“Acho que o único descuido foi o estresse. Muita gente fala que o esporte pode machucar, pode isso, pode aquilo, mas ninguém coloca como está a vida profissional das pessoas, né? Como está essa loucura do dia a dia, de cumprir metas, de responder e-mails, reuniões…”.
Essa frase da Maria Eugênia Barreto, viúva de Júlio Barreto, corredor que morreu depois de participar da SP City Marathon, no último dia 26, me marcou. Ela nos recebeu para uma entrevista gravada para o Domingo Espetacular, da RECORD.
A frase sozinha, é claro, não explica o que aconteceu. A causa de um infarto é complexa e envolve uma série de fatores que só podem ser avaliados pelos cardiologistas. Mas aquela declaração ficou martelando na minha cabeça.
E me fez pensar em algo que talvez muitos de nós, corredores, deixemos em segundo plano.
A gente fala de pace, de planilha, de tênis, de alimentação, de hidratação, de fortalecimento. Aprende a ouvir o corpo quando o joelho dói ou quando o ritmo não encaixa.
Mas e quando é a cabeça que está cansada? Será que prestamos a mesma atenção?
Foi essa dúvida que me levou a conversar com o médico cardiologista esportivo, Dr. Ricardo Contesini. A primeira resposta dele já derruba uma ideia que muita gente tem.
“O exercício físico é um dos maiores protetores do coração, mas não é um antídoto completo contra o estresse crônico.”
Muitos de nós temos aquela sensação de missão cumprida depois de correr. A gente corre para sentir esse prazer depois do exercício. Como se aqueles quilômetros fossem suficientes para compensar uma rotina de pressão, noites mal dormidas, preocupação constante e, muitas vezes, pouco tempo para descansar.
Só que o corpo não faz essa conta.
Segundo o médico, quando vivemos sob estresse constante, o organismo continua em estado de alerta praticamente o tempo todo, inclusive durante o sono. Isso faz aumentar a liberação de adrenalina, o hormônio do alerta, que eleva a frequência cardíaca e a pressão arterial. Ao mesmo tempo, o cortisol, conhecido como hormônio do estresse, continua alto por mais tempo. Esse conjunto de alterações favorece o aumento da pressão, pode piorar o colesterol, facilitar o acúmulo de gordura visceral e alterar o metabolismo da glicose.
A corrida ajuda? Muito!
“O treino regular compensa parte desse dano: melhora a frequência cardíaca, reduz o cortisol basal e a inflamação. Mas quem treina bem e dorme mal vive em pressão constante e não tem tempo de recuperação, perdendo boa parte deste benefício. O estresse crônico também sabota a recuperação muscular, o sono e a consistência do treino, criando um ciclo difícil de quebrar”, explica o cardiologista.
Em pessoas que já tenham alguma alteração cardiovascular, muitas vezes ainda desconhecida, esse aumento da demanda sobre o coração pode favorecer isquemias, desencadear arritmias e funcionar como gatilho para um evento cardíaco.
“A atividade física regular precisa vir acompanhada de uma avaliação cardiológica, principalmente antes da prática de exercícios mais intensos, para identificar alterações que muitas vezes são silenciosas”, orienta o Dr. Ricardo Contesini.
Mais do que isso, ele reforça que cuidar do coração também significa cuidar da recuperação.
Sono regular, alimentação equilibrada com proteínas e fibras, treinos bem distribuídos e evitar o excesso de estimulantes fazem parte da mesma estratégia de prevenção.
Existe um cansaço que não está no ritmo dos treinos. Ele vai se acumulando em reuniões, prazos, preocupações, noites mal dormidas e na sensação de que estamos sempre correndo, mesmo quando não estamos.
Talvez seja esse o esforço mais difícil de medir. Continuar correndo continua sendo uma das melhores escolhas para a nossa saúde.
Enxergar esse estresse quase invisível e cuidar dele com a mesma dedicação que cuidamos dos treinos pode ser uma das formas mais importantes de proteger o coração.

Perfil do médico
Dr. Ricardo Contesini é médico cardiologista, especialista em Cardiologia do Esporte. Formou-se em Medicina pela PUC-SP, fez residência em Clínica Médica na Faculdade de Medicina do ABC e em Cardiologia na Unicamp.
Também concluiu pós-graduação em Medicina Esportiva pela Unifesp e atuou por quinze anos como assistente da Seção de Cardiologia do Esporte do Instituto Dante Pazzanese.
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