O futuro tecnológico da Europa e o desenvolvimento de Portugal passam por Trás-os-Montes




Avelino Pinheiro

Telemóveis, computadores, inteligência artificial, equipamentos médicos, redes de energia, sistemas de comunicação e tantas outras inovações fazem parte do nosso quotidiano no século XXI. Vivemos uma era profundamente marcada pela tecnologia digital, que transforma a forma como organizamos a vida em sociedade. E há uma realidade que muitas vezes passa despercebida. Por detrás de praticamente tudo isto estão os minerais.

Portugal está plenamente inserido neste novo mundo tecnológico e tem razões para olhar para ele como uma oportunidade. Num momento em que os países procuram garantir acesso seguro às matérias-primas necessárias à indústria, à energia e à economia digital, o nosso território dispõe de uma base geológica e mineral relevante. Isso representa uma vantagem importante para um país que precisa de transformar os seus recursos em desenvolvimento e perspetivas de futuro para as pessoas.

Esta relação entre minerais e desenvolvimento, no entanto, não é nova. A própria história da humanidade foi organizada, em grande medida, a partir dos materiais que o homem aprendeu a utilizar. Falamos da Idade da Pedra, do Cobre, do Bronze e da Idade do Ferro porque cada uma dessas fases representou avanços importantes na forma de organizar as sociedades. Dominar novos materiais significou sempre ampliar as possibilidades humanas. 

Hoje fala-se frequentemente numa Idade do Silício. A expressão traduz bem o papel que os semicondutores assumiram na revolução digital. Mas esta nova era não depende apenas do silício. Ela depende de uma combinação crescente de minerais e metais necessários para manter a infraestrutura tecnológica que sustenta as sociedades modernas.

Entre eles está o tungsténio, também conhecido como volfrâmio. É um dos metais mais resistentes que existem e possui o ponto de fusão mais elevado entre todos os metais. Essa combinação de dureza, resistência ao desgaste e capacidade de suportar temperaturas extremas torna-o difícil de substituir em muitas aplicações.

O tungsténio é utilizado em componentes eletrónicos, tecnologias energéticas, ferramentas de corte e perfuração, equipamentos industriais, equipamentos médicos, aplicações aeroespaciais e de defesa. A Europa considera o tungsténio uma matéria-prima crítica estratégica e procura reduzir a dependência de fornecedores externos, pois garantir o acesso a determinados minerais tornou-se uma questão de competitividade.

E é precisamente neste ponto que uma discussão global se aproxima de nós. Um dos territórios portugueses onde o tungsténio tem uma presença especialmente relevante é Trás-os-Montes, mais precisamente nas Minas da Borralha, no concelho de Montalegre.

A ligação da Borralha ao tungsténio não começou agora e faz parte da história da região. Com a evolução tecnológica, este mineral volta a ter importância central no dia a dia de todos. É aqui que surge uma oportunidade para Portugal. Ter recursos desta natureza significa poder atrair investimento, desenvolver conhecimento, criar emprego qualificado e participar em cadeias económicas que serão cada vez mais importantes nas próximas décadas. Para o interior, onde a criação de oportunidades e a fixação de população são desafios permanentes, essa possibilidade ganha ainda maior relevância.

Naturalmente, possuir minerais não basta. O verdadeiro desenvolvimento depende da forma como somos capazes de os aproveitar. E, ao contrário do que acontecia noutras épocas, a mineração de hoje é pensada a partir de exigências ambientais e sociais muito mais rigorosas. Sustentabilidade, fiscalização e relação com as comunidades passaram a fazer parte do próprio conceito de um projeto mineiro moderno. Esta é uma diferença essencial em relação ao passado. 

A Idade da Pedra, do Cobre, do Bronze e do Ferro ajudaram a marcar diferentes etapas do desenvolvimento humano. E a revolução digital que vivemos agora é também geológica. Um smartphone parece ser um objeto puramente tecnológico, no entanto, dentro dele estão dezenas de metais provenientes de diferentes partes do planeta. Hoje, uma nova geração de minerais estratégicos ajuda a definir a capacidade tecnológica e industrial dos países.

Portugal tem a oportunidade de fazer parte desta nova etapa. Cabe-nos transformar a riqueza que temos no subsolo em oportunidades à superfície, com diálogo, planeamento e um debate saudável, baseado em factos e possibilidades. É assim que vamos poder aproveitar uma das melhores oportunidades de crescimento que surgiu nas últimas décadas para o nosso país. Este é um importante caminho para o futuro de Portugal.



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