desta reportagem, ao menos uma pessoa morreu prematuramente em decorrência da poluição do ar causada pelo transporte rodoviário. Segundo relatório do Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT), isso ocorre, em média, a cada 45 segundos. O estudo também aponta que a cada dois minutos um novo caso de asma infantil é registrado no planeta provocado pela mesma causa. Intitulado Health Benefits of Zero-Emission Transport Through 2050 (Benefícios à saúde do transporte de emissão zero, em português), o levantamento conclui que, sem uma transição acelerada para veículos elétricos, o número anual de mortes deverá crescer 74% até 2050 em todo o mundo. Para o Brasil, projeta-se um aumento 47% nos próximos 25 anos.
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Em um cenário de eletrificação acelerada da frota mundial, porém, seria possível reduzir em 63% essas mortes e em 80% os casos de asma infantil. Globalmente, isso representaria 8,8 milhões de mortes prematuras evitadas até 2050. No Brasil, seriam poupadas cerca de 65,2 mil vidas e evitados 18,6 mil casos de asma infantil no período. Atualmente, o transporte rodoviário responde por quase metade da exposição anual à poluição por partículas finas recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), tornando-se um dos principais alvos das políticas de melhoria da qualidade do ar.
— Somente em 2024, o transporte rodoviário contribuiu para quase 700 mil mortes prematuras e 250 mil novos casos de asma infantil no mundo. Enquanto países de alta renda avançam na transição de suas frotas, países de baixa e média renda caminham para concentrar uma parcela cada vez maior desses impactos, ampliando, e não reduzindo, as desigualdades globais, fator que torna esse cenário especialmente preocupante — afirma a coautora do estudo, Lingzhi Jin.
Em 2024, o Brasil registrou cerca de 8 mil mortes prematuras atribuídas à poluição do transporte rodoviário, ocupando a 17ª posição entre os 20 países mais impactados. Em novos casos de asma infantil relacionados à poluição veicular, aparece em décimo lugar, com cerca de 9,2 mil ocorrências no ano.
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O levantamento projeta que a frota mundial de veículos crescerá cerca de 40% até 2050. No Brasil, a expansão estimada é de aproximadamente 30%. Esse aumento da frota, combinado a controles de emissões ainda mais frágeis em países de baixa e média renda, sustenta a projeção de crescimento de 74% nas mortes prematuras em escala global.
Jonathan Benoit, desenvolvedor de modelos do ICCT e coautor do estudo — que respondeu ao blog diretamente de São Francisco (Califórnia) — explica que a “transição acelerada” corresponde ao cenário mais ambicioso modelado pelo estudo. Nele, 100% das vendas globais de veículos passariam a ser de modelos de emissão zero até 2045, com metas antecipadas para veículos leves e cronogramas diferenciados para cada região. No caso brasileiro, esse cenário prevê que os veículos elétricos representem cerca de 61% das vendas de veículos leves até 2035 e 100% até 2045. Para os veículos pesados, a participação dos modelos de emissão zero chegaria a aproximadamente 54% das vendas em 2035 e também alcançaria 100% em 2045. Trata-se, segundo Benoit, de uma trajetória muito mais acelerada do que a observada atualmente.
O pesquisador explica que essa transição pode ser analisada a partir de dois fatores: a velocidade com que as vendas de veículos novos migram para tecnologias de emissão zero e a rapidez com que essa mudança renova a frota em circulação. O estudo trabalha com dois cenários prospectivos.
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O primeiro, chamado Momentum, pressupõe que os governos implementem integralmente todas as metas nacionais e municipais anunciadas, propostas ou não vinculantes para veículos de emissão zero (ZEVs), concretizando ambições que vão além das políticas atualmente em vigor. Ainda assim, no Brasil esse cenário resultaria em apenas cerca de 57% das vendas de novos veículos leves e 12% das vendas de novos veículos pesados sendo elétricos até 2050. Já o cenário Ambicioso prevê que 100% das vendas de todos os tipos de veículos sejam de emissão zero até 2045.
— Nosso estudo mostra que, entre os cenários modelados, apenas o cenário ambicioso reduz o número absoluto de mortes prematuras atribuíveis à poluição do transporte rodoviário até 2050, tanto no mundo quanto no Brasil. Mesmo no cenário Momentum, que representa as metas declaradas pelos governos para a adoção de veículos de emissão zero, projeta-se que as mortes prematuras decorrentes da poluição do transporte rodoviário continuem aumentando, em parte porque as vendas de veículos e, consequentemente, o tamanho da frota global continuam crescendo. Portanto, para reverter essa tendência, o ritmo de incorporação de novos veículos de emissão zero à frota precisa mais do que compensar o aumento da frota de veículos com motor a combustão decorrente do crescimento das vendas — ressalta Benoit.
Pesquisador sênior do ICCT, o brasileiro André Cieplinski afirma que há dois fatores principais para compreender a situação brasileira. O primeiro é que o país conta há décadas com um programa voltado à redução das emissões dos poluentes locais — aqueles que afetam diretamente a saúde e a qualidade do ar — emitidos por veículos com motor a combustão. Isso inclui a adoção das fases mais recentes do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (PROCONVE), como a P8 para veículos pesados e a L8 para veículos leves. Embora tenham sido implementados posteriormente em relação a outros mercados, esses padrões estão alinhados às melhores práticas internacionais. Ainda assim, segundo o pesquisador, eles não são suficientes para reduzir o número de mortes prematuras diante do crescimento da frota brasileira.
— As vendas de veículos elétricos aceleraram no Brasil recentemente, alcançando 15% das vendas de veículos leves no último trimestre (abril, maio e junho de 2026), sendo 8% correspondentes a veículos de emissão zero e 7% a híbridos plug-in. As novas metas de emissões estabelecidas pelo programa MOVER (Mobilidade Verde e Inovação) podem ser consideradas neutras em relação aos veículos de emissão zero. O programa oferece alguns incentivos tributários, como uma redução de 2% no IPI em relação aos veículos flex com motor a combustão, mas essas medidas não são suficientemente ambiciosas e, por si sós, não devem impulsionar as vendas de ZEVs.
Cieplinski acrescenta que mais de nove estados brasileiros já concedem isenção ou descontos no IPVA para veículos de emissão zero. Também destaca o apoio de governos municipais e do governo federal à implantação de ônibus elétricos, por meio de linhas de financiamento subsidiadas para descarbonizar o transporte público. Por outro lado, ressalta, as vendas de caminhões de emissão zero ainda são incipientes, representando menos de 0,5% das vendas no último trimestre.
Marcel Martin, diretor-geral do ICCT Brasil, afirma que o país começa a dar sinais positivos em direção à eletrificação e que iniciativas como o TRUE reforçam a necessidade de acelerar esse processo.
— Quando observamos os poluentes locais, responsáveis por uma série de impactos negativos à saúde apresentados neste estudo, os benefícios da eletrificação tornam-se ainda mais evidentes.
Apesar da aceleração recente das vendas de veículos elétricos, Cieplinski avalia que o Brasil ainda está distante do cenário mais ambicioso projetado pelo estudo.
— Serão necessários incentivos adicionais e uma redução dos preços dos veículos de emissão zero para que o país alcance a redução de mortes prematuras estimada em nosso cenário ambicioso.
O estudo incorporou medições de emissões em condições reais de circulação realizadas pela iniciativa The Real Urban Emissions (TRUE), incluindo testes conduzidos na Região Metropolitana de São Paulo. Os resultados mostram que muitos veículos ultrapassam, nas ruas, os limites de emissões estabelecidos pelo PROCONVE, incluindo não apenas modelos mais antigos, mas também caminhões novos certificados segundo os padrões mais recentes da fase P8.
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