Como faz regularmente desde 1953, a China divulgou recentemente sua visão estratégica para o período de cinco anos entre 2026 e 2030. Em seu 15.º plano quinquenal, Pequim eleva a autossuficiência alimentar ao status de prioridade, pregando inclusive a moderação nas importações, algo que impacta diretamente o Brasil, principal fornecedor de produtos agrícolas para o gigante asiático.
Para atingir tal objetivo, a China está investindo em tecnologia e no aumento de produtividade para ampliar sua produção de proteína animal e de grãos como a soja. No primeiro trimestre de 2026, a produção de carne suína na China aumentou 4,2%, para 16,69 milhões de toneladas métricas, ante o mesmo período de 2025.
Apesar de ser a maior produtora de suínos do mundo, a China, dado o tamanho de sua população, ainda precisa importar carne de porco de outros mercados, entre os quais o Brasil. Mas quando amplia significativamente sua produção, como agora, a China acaba derrubando os preços no mercado internacional, comprimindo as margens de lucro dos exportadores brasileiros.
Além disso, traumatizado pelo surto de peste suína africana que levou ao abate de parte significativa do rebanho suíno chinês em 2019, o gigante asiático também está investindo em biossegurança para evitar que novos episódios de doenças impeçam o país de reduzir suas importações de carne de porco.
Paralelamente, Pequim visa ainda a ampliar a produção doméstica de soja nos próximos anos entre 13% e 30%, a depender da fonte da estimativa. Atualmente, a China produz cerca de 20 milhões de toneladas de soja por ano. Já o Brasil, apenas em 2025, exportou 80% de sua produção do grão, ou 87,1 milhões de toneladas, para o mercado chinês. Mesmo que a China só consiga incrementar sua produção de soja em 13%, isso não deixa de representar um desafio para os produtores brasileiros, especialmente porque os embarques recordes de soja daqui para a China no ano passado contaram com a ajuda inadvertida do presidente dos EUA, Donald Trump.
Em meio à guerra tarifária com Trump, Pequim reduziu em 2025 a compra de soja dos EUA, segundo maior produtor do grão, e ampliou importações oriundas do Brasil e da Argentina. Em 2026, porém, a China voltou a acelerar as importações de soja americana.
Como o principal alvo da renovada ofensiva protecionista de Trump é exatamente a China, a soja dos EUA é um fator importante nas negociações comerciais entre os dois países. O presidente chinês, Xi Jinping, será recebido por Trump na Casa Branca no final de setembro.
Não bastasse o contexto da guerra comercial, com o qual a China tem jogado muito bem escolhendo de quem compra ou não, Pequim também vem reduzindo o uso da soja como ração para animais, e tem apostado em um subproduto do milho chamado DDG. A China é um dos maiores produtores de milho do mundo, atrás apenas dos EUA e à frente do Brasil.
Embora especialistas apontem limitações no desejo manifesto chinês de ser autossuficiente na produção de alimentos – a disponibilidade de terras cultiváveis na China é pequena, e o uso do DDG como ração animal é desafiador porque o farelo de soja consumido pelos rebanhos é mais nutritivo –, o Brasil não pode ser apenas espectador das mudanças que Pequim vem buscando acelerar.
É verdade que a condição do Brasil de maior exportador de produtos agrícolas para a China não vai mudar da noite para o dia. Mas por mais que o plano de autossuficiência alimentar chinês envolva desafios de grande monta, convém não duvidar de uma nação que em pouco mais de três décadas converteu-se de um país miserável na segunda maior economia do mundo.
Cabe ao governo e ao setor agrícola do Brasil analisar conjuntamente os desdobramentos em curso na China e trabalhar para que o País amplie o valor de sua cadeia produtiva agrícola. A busca incessante de novos mercados para os produtos brasileiros também é um imperativo.
Se nada fizer, o Brasil corre o risco de perder protagonismo até mesmo em uma das poucas áreas, o agronegócio, nas quais se destaca globalmente.
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