247 – A influência de Fernando Cerimedo e de seu grupo de extrema direita marcou as eleições no Peru, especialmente a campanha de Keiko Fujimori, com operações digitais, ataques contra adversários e uma iniciativa paralela de apuração dos votos, segundo reportagem da teleSUR baseada em investigação do jornalista Marco Sifuentes.
Segundo a reportagem, o grupo de Cerimedo também mantém conexões com movimentos de extrema direita da América Latina e com setores políticos dos Estados Unidos. A estrutura teria ajudado a difundir narrativas favoráveis ao fujimorismo e a enfraquecer a candidatura de esquerda de Roberto Sánchez durante o segundo turno peruano.
Encontros nos Estados Unidos e aproximação com o fujimorismo
Cerimedo é fundador do jornal La Derecha Diario, criado em parceria com o jornalista espanhol Javier Negre. O consultor argentino já esteve ligado a campanhas de Javier Milei, na Argentina, Jair Bolsonaro, no Brasil, e Rodrigo Paz, na Bolívia, além de manter relações com nomes da direita regional, como Patricia Bullrich e Nasry Asfura.
Em dezembro de 2025, Cerimedo anunciou que o jornal colaboraria com um dos candidatos à Presidência do Peru. Dois meses depois, Javier Negre divulgou um encontro com Keiko Fujimori em Mar-a-Lago, residência de Donald Trump em Palm Beach, na Flórida. De acordo com Sifuentes, Negre sugeriu que aquela não teria sido a primeira reunião entre os dois.
O jornalista também afirmou que Negre tornou público o slogan utilizado pelo fujimorismo na campanha: “Traremos ordem ao Peru”.
Durante a segunda etapa da disputa, La Derecha Diario intensificou os ataques contra Roberto Sánchez. A plataforma divulgou acusações que colocavam em dúvida a legitimidade da candidatura do opositor, associavam-no a posições classificadas como ditatoriais e compartilharam conteúdos manipulados que o mostravam ao lado do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Plataforma anunciou contagem alternativa no dia da votação
Um dos principais indícios da ligação entre Cerimedo e a operação eleitoral surgiu em 7 de junho, data do segundo turno. Naquele dia, o consultor registrou o domínio da plataforma Ojo de Cóndor usando dados de contato de sua empresa de consultoria na Argentina.
No dia seguinte, Cerimedo publicou no X uma mensagem anunciando a existência de uma “contagem paralela cidadã” dos votos. A iniciativa se apresentava como um projeto privado para recolher atas eleitorais, comparar resultados e oferecer uma apuração alternativa à oficial.
A plataforma tinha ainda uma área de acesso restrito por senha, destinada a operadores. Seu porta-voz era Andrés Salas, oficial aposentado da Marinha peruana que havia participado de investigações sobre uma suposta fraude nas eleições de 2021.
Inicialmente, Salas apresentou o Ojo de Cóndor como uma iniciativa ligada à Associação União Naval, formada por militares aposentados, sem mencionar a participação de Cerimedo. Depois de ser procurado pela equipe de La Encerrona, reconheceu que o consultor argentino havia participado do projeto.
Salas disse ter realizado reuniões virtuais com Cerimedo, mas afirmou não saber qual era exatamente a função desempenhada por ele. O ex-oficial também atribuiu a origem da plataforma a um grupo de empresários cuja identidade decidiu não revelar.
A aproximação entre o círculo de Cerimedo e o novo governo peruano voltou a aparecer em 28 de julho, durante a posse de Fujimori. Javier Negre compareceu à cerimônia no Palácio do Governo e foi fotografado ao lado da presidente.
Rede com base em Miami mirava governos de esquerda
A teleSUR também citou uma investigação do Observatório de Meios do Cubadebate, baseada em documentos registrados nos Estados Unidos sob a Foreign Agents Registration Act (FARA), legislação que exige a divulgação de atividades de agentes que atuam em nome de interesses estrangeiros.
De acordo com o levantamento, Cerimedo teria estruturado na Flórida uma rede empresarial e midiática com alcance transnacional. Miami seria um dos principais centros de operação desse sistema, que combinaria empresas, lobby político e plataformas digitais para apoiar forças de direita e atacar governos e movimentos de esquerda.
Entre os contatos citados está Damián Merlo, empresário argentino-americano e proprietário da Latin America Advisory Group (LAAG). As atividades de lobby da empresa junto ao Congresso e ao governo dos Estados Unidos aparecem nos registros da FARA.
A rede também teria conexões com Brad Parscale, ex-chefe da campanha de Donald Trump em 2020, e Roger Stone. Por meio desses contatos, Cerimedo teria se aproximado de setores ligados ao governo Trump, entre eles o então senador Marco Rubio.
Os documentos analisados apontam que o grupo atuava na identificação de espaços em veículos de comunicação norte-americanos, na produção de artigos de opinião e na construção de contatos com senadores e deputados.
Empresas foram criadas para sustentar a estrutura
Um dos braços empresariais mencionados na investigação é a NUMEN Advisors LLC, registrada em 24 de maio de 2023 em North Miami, na Flórida. A companhia foi inscrita sob o número L23000254200 e estabeleceu endereço na Biscayne Boulevard.
Três meses depois da criação, a NUMEN assinou um memorando de entendimento com Damián Merlo. O acordo ampliou a conexão de Cerimedo com o circuito empresarial e político instalado no estado norte-americano.
A infraestrutura empresarial funcionava paralelamente a outros projetos de comunicação associados ao consultor. Entre eles estão La Derecha Diario e a plataforma UHN Plus, relacionada à divulgação de conteúdos difamatórios contra Cuba.
Em outubro de 2025, Javier Negre investiu na UHN Plus, assumiu a vice-presidência e passou a dividir a propriedade do veículo.
Outro documento oficial, apresentado ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos, registra um contrato de colaboração assinado em 4 de setembro de 2023 entre Merlo e Cerimedo. O acordo estava relacionado à campanha presidencial de Javier Milei e previa ações de comunicação nos Estados Unidos, elaboração de textos opinativos e contatos com integrantes do Congresso.
Ataque contra ex-companheira abriu investigação mais ampla
Cerimedo está preso preventivamente no complexo penitenciário de Palmasola, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A Justiça determinou 180 dias de detenção por sua suposta responsabilidade em uma tentativa de feminicídio contra a ex-companheira, a advogada Nadia Beller.
Beller foi baleada por criminosos contratados em Santa Cruz e ficou ferida. O ataque levou à prisão do consultor e desencadeou uma investigação que passou a examinar também seus negócios, conexões políticas e operações digitais.
O Ministério Público boliviano abriu ainda um processo por suposto enriquecimento ilícito. Com isso, o caso deixou de se limitar à violência contra Beller e passou a investigar a rede empresarial e política construída por Cerimedo em diferentes países latino-americanos.
Durante as buscas, as autoridades encontraram mais de US$ 40 mil e uma estrutura descrita como uma “fazenda de bots”. A descoberta ampliou as suspeitas sobre o uso de operações automatizadas e campanhas coordenadas de comunicação.
As informações reunidas pela teleSUR e pelas investigações citadas colocam Cerimedo e seu entorno no centro de uma articulação que combina influência eleitoral, produção de conteúdo político, lobby internacional e disseminação de narrativas digitais em disputas pelo poder na América Latina.
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