O presidente eleito do Movimento para a Democracia (MpD, oposição), Paulo Veiga, disse esta quinta-feira à Lusa estar aberto a entendimentos com o Governo cabo-verdiano. “O senhor primeiro-ministro, presidente do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), chamou-me a dar os parabéns e tivemos uma boa conversa durante dez minutos”, referiu, em entrevista à Lusa.
Uma conversa com Francisco Carvalho a que se seguirão outras. “Vamos, na diferença, encontrar os melhores caminhos para Cabo Verde”, assegurou.
Paulo Veiga apontou o exemplo da eleição de órgãos externos ao parlamento, que exige entendimento entre os partidos. “É um problema que afeta o país e nós, desde já, mostrámos total abertura para se chegar a acordos e avançar com a aprovação desses órgãos externos o mais rapidamente possível. O país não pode ter um Tribunal Constitucional ou uma Comissão Nacional de Eleições (CNE) com dois mandatos de atraso”, disse.
Noutro âmbito, revelou que o MpD tem “uma equipa montada para analisar ao detalhe o Orçamento do Estado” para 2027. “Desde já, preocupa-nos bastante a ideia de dar tudo de graça, porque tem de haver contrapartida. O dinheiro não cai do céu”, referiu, mostrando-se, ao mesmo tempo, desfavorável ao aumento de impostos ou de taxas alfandegárias.
“Há linhas em que iremos trabalhar. Fala-se muito em redução de custos e queremos ver essas reduções. O que sentimos nestes primeiros 70 dias de Governo é que andam a dizer que vão eliminar institutos e órgãos e estão ao mesmo tempo a criar”, acrescentou.
Paulo Veiga assinalou também fatores externos: “O preço do combustível disparou, mas ao que parece vai disparar ainda mais. E como é que nós vamos lutar contra isto? Como é que o Governo deixou de aplicar as medidas que o anterior tinha para minimizar o aumento de custo de vida dos cabo-verdianos?”, questionou.
O acompanhamento da ação governativa será feito pelo MpD “através de gabinetes de estudos, por setor e por área”, permitindo suportar também a argumentação do grupo parlamentar.
Sem assento na Assembleia Nacional, Paulo Veiga rejeitou a ideia de que isso o prejudique ao liderar a oposição. “Acho que até é uma oportunidade para organizar o partido. Porque há dois desafios, a oposição e o país”, de um lado, e, por outro, “preparar o partido para os desafios vindouros”.
Num mundo em mutação, o líder eleito do MpD pensa que Cabo Verde precisa de aproximar-se de África — “acho que ambos os partidos têm falado muito disso, mas prestado muito pouca atenção ao continente” —, sem contudo deixar de estar atento ao resto do mundo.
“Cabo Verde tem sido capaz de manter este equilíbrio, eu acho que o MpD deve fazer o mesmo e reforçar as relações com os parceiros”, disse. E acrescentou: “O mundo está numa mudança tão rápida que vamos ter de [nos] ajustar a toda a hora, mas, definitivamente, sem violar o básico e o essencial do MpD, que é um partido democrático, republicano e que defende os direitos humanos”.
O presidente eleito do MpD venceu em 22 dos 32 círculos internos e obteve mais votos que os outros dois adversários juntos: Paulo Veiga recebeu 4.545 votos, Herménio Fernandes recolheu 3.754 e Luís Filipe Tavares 716.
Da mesma forma, Veiga conquistou a maioria dos votos (4.563) para escolha de delegados à XIV Convenção Nacional, a realizar nas próximas semanas e cujas datas serão divulgadas em breve.
Paulo Veiga sucederá a Ulisses Correia e Silva, que se demitiu depois da derrota eleitoral de maio, que levou o PAICV de Francisco Carvalho ao Governo com maioria absoluta no parlamento, após dois mandatos (10 anos) do MpD.
O PAICV tem 37 dos 72 lugares da Assembleia Nacional, o MpD reúne 33 deputados e a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) elegeu dois parlamentares.
Para assegurar a transição interna que agora terminará, o MpD escolheu Eurico Monteiro, antigo ministro da Modernização do Estado e da Administração Pública, como presidente interino do partido.
Na Assembleia Nacional, a bancada parlamentar do MpD é liderada por Luís Carlos Silva e tem como vice-presidentes Damião Medina, Sandra Galina, Lídia Lima e Edson Líver Gomes.
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