É preciso ter uma certa coragem para largar uma vida confortável e optar por um estilo de vida desprovido de luxos. E até de supermercados ou manuais escolares. Mas José Miuz e Sandra Alonso não tiveram medo em fazê-lo.
À primeira vista, parecia que nada lhes faltava. Viviam num apartamento moderno em Girona, Espanha, tinham uma empresa de desenvolvimento de software com funcionários, estabilidade financeira e todas as comodidades de uma vida urbana bem-sucedida. No entanto, por detrás dessa imagem de sucesso, sentiam um vazio difícil de ignorar.
“Deixámos tudo o que tínhamos: a nossa casa, toda a nossa empresa, tudo o que tínhamos construído… para ir para o campo. Tudo isto nasceu de uma profunda insatisfação que sentíamos”, recorda Sandra num vídeo partilhado pelo criador de conteúdos Arnau Serrado, conhecido por entrevistar pessoas que decidiram abandonar a cidade para viver de forma mais simples e próxima da natureza.
Segundo o casal, apesar de corresponderem à ideia de uma vida “perfeita”, a realidade era bem diferente. “Vivíamos insatisfeitos: não havia um propósito de vida e discutíamos muito. As dinâmicas familiares não funcionavam e, na verdade, nem sabíamos porquê”, explicam.
Essa inquietação levou-os a procurar refúgio na natureza. Primeiro através de escapadelas de alguns dias, depois com visitas cada vez mais frequentes ao campo, até que decidiram dar um passo radical e ir juntamente com os quatro filhos para longe da cidade.
Uma casa herdada mudou tudo
A oportunidade surgiu quando herdaram a antiga casa da avó de Sandra, localizada nas montanhas da província de Jaén, no sul da Espanha, a quase mil quilómetros da vida que conheciam.
Sem praticamente terem tido contacto com aquela habitação, partiram sem saber exatamente o que encontrariam. O cenário revelou-se desafiante: uma pequena casa com pouco mais de 40 metros quadrados, sem eletricidade da rede, sem água canalizada e sem ligação à internet.
Ainda assim, nunca ponderaram voltar atrás.
“Não procurámos a autossuficiência; foi a autossuficiência que nos encontrou”, explica José. “Foi a necessidade de viver aqui que nos obrigou a encontrar soluções para todos os problemas. Na altura, nem sequer pensávamos no que significava ser autossuficiente.” Mas depressa descobriram.
Atualmente, a família produz parte dos seus alimentos, cultiva a terra e cuida de vários animais que contribuem para o seu sustento diário. A eletricidade é gerada através de painéis solares e o consumo energético foi reduzido ao essencial.
Segundo José, a instalação elétrica da casa foi pensada para minimizar a exposição a radiações eletromagnéticas. Durante a noite, praticamente todos os aparelhos permanecem desligados, mantendo apenas o frigorífico ligado. Também utilizam iluminação vermelha nos quartos, por acreditarem que ajuda a respeitar o ritmo circadiano e melhora a qualidade do descanso.
Mas um dos maiores desafios continua a ser a água. A propriedade não dispõe de poço, nascente ou rio nas proximidades, pelo que toda a água utilizada pela família é recolhida da chuva e armazenada ao longo do ano.
Na alimentação, garantem que não fazem restrições. “Há coisas nas quais não poupamos. Para nós, o mais importante é a alimentação, sobretudo a dos nossos filhos”, afirmam.
Quanto à educação das quatro crianças, José e Sandra nunca tiveram dúvidas da forma como queriam fazê-lo. “Os meus filhos são educados em casa. Seguindo os seus interesses, o seu ritmo e as suas formas de aprender, vou propondo atividades que abrangem o currículo da comunidade autónoma onde vivemos e as disciplinas da escola americana através da qual certificamos os seus estudos”, começa por explicar Sandra no Instagram.
“À minha filha mais velha, ultimamente, interessam-lhe as fadas. Por isso, aproveitei a magia desse tema para criar ‘missões’ que abordam conteúdos curriculares. Por exemplo. Ajudámos a fada construtora a transportar montes de pedra de 47 g, que é o peso máximo que consegue levar enquanto voa. Com esta atividade trabalhámos as dezenas e a comparação de pesos. Também procurámos uma árvore ideal para uma casa de fadas, fizemos um mapa para a encontrar e um cartaz escrito para a assinalar. Com isto trabalhámos a orientação espacial, a representação de um lugar em papel, a leitura e a escrita, e a motricidade fina. Ao misturar a fantasia com missões divertidas, conseguimos criar propostas de aprendizagem integradas”, continua.
Apesar da ligação à natureza, José e Sandra não se afastaram das redes sociais, sendo ambos criadores de conteúdos. José divulga técnicas de sobrevivência e vida na natureza através da conta de Instagram @capitan_salvaje, enquanto Sandra partilha reflexões sobre parentalidade e educação natural em @crianzasalvaje. Juntos, reúnem centenas de milhares de seguidores interessados em conhecer um estilo de vida alternativo.
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