Mas talvez a pergunta mais interessante nunca tenha sido porque Darwin passou por Cabo Verde. A pergunta é outra. Porque razão Cabo Verde entrou na história da ciência sobretudo como paisagem observada e tão raramente como lugar produtor de conhecimento?
Recentemente, o mundo descobriu Cabo Verde através do futebol e ficou rendido à pequena nação insular que enfrentava algumas das maiores potências mundiais sem pedir licença para competir. Descobriram uma equipa que jogava sem complexos, que recusava o papel de figurante e que parecia ignorar uma regra não escrita da geopolítica contemporânea: há povos autorizados a vencer e há povos destinados a tornar a vitória dos outros mais interessante.
À primeira vista, tratava-se apenas de desporto. Mas suspeito que o espanto dizia respeito a outra coisa. O que surpreendia não era a qualidade do futebol cabo-verdiano. O que verdadeiramente perturbava era a possibilidade de uma pequena nação africana deixar de desempenhar o papel que o mundo lhe reservou há muito tempo.
Existe um velho hábito da modernidade. Admira a periferia quando ela confirma as expectativas. Estranha-a quando as desafia. Aplaude-a quando representa bem o papel de exemplo de superação. Incomoda-se quando pretende reescrever o argumento.
Celebramos frequentemente a diversidade. Mas nem sempre celebramos aquilo que a diversidade produz quando deixa de ser decorativa para se tornar transformadora. Talvez seja por isso que tantos comentários sobre o percurso dos Tubarões Azuis insistiam na palavra surpresa.
Quem conhece esta sociedade insular sabe que ela aprendeu a transformar escassez em criatividade, dispersão em comunidade e vulnerabilidade em capacidade de reinvenção. A surpresa não estava em Cabo Verde. A surpresa estava na forma como o mundo continua a imaginar Cabo Verde. Existe uma diferença profunda entre aquilo que uma sociedade sabe de si própria e aquilo que o sistema internacional espera dela. As sociedades constroem-se a partir das suas experiências. Os sistemas de poder constroem-se a partir das suas classificações. E poucas classificações resistiram tanto tempo como a distinção entre centro e periferia do sistema mundo moderno.
Durante muito tempo ensinou-se que alguns lugares produzem história enquanto outros apenas a vivem. Que alguns produzem ciência enquanto outros fornecem observações. Que alguns produzem teoria científica enquanto outros fornecem casos de estudo. Que alguns descobrem. E outros são descobertos.
É uma cartografia aparentemente natural. Mas nenhuma cartografia é inocente. Toda a cartografia representa uma distribuição de poder. Talvez por isso o verdadeiro espanto nunca tenha sido futebolístico. Foi epistemológico. Porque aquilo que estava em causa não era apenas um resultado desportivo. Era uma hierarquia silenciosa sobre quem pode ocupar determinados lugares na imaginação do mundo. O futebol apenas tornou visível uma estrutura muito mais antiga.
Há quase duzentos anos, um passageiro em trânsito desembarcou nas ilhas de Cabo Verde igualmente fascinado. Era inglês, naturalista voluntário na expedição do navio HMS Beagle, com destino à América do Sul e à África do Sul. Chamava-se Charles Darwin e era ainda jovem. Durante 23 dias percorreu o sul da ilha de Santiago, observou formações vulcânicas, descreveu paisagens, registou espécies, recolheu amostras, e encontrou, pela primeira vez, uma ecologia tropical suficientemente diferente para alterar profundamente a sua forma de pensar a natureza.
Hoje, assim na América do Sul, como em África, continuamos a recordar essa passagem do naturalista Charles Darwin com orgulho. E há boas razões para isso. Este é nada mais, nada menos, do que o autor de A Origem das Espécies. Poucos territórios podem afirmar que participaram, ainda que discretamente, na gestação de uma das obras mais influentes da história da ciência. Mas talvez a pergunta mais interessante nunca tenha sido porque Darwin passou por Cabo Verde. A pergunta é outra. Porque razão Cabo Verde entrou na história da ciência sobretudo como paisagem observada e tão raramente como lugar produtor de conhecimento? Durante anos, considerei esta apenas uma curiosidade histórica. Hoje penso que representa uma metáfora. Uma metáfora extraordinariamente poderosa.
Darwin não veio à procura de ignorância. Veio procurar conhecimento. Não encontrou um vazio. Encontrou uma realidade suficientemente rica para desafiar aquilo que a ciência europeia julgava conhecer. Encontrou geologia. Encontrou biodiversidade. Encontrou clima. Encontrou práticas agrícolas. Encontrou formas de adaptação humana a um território de extrema complexidade ecológica. Encontrou, em suma, conhecimento. Mas aquilo que partiu de Cabo Verde regressou à Europa profundamente transformado. As rochas tornaram-se teoria. As observações tornaram-se ciência universal. As amostras tornaram-se património científico europeu. É difícil imaginar uma metáfora mais precisa da economia política do conhecimento moderno.
A modernidade nunca teve dificuldade em reconhecer que existe de facto conhecimento em toda a parte. A dificuldade começou sempre quando esse conhecimento reclamou autoridade. Existe uma diferença subtil entre reconhecer que alguém possui conhecimento e reconhecer-lhe o direito de definir aquilo que conta como conhecimento. É precisamente nessa fronteira que se desenham as grandes desigualdades epistemológicas da história da ciência moderna.
Durante séculos, vastas regiões do mundo foram incorporadas na história da ciência sobretudo como laboratórios experimentais. Como arquivos da natureza. Como depósitos de biodiversidade. Como reservatórios de culturas. Como fontes inesgotáveis de dados. Raramente como lugares de elaboração conceptual. Raramente como espaços onde a teoria pudesse nascer e florescer.
O curioso é que esta lógica continua surpreendentemente atual. Mudaram as tecnologias. Mudaram os financiamentos. Mudaram os instrumentos. Mas permanece quase intacta a geografia da autoridade científica. Ainda hoje assistimos a uma divisão internacional do trabalho intelectual que distribui funções de forma notavelmente semelhante à antiga divisão colonial do trabalho. Uns observam. Outros interpretam. Uns recolhem. Outros publicam. Uns fornecem dados. Outros produzem conceitos. Naturalmente, ninguém escreve estas regras. Precisamente por isso funcionam tão bem.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1293 de 09 de Setembro de 2026.
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