‘O coração e a mente não se aposentam’, diz Monja Coen

São Paulo – Conhecida como uma das principais incentivadoras da prática de meditação no Brasil, Monja Coen Roshi recentemente precisou reaprender a meditar. Aos 78 anos, com dores no joelho, ela conta que já não consegue sentar-se no chão com as pernas cruzadas, na posição de lótus, como é chamada pelos adeptos da prática.

A líder espiritual falou em entrevista exclusiva ao VIVA sobre o impacto do envelhecimento na prática de meditação, durante os preparativos para o Encontro Mundial 2026, evento sobre espiritualidade que acontece em São Paulo dias 4 a 6 de junho. Atualmente, ela, que é a principal representante do Zen Budismo no Brasil, conta vem se adaptando a meditar sentada. 

Pode meditar sentado na cadeira, deitado na cama. Inspira e solta devagar. A respiração consciente oxigena melhor o nosso corpo todo. E nós podemos treinar o nosso corpo e a nossa mente a uma vida longeva e saudável.”

Na sua própria prática de meditação, ela diz que o processo de envelhecimento trouxe novas perspectivas. “Eu acredito que é mais fácil agora acessar esse estado de plena atenção, de presença pura. Porque, mais jovens, nós queremos ter reconhecimento público. E depois de certa idade isso é menos importante.” 

De acordo com o dicionário Michaelis, meditar é “refletir, concentrar-se em longas e profundas reflexões”. Para Monja Coen, o significado é mais amplo, é uma maneira de estar no mundo que é mais meditativo, mais compreensivo, que procura as causas e as condições daquilo que está acontecendo.

Há várias práticas meditativas, e o zen budismo da escola Soto, ao qual ela é adepta, é apenas uma das muitas vertentes. Nenhuma delas tem restrição de idade.

Qualquer idade é a idade de começar, de aprender, de desenvolver a sua capacidade neural. Quanto mais conexões neurais, melhor ficamos, então temos que nos estimular, como tudo na vida é estímulo. Se eu paro de estimular, é como um músculo, vai atrofiando. Não deixe que a sua mente, o seu corpo atrofiem”.

A velhice no budismo

Coen conta que no zen budismo velhice significa honra. “A ideia de antigo, de velho, de mais idoso, tem sempre uma conotação de sabedoria, de quem já viu tantas vezes as coisas acontecerem e é capaz de resolver questões com mais sabedoria.”

‘Velhice não tem cura, mas há longevidade saudável’, defende Monja Coen – Divulgação/Encontro Mundial 2026

Daí o termo Roshi, que acompanha seu nome no budismo. Ro quer dizer idosa, velha, e shi é professora. Professora mais velha, como ela explica. É a ideia da velhice como um estado de conhecimento mais profundo e de uma percepção mais clara da realidade. “Porque a gente sai um pouco dessa concorrência do mercado de trabalho, da visibilidade, porque tudo isso já ficou  para trás. E você pode se dedicar mais a estudar, a poder dar aulas, encaminhar pessoas.”

Coen conta que em sua ordem religiosa existem três tipos de mente que todo ser humano deveria cultivar, e uma delas é a mente da pessoa idosa.

“É a mente que vê com ternura, com cuidado, […] que já viu tantas vezes, é mais paciente. Por exemplo, a avó é mais paciente com os netos do que a mãe […], cuida com outro olhar”.

Ela própria, como avó e bisavó, diz cultivar o princípio da ternura, tanto com sua única neta quanto com os dois bisnetos. “O marido da minha neta diz para mim: ‘A senhora brinca com eles como se fosse uma criança da mesma idade’. E por isso é mais fácil de relacionar. Eu não estou lá para educá-los, para dizer ‘façam isso, façam aquilo’, mas ao brincar, a gente vai transmitindo valores e princípios.” É o que ela chama de educação para uma cultura de paz.

Acho importante que a gente crie uma cultura de paz. Como tem cultura de arroz, de feijão, de cana, de café, vamos cultivar a paz. E como é que se cultiva? Você põe, já nessa primeira infância, uma sementezinha de paz e de ternura.”

Marcas da vida

Recentemente Monja Coen também passou a ver mais de perto as rugas no corpo, especialmente após mudar para uma casa com um grande espelho no banheiro. “Cada dia eu estou um pouquinho mais velha. E eu não percebia isso antes, eu tenho 78 anos agora, e cada dia eu percebo marcas na minha face que são do travesseiro, da maneira de dormir, da maneira de sorrir, que vão marcando a nossa face”, conta, e completa: 

A vida é como se houvesse um cinzel de um escultor que vai marcando o nosso corpo e a nossa face. Isso é bonito porque tem a história da nossa existência nas marcas que ficam. Eu não tenho intenção de por ‘botox’, de fazer com que a minha face pareça mais jovem do que ela é.”

Coen diz que não vê problemas em quem recorre a procedimentos estéticos, mas observa que existe no mundo uma ode à juventude e o conceito de que velho é descartável, “não presta mais” e que é feio ter rugas”.  Nesse sentido, ela diz que convive bem com a idade atual e que se percebe mais cuidadosa com a saúde física e mental.

O coração não se aposenta, a mente não se aposenta. Velhice não tem cura, mas existe longevidade saudável.”

Ela defende que ao manter o corpo ativo e a mente ativa, “a velhice pode ser maravilhosa, porque sempre podemos aprender mais, ter novos conhecimentos.” É possível uma vida longeva com saúde, com bem-estar, com contentamento, com sabedoria, ressalta a monja. “É isso que eu acho que a gente tem que cultivar na nossa vida: a sabedoria, a bondade, a compaixão.”

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