Brasil tem novo método para calcular emissões de óxido nitroso da agropecuária – Brasil tem novo método para calcular emissões de óxido nitroso da agropecuária

O Brasil poderá calcular com muito mais precisão as emissões de óxido nitroso (N₂O) provenientes da agricultura graças a uma ampla revisão científica que reuniu dados de pesquisas realizadas em diferentes regiões do país. O trabalho, publicado na revista Environmental Monitoring and Assessment, propõe fatores de emissão específicos para cana-de-açúcar, culturas de grãos e pastagens, considerando diferenças de clima, solo, manejo agrícola e tipo de fertilizante utilizado.

De acordo com Sandra Furlan Nogueira, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coordenadora do estudo, os resultados representam um avanço importante para os inventários brasileiros de gases de efeito estufa. Atualmente, muitas estimativas ainda utilizam fatores médios recomendados pelo IPCC, que nem sempre refletem a enorme diversidade de condições encontradas na agricultura brasileira.

O óxido nitroso é um dos gases mais potentes no aquecimento global. Segundo o IPCC, seu potencial de aquecimento é cerca de 273 vezes maior que o do dióxido de carbono (CO₂) em um horizonte de 100 anos, e ele permanece na atmosfera por mais de um século antes de se decompor. Grande parte dessas emissões está associada ao uso de fertilizantes nitrogenados e ao manejo do solo.

Segundo Nogueira, fertilizantes minerais respondem por aproximadamente 18% das emissões de gases de efeito estufa da agricultura brasileira. Com o crescimento da produção agropecuária e o aumento do consumo de fertilizantes nas últimas décadas, conhecer com maior precisão essas emissões tornou-se essencial para orientar políticas públicas e estratégias de mitigação.

Revisão reúne estudos realizados em todo o país
Para construir uma base sólida de informações, os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática da literatura científica publicada nas bases Web of Science, Scopus e SciELO.

Ao final da seleção, foram analisados 56 artigos científicos, que reuniam 325 experimentos (tratamentos) realizados em sistemas agrícolas brasileiros: 173 em cana-de-açúcar, 41 em grãos e 111 em pastagens.

Os estudos contemplaram lavouras de cana-de-açúcar, soja, milho e pastagens, além de áreas com deposição de urina e fezes de bovinos. Também foram avaliadas variáveis como tipo de solo, textura, clima, bioma, irrigação, manejo agrícola, doses e fontes de nitrogênio, matéria orgânica e carbono do solo.

Essa grande quantidade de informações permitiu aos autores construir fatores de emissão muito mais representativos da realidade brasileira.

Cada sistema agrícola apresenta comportamento diferente
Um dos principais resultados do estudo mostra que as emissões variam significativamente conforme o sistema de produção.

Nas pastagens, os maiores fatores de emissão ocorreram principalmente em áreas localizadas no Cerrado e na Mata Atlântica, especialmente sob clima subtropical com inverno seco.

Nas lavouras de grãos, os maiores valores foram observados sobretudo em regiões subtropicais e de clima tropical de savana, com padrões de emissão que se sobrepõem entre essas duas faixas climáticas. Na cana-de-açúcar, as emissões mais elevadas ocorreram tanto em regiões tropicais quanto subtropicais.

Os pesquisadores verificaram ainda que diferentes tipos de fertilizantes produzem respostas distintas.
Em áreas de cana, por exemplo, fertilizantes à base de ureia, principalmente quando associados a resíduos orgânicos, apresentaram fatores de emissão superiores aos observados para outras fontes de nitrogênio, como nitrato e sulfato de amônio.

Nas pastagens, a deposição de urina pelos animais gerou emissões quase cinco vezes maiores do que aquelas associadas apenas às fezes (0,73% contra 0,15%).

Solo, clima e manejo fazem diferença
Além do tipo de fertilizante, diversos fatores ambientais influenciam a emissão de óxido nitroso.
“Características como acidez do solo, teor de carbono orgânico, temperatura, textura e regime de chuvas alteram a atividade dos microrganismos responsáveis pelos processos de nitrificação e desnitrificação, mecanismos naturais que produzem o gás”, explica Nilza Patrícia Ramos, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

“O estudo mostra que essas interações são complexas e variam entre regiões brasileiras, o que reforça a limitação de utilizar um único fator de emissão para todo o território nacional. Práticas de manejo também exercem forte influência”, destaca Ramos.

Sistemas integrados de produção, agricultura de precisão, plantio direto, aplicação parcelada de fertilizantes, uso de culturas de cobertura e melhor sincronização entre adubação e demanda das plantas tendem a aumentar a eficiência do uso do nitrogênio e reduzir perdas para a atmosfera.

Inventários climáticos mais confiáveis
Os fatores de emissão encontrados variaram entre 0,14% e 1,63%, dependendo da cultura e das condições avaliadas. Em termos de médias nacionais ponderadas, o estudo chegou a 0,66% para cana-de-açúcar, 0,69% para grãos e 0,64% para pastagens com fertilização mineral, valores que sobem para 0,51%, em média, quando se soma a contribuição da urina e das fezes do gado em pastagens.

Todos esses valores estão dentro da ampla margem de incerteza usada pelo IPCC (entre 0,20% e 1,80%), mas ficam sistematicamente abaixo do valor-padrão de 1% adotado atualmente, uma diferença de até 40%. Na prática, isso sugere que os inventários brasileiros podem estar superestimando as emissões diretas de N₂O da fertilização ao usarem o fator genérico do IPCC em vez de valores calibrados para as condições do país.

“Inventários mais precisos permitem avaliar com maior segurança os impactos ambientais da produção agrícola, orientar políticas públicas, melhorar estudos de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) e fortalecer mecanismos de certificação ambiental, como o RenovaBio e os mercados de carbono”, afirma Marilia Folegatti, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

O que são os “Tiers” do IPCC?
O IPCC organiza os métodos de cálculo de emissões em três níveis de detalhamento. Tier I usa um fator médio único, igual para o mundo todo. Tier II usa fatores calibrados para as condições de um país ou região específica, foi o que este estudo desenvolveu para o Brasil. Tier III vai além, incorporando modelos detalhados de clima, solo e manejo agrícola para cada situação. Quanto mais alto o Tier, maior a precisão e menor a incerteza da estimativa.

Ainda há lacunas de informação
Apesar do avanço, os pesquisadores destacam que ainda existem importantes lacunas de conhecimento.
Grande parte dos experimentos disponíveis foi realizada na Mata Atlântica, no Cerrado e no Pampa, enquanto a Amazônia está sub-representada. Para dois biomas, a Caatinga e o Pantanal, os pesquisadores não encontraram nenhum estudo publicado sobre o tema, uma lacuna total que limita, por ora, a extrapolação dos resultados para essas regiões.

Também há necessidade de ampliar estudos envolvendo diferentes tipos de solo, sistemas de manejo e condições climáticas.

“O próximo passo será evoluir dos atuais fatores de emissão do tipo Tier II, específicos para o Brasil, para metodologias Tier III, capazes de incorporar modelos mais detalhados sobre clima, solo, manejo agrícola e dinâmica do nitrogênio”, explica Cristiano Andrade, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.

Essa evolução deverá reduzir ainda mais as incertezas e oferecer bases mais robustas para as estratégias brasileiras de mitigação das mudanças climáticas.

Com uma agricultura em constante expansão e crescente demanda por fertilizantes, produzir estimativas cada vez mais precisas das emissões torna-se fundamental para conciliar aumento da produção,

egurança alimentar e sustentabilidade ambiental. O estudo demonstra que considerar as características específicas dos sistemas produtivos brasileiros é um passo decisivo para tornar as políticas climáticas mais eficientes e alinhadas à realidade do campo.

A pesquisa foi financiada pelo Research Centre for Greenhouse Gas Innovation (RCGI), sediado na Universidade de São Paulo (USP) e apoiado pela FAPESP e pela Shell Brasil, com recursos adicionais da ANP (por meio da regulação de P&D&I), da Embrapa e da CAPES e os autores são Sandra Nogueira, Nilza Patricia Ramos, Joaquim Ayer, Cristiano Andrade, Ricardo Pazianotto, Marcos Ligo; Danilo Garofalo, Isa Rolisola; Paula Packer e Marilia Folegatt e está disponível aqui. 
 

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