Iene dispara ao maior nível em sete meses; entenda por que isso importa para o Brasil

O iene disparou nesta segunda-feira (7) e atingiu o maior valor em sete meses frente ao dólar. Pode parecer um movimento distante da vida do investidor brasileiro, mas a valorização da moeda japonesa tem potencial para mexer com bolsas, câmbio e juros ao redor do mundo — e o Brasil não fica de fora.

O dólar chegou a cair para 154,05 ienes, menor cotação desde fevereiro, depois de superar 160 ienes ainda na terça-feira passada. A moeda japonesa ganha força com a expectativa de que o Banco do Japão possa acelerar a alta dos juros e com a possibilidade de investidores japoneses trazerem de volta ao país parte do dinheiro aplicado no exterior.

Mas há outro ingrediente especialmente importante para os mercados globais: o chamado carry trade.

Afinal, o que o iene tem a ver com o resto do mundo?

Durante muito tempo, o Japão manteve juros extremamente baixos. Isso tornou barato tomar dinheiro emprestado em ienes e usar esses recursos para investir em países e ativos que ofereciam retornos maiores.

De forma simplificada, o investidor pega dinheiro barato no Japão, troca os ienes por outra moeda e aplica onde os juros ou os retornos são mais altos. A diferença entre o custo do empréstimo e o rendimento da aplicação ajuda a formar o lucro da operação.

Esse tipo de estratégia, conhecida como carry trade, movimenta grandes volumes de dinheiro pelo mercado internacional. O problema aparece quando o cenário se inverte.

Com os juros japoneses subindo e o iene se valorizando, financiar essas operações fica mais caro. Além disso, quem tomou ienes emprestados precisa comprar a moeda japonesa para pagar a dívida. Se muitos investidores resolvem fazer isso ao mesmo tempo, a procura por ienes aumenta ainda mais e pode acelerar a valorização da moeda – a básica lei da oferta e da procura.

Para conseguir o dinheiro necessário para encerrar essas posições, investidores também podem vender ações, títulos, moedas e outros ativos espalhados pelo mundo. É esse movimento que transforma uma mudança no câmbio japonês em assunto para os mercados globais.

O Brasil pode sentir esse movimento principalmente por ser um mercado emergente e ter juros relativamente elevados, características que tradicionalmente atraem operações em busca de retornos maiores.

Uma desmontagem mais forte de carry trades pode provocar retirada de recursos de mercados considerados mais arriscados. Nesse cenário, ações brasileiras podem sofrer pressão, o dólar pode ganhar força diante do real e as taxas de juros negociadas no mercado podem subir.

Isso não significa que a alta do iene necessariamente provocará uma debandada de recursos do Brasil. O impacto depende da velocidade e da intensidade da valorização da moeda japonesa e, principalmente, de quanto das posições financiadas em ienes os investidores decidirem desfazer.

Por enquanto, o movimento já chamou a atenção justamente pela velocidade. O dólar caiu abaixo de 155 ienes, patamar que vinha funcionando como uma espécie de barreira para a moeda japonesa neste ano.

O cenário fica ainda mais sensível porque outros grandes bancos centrais também estão em movimento. O Banco Central Europeu decide os juros na quinta-feira (10), enquanto os Estados Unidos divulgam na sexta-feira (11) os dados de inflação ao consumidor.

Depois do relatório de emprego americano mais forte do que o esperado, o mercado passou a atribuir cerca de 60% de probabilidade a uma alta dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) ainda em setembro.

Assim, o que acontece com o iene não fica necessariamente apenas no Japão. Se a valorização da moeda provocar uma desmontagem mais ampla de posições financiadas com dinheiro japonês barato, os efeitos podem atravessar rapidamente os mercados globais — inclusive chegar ao bolso dos investidores brasileiros.

(Com agências de notícias internacionais)

Iene dispara ao maior nível em sete meses; entenda por que isso importa para o Brasil — Foto: Getty Images

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