IA: EUA, China e a escolha do Brasil

Imagem: João Brito

A inteligência artificial não está transformando governos, empresas e ocupações, mas amplamente as economias e as sociedades. Com isso, o poder mundial se reorganiza com a força de uma nova divisão internacional do trabalho da era digital.

Ao que parece, o topo vai sendo constituído por países e empresas que controlam semicondutores, capacidade computacional, plataformas, modelos de inteligência artificial, patentes e financiamento. Na base, por consequência, tendem a permanecer os fornecedores de minerais estratégicos, energia, território, dados e trabalho barato.

Por isso, a antiga divisão internacional do trabalho entre o centro produtor industrial e a periferia importadora ressurge em linguagem digital. De um lado, os países que vendem tecnologia, inteligência e decisões e, de outro, aqueles que dispõe lítio, cobre, terras raras, eletricidade e informações sobre a sua própria população.

Nesse contexto surgem dois agrupamentos concorrentes. A Pax Silica, liderada pelos Estados Unidos, e a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), impulsionada pela China. Não são meros fóruns diplomáticos, mas tentativas de organizar as cadeias produtivas, estabelecer padrões tecnológicos e definir a posição de cada país na economia da inteligência artificial.

Lançada em dezembro de 2025, a Pax Silica começou reunindo Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Singapura, Israel, Reino Unido e Austrália. Na sequência recebeu a adesão de 24 signatários como Qatar, Emirados Árabes Unidos, Índia, Filipinas, Noruega, União Europeia, Alemanha, Países Baixos, Argentina, Chile, Costa Rica, El Salvador e Panamá.

A iniciativa estadunidense alcança toda a cadeia tecnológica, com minerais críticos, energia, semicondutores, redes de comunicação centros de dados, modelos de IA e aplicações digitais. Com isso, Washington procura formar uma rede de fornecedores, investidores e compradores considerados seguros, reduzindo a dependência da China e controlando o acesso a tecnologias sensíveis. A sua palavra-chave é “confiança”. Mas confiança não é uma categoria neutra. Quem lidera o agrupamento também decide quem é confiável, qual dependência representa ameaça e que países poderão acessar equipamentos, capitais e conhecimento.

A China respondeu no mesmo terreno. Em 2025, a proposta da WAICO foi formalmente criada em julho de 2026, em Xangai, com 29 membros fundadores. Entre, o Brasil, Rússia, Belarus, Sérvia, Cuba e Venezuela, além de países africanos e asiáticos. Enquanto a Pax Silica se organiza em torno da segurança e da confiança, a WAICO apresenta o acesso à inteligência artificial como questão de desenvolvimento e justiça internacional.

A China oferece modelos abertos e de menor custo, promete formação, centros de cooperação e apoio tecnológico ao Sul Global. Ao mesmo tempo, procura ampliar sua influência sobre as regras internacionais da inteligência artificial. Beijing transforma a sua ascensão tecnológica em linguagem de abertura, inclusão e cooperação mundial.

Ao passo que Washington universaliza a segurança, Pequim universaliza a inclusão. Os Estados Unidos procuram comandar uma cadeia tecnológica formada por parceiros selecionados. A China tenta liderar uma coalizão mais aberta aos países em desenvolvimento. Ambas apresentam seus interesses nacionais como princípios universais.

A formação desses dois polos anuncia o fim da globalização tecnológica sem fronteiras. Chips, algoritmos, minerais, energia e centros de dados tornam-se instrumentos de segurança nacional. A nova divisão internacional do trabalho não separará apenas países industriais e agrícolas, mas distinguirá aqueles que produzem inteligência dos que apenas fornecem os recursos necessários para produzi-la.

O Brasil está no centro desse dilema. O país não integra formalmente a Pax Silica, mas participou da fundação da WAICO. Isso demonstra maior aproximação com a arquitetura impulsionada pela China, sem representar necessariamente uma escolha definitiva. O erro seria reduzir o problema à obrigação de optar entre Washington e Pequim. Aceitar passivamente qualquer um dos polos significaria trocar uma dependência por outra.

A questão principal não é a qual agrupamento o Brasil pertencerá, mas qual função desempenhará na nova economia digital. Como melhor utilizar a disponibilidade dos minerais brutos, podendo desenvolver materiais processados e componentes tecnológicos. Poderá oferecer energia barata a centros de dados estrangeiros e construir capacidade computacional própria? Poderá entregar suas bases de dados às plataformas globais ou tratá-las como patrimônio estratégico?

O Brasil, porém, não parte do zero. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) reúne ações de infraestrutura, formação profissional, inovação empresarial, modernização do Estado e governança tecnológica. Entre suas principais iniciativas está a modernização do supercomputador Santos Dumont, operado pelo Laboratório Nacional de Computação Científica. O objetivo é ampliar a capacidade nacional de processamento para universidades, centros de pesquisa e projetos estratégicos. Outra frente é a Nuvem de Governo, destinada a armazenar e processar informações públicas sensíveis em ambiente submetido à legislação e à governança brasileiras.

O PBIA também prevê o desenvolvimento de modelos de linguagem em português. Usar apenas sistemas treinados no exterior significa importar, juntamente com os algoritmos, os valores, classificações e vieses das sociedades que os produziram. Na saúde, o plano prevê o uso de IA na transcrição de teleconsultas e na organização de prontuários do SUS. Na educação e na gestão pública, contempla ferramentas para o ensino de matemática, a alimentação escolar e cálculos administrativos. No meio ambiente, inclui sistemas de identificação e catalogação de espécies da Amazônia. A inteligência artificial no setor público não deve servir apenas para reduzir custos ou substituir trabalhadores. Deve melhorar serviços, ampliar direitos e fortalecer a capacidade do Estado.

A regulação também é necessária. O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras contra deepfakes e conteúdos manipulados nos períodos próximos às eleições. Embora não seja parte administrativa do PBIA, essa iniciativa mostra que soberania digital inclui proteger a democracia contra a produção industrial da desinformação. O PBIA é um ponto de partida, não uma soberania já conquistada.

Para reposicionar a posição brasileira em definitivo, os investimentos deve assumir uma política permanente de Estado. Incentivos a centros de dados estrangeiros associados à pesquisa local, à formação profissional, à transferência de tecnologia e ao uso sustentável de energia e água. Os dados públicos sendo transformados patrimônio coletivo, com proteção da privacidade, transparência, acesso seguro à pesquisa e retorno social do valor produzido.

No século XIX, a periferia fornecia matérias-primas. No século XX, oferecia trabalho barato e mercados consumidores. No século XXI, poderá fornecer também energia, minerais estratégicos, dados e capacidade de vigilância. O Brasil pode romper essa sequência, uma vez que a soberania digital não consiste em fechar o país ao mundo, mas em participar do mundo com capacidade própria de decisão. Não significa rejeitar tecnologias estrangeiras, mas impedir que elas organizem sozinhas o futuro nacional.

A disputa entre Pax Silica e a arquitetura chinesa é apenas a superfície de uma transformação muito maior. O verdadeiro conflito está entre os países capazes de produzir inteligência e aqueles destinados apenas a alimentá-la, constituindo a nova divisão internacional do trabalho escrita em código.

A nova divisão internacional do trabalho será escrita em código.

O Brasil precisa decidir se ajudará a escrevê-lo ou se apenas fornecerá os recursos que alimentarão a inteligência das potências estrangeiras.

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