247 – A tentativa do governo de Donald Trump de ampliar a influência política, econômica e militar dos Estados Unidos sobre a América do Sul ocorre em um cenário regional marcado pelo avanço de governos de direita e extrema direita, mas não significa que esses países estejam dispostos a seguir automaticamente as orientações de Washington. No centro desse tabuleiro está o Brasil, cuja dimensão econômica, territorial e comercial impõe limites a uma reorganização do continente baseada exclusivamente no alinhamento com os Estados Unidos.
A avaliação foi feita pela jornalista Márcia Carmo, correspondente em Buenos Aires, durante entrevista ao programa Ponto de Vista, da TV 247. Ao analisar a conjuntura sul-americana, ela destacou que governos ideologicamente próximos de Trump adotam comportamentos distintos diante da disputa entre Estados Unidos, China e Brasil. Segundo a jornalista, Javier Milei, na Argentina, constitui o caso mais explícito de alinhamento com Washington, enquanto outros governos conservadores mantêm uma política mais pragmática.
“Milei é o único que realmente a gente vê como fechado com os Estados Unidos”, relatou Márcia, citando avaliações de fontes do governo brasileiro.
Segundo ela, essa distinção ajuda a compreender os limites da estratégia norte-americana para recuperar influência na América Latina. Mesmo governos que participam de iniciativas propostas por Washington procuram preservar a margem de autonomia nas relações internacionais, principalmente porque suas economias dependem do comércio com Brasil e China.
Márcia mencionou como exemplo o chamado “Escudo das Américas”, iniciativa apresentada pelo governo Trump com participação de países latino-americanos e voltada, entre outros pontos, à cooperação militar e ao combate ao tráfico de drogas. A adesão, porém, não representa necessariamente submissão política aos Estados Unidos.
A jornalista lembrou a posição manifestada pelo chanceler chileno Francisco Pérez Mackenna: “Não somos quintal de ninguém”. Para Márcia, a frase resume uma postura que começa a aparecer entre governos conservadores da região: aproximação com Washington sem abandono das relações econômicas e diplomáticas com outras potências.
“Estar no Escudo das Américas não significa que eu vou fazer tudo que vocês querem”, sintetizou.
O cenário ocorre enquanto os Estados Unidos procuram ampliar sua presença no continente em meio à expansão econômica da China. Pequim tornou-se o principal parceiro comercial de grande parte dos países latino-americanos e ocupa uma posição particularmente relevante nas economias exportadoras da América do Sul.
Essa realidade cria um conflito entre afinidade ideológica e necessidade econômica. Governos de direita podem buscar aproximação política com Trump, mas enfrentam dificuldades para romper vínculos comerciais construídos durante décadas com Brasil, China e outros mercados.
A Argentina representa um dos exemplos mais evidentes dessa contradição.
Desde que assumiu a Presidência, Javier Milei transformou a proximidade com Trump em um dos principais elementos de sua política externa. Segundo Márcia Carmo, o argentino já realizou 18 viagens aos Estados Unidos, muitas delas relacionadas a encontros políticos ligados à direita internacional.
A jornalista também afirmou que Milei planeja nova visita ao país para apoiar Trump nas eleições legislativas norte-americanas de novembro.
Essa aproximação ocorre enquanto as relações políticas entre Argentina e Brasil atravessam um período de tensão. Milei participou de atividades políticas no Brasil ao lado de adversários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e realizou ataques públicos ao presidente brasileiro.
Para Márcia Carmo, trata-se de uma situação sem precedentes recentes na diplomacia regional.
“Nunca vimos antes um presidente ir ao nosso país, subir no palanque da oposição e atacar o presidente da República”, afirmou.
O problema, segundo ela, é que a confrontação política esbarra em uma relação econômica construída ao longo de décadas.
O Brasil é um dos principais parceiros comerciais da Argentina, enquanto o mercado argentino tem importância particular para a indústria brasileira. Automóveis, máquinas, equipamentos e outros produtos manufaturados brasileiros encontram no país vizinho um de seus principais destinos externos.
“A Argentina é o destino das principais exportações industriais do Brasil”, destacou Márcia.
A integração também ultrapassa o comércio. Brasil e Argentina possuem mecanismos de cooperação energética e cadeias produtivas interligadas, além das estruturas institucionais criadas desde os governos de José Sarney e Raúl Alfonsín, nos anos 1980, processo que posteriormente resultaria na criação do Mercosul.
Por isso, segundo a jornalista, mesmo setores argentinos que apoiam as reformas econômicas de Milei questionam o confronto permanente com Brasília.
“Como assim? Por que ele está brigando com o Brasil, que é nosso parceiro?”, relatou Márcia ao reproduzir uma avaliação recorrente entre empresários e integrantes das elites econômicas argentinas.
A avaliação presente no governo brasileiro, segundo ela, é de que a relação entre os dois países é estrutural e sobreviverá ao atual conflito presidencial.
“Milei vai passar”, afirmou, reproduzindo a percepção de interlocutores brasileiros. “Mesmo que ele seja reeleito, Milei vai passar. A relação bilateral é tão estruturada que não pode ser abalada por essas agressões.”
Isso não significa, entretanto, que o conflito não produza consequências.
Segundo Márcia, a ausência de diálogo direto entre Lula e Milei impede que Brasil e Argentina avancem para novas etapas de cooperação. Questões comerciais, energéticas, migratórias, educacionais e relacionadas aos direitos humanos poderiam ser tratadas conjuntamente, mas permanecem limitadas pela deterioração da relação política.
“A relação está ótima, mas parou. Ela não vai crescer por causa das agressões de Milei”, resumiu.
A disputa entre Estados Unidos e China também interfere diretamente nessa equação. A jornalista destacou que o crescimento da presença econômica chinesa na América Latina é um dos fatores que ajudam a explicar a renovada atenção de Washington para o continente.
Brasil e China disputam atualmente a posição de principal parceiro comercial da Argentina dependendo do período analisado. No conjunto da América Latina, porém, Pequim ocupa posições cada vez mais relevantes, especialmente na América do Sul.
Essa dependência comercial limita a possibilidade de alinhamentos políticos absolutos.
No Chile, Márcia identifica uma estratégia diferente da adotada por Milei. Embora o governo de José Antonio Kast esteja ideologicamente situado à direita e participe de iniciativas promovidas pelos Estados Unidos, Santiago continua mantendo relações políticas e econômicas com Pequim.
“O Chile é: vamos falar com todos”, explicou.
A localização geográfica ajuda a compreender essa política. Chile, Peru e Colômbia possuem saída para o Oceano Pacífico e relações comerciais consolidadas com mercados asiáticos. O Chile também mantém uma ampla rede de acordos de livre comércio construída ao longo de décadas.
A mesma lógica aparece no relacionamento desses governos com o Brasil.
Márcia citou declarações de Kast depois de uma reunião com Lula: “Se o Brasil for bem, o Chile irá bem”.
A frase, segundo a jornalista, demonstra que identidade ideológica não elimina a necessidade de convivência com a maior economia da América do Sul.
O mesmo ocorre no Peru. Márcia destacou que Keiko Fujimori, embora situada no campo da direita, reconheceu publicamente a importância da liderança brasileira para a integração regional.
“O Brasil e Lula são os únicos que podem unir o continente”, disse a dirigente peruana, segundo relato da jornalista.
Essa postura evidencia uma das principais dificuldades enfrentadas pela estratégia norte-americana na região. A América do Sul não é politicamente homogênea, mas tampouco pode ser reorganizada ignorando os fluxos comerciais, energéticos e produtivos existentes entre seus países.
Nesse cenário, o tamanho do Brasil aparece como elemento central.
“Você não pode ignorar um país dessas dimensões”, afirmou Márcia.
Além de possuir a maior população e a maior economia sul-americanas, o Brasil mantém fronteiras com quase todos os países do subcontinente e participa de cadeias comerciais, energéticas e industriais que tornam Brasília um interlocutor necessário mesmo para governos ideologicamente distantes do Palácio do Planalto.
A jornalista avalia que uma eventual continuidade do governo Lula tende a aprofundar essa dinâmica. Presidentes latino-americanos de diferentes orientações políticas procurariam ampliar o diálogo com Brasília diante da necessidade de preservar relações econômicas e equilibrar a influência das grandes potências.
“Eu acho que vai ser uma busca de maior aproximação, à exceção do Milei”, projetou.
Ela citou Chile, Peru, Bolívia, Paraguai e México entre os países que podem ampliar o relacionamento com o Brasil. Diplomatas e integrantes desses governos já mantêm contatos com Brasília mesmo em meio às diferenças ideológicas.
Essa estratégia contrasta com a atuação externa do governo Jair Bolsonaro, período em que, segundo Márcia, o Brasil reduziu sua capacidade de articulação regional.
Com Lula, disse ela, o país voltou a priorizar contatos com governos de diferentes orientações.
“O Brasil com Lula é conexão, é multilateralismo, é conversar com os vários governos”, afirmou.
A política externa brasileira, dessa forma, passa a funcionar como um dos obstáculos à formação de um bloco sul-americano organizado exclusivamente em torno de Washington.
A disputa não ocorre apenas no campo ideológico. Ela envolve comércio, energia, infraestrutura, investimentos, segurança e relações com a China. Mesmo presidentes próximos politicamente de Trump precisam levar esses fatores em consideração antes de assumir compromissos que possam comprometer suas relações com outros parceiros.
O comportamento de Milei aparece novamente como exceção.
Márcia observou que a concentração da política externa argentina em Trump também produz questionamentos internos sobre os riscos de depender excessivamente do resultado da política norte-americana.
“O que pode acontecer se Trump perder as eleições legislativas? Como fica Milei, que coloca o foco da sua política externa em Trump, Trump, Trump?”, questionou.
Para a jornalista, esse debate já alcançou setores argentinos que defendem abertura econômica e apoiam parte do programa do presidente, mas discordam do alinhamento praticamente exclusivo com Washington.
O continente, portanto, encontra-se diante de um processo de reorganização em que as afinidades políticas convivem com interesses econômicos frequentemente contraditórios.
De um lado, o governo Trump tenta consolidar uma esfera de influência no hemisfério ocidental e conter a presença chinesa. De outro, economias sul-americanas construíram durante as últimas décadas vínculos comerciais que tornam inviável uma divisão rígida entre Washington e Pequim.
Entre essas duas forças, o Brasil ocupa uma posição própria.
Para Márcia Carmo, independentemente das diferenças ideológicas entre os governos da região, a combinação de território, população, economia, comércio e capacidade diplomática brasileira tende a obrigar os países vizinhos a manter canais de negociação com Brasília.
É essa realidade que estabelece os limites da pressão norte-americana sobre a América do Sul: governos podem aproximar-se politicamente de Trump, mas continuam inseridos em uma região cuja principal economia permanece indispensável para seu comércio e sua articulação internacional.
“Os presidentes que têm cabeça política sabem disso”, concluiu Márcia. “Milei, como disse uma fonte do Itamaraty, é a exceção nesse universo.”
❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com [email protected].
✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.
Marque o Brasil 247 como fonte preferida no Google:
Apoie o jornalismo independente do 247:
Cortes 247
Crédito: Link de origem