Gazcorp anuncia fábrica de gás em São Tomé para garantir abastecimento total ao país

“Neste momento, não há enchimento de gases liquefeitos em São Tomé”, declarou Nuno Andrade. “Todos esses produtos são importados, há falhas constantes no abastecimento e grande parte das famílias ainda usa antigos queimadores de gasolina e querosene para cozinhar”, acrescentou.

A empresa Gazcorp, de Santa Maria da Feira, anunciou que começará em julho a construir em São Tomé e Príncipe uma fábrica de enchimento de gases técnicos como propano, visando garantir ao país africano autonomia face às importações atuais.

A informação foi avançada à Lusa por Nuno Andrade, diretor da fábrica portuguesa, fundada em 2023 neste concelho do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto, que recebe, sexta-feira, o ministro da Economia e Finanças são-tomense, Gareth Guadalupe, para uma visita às instalações e acerto de detalhes burocráticos quanto à parceria.

“Neste momento, não há enchimento de gases liquefeitos em São Tomé”, declarou Nuno Andrade. “Todos esses produtos são importados, há falhas constantes no abastecimento e grande parte das famílias ainda usa antigos queimadores de gasolina e querosene para cozinhar”, acrescentou.

A nova fábrica viabilizará duas grandes mudanças: “Os gases vão ficar disponíveis em garrafas de estilo europeu, muito mais seguras e leves, e, até final de 2027, o abastecimento passará a ser 100% local, acabando com a dependência de São Tomé face à importação”.

Estando a ser preparada há dois anos na sequência de contactos estabelecidos durante uma missão empresarial com vários países lusófonos, a parceria entre a Gazcorp e o Governo são-tomense prevê um investimento na ordem dos dois milhões de euros, disse.

Nuno Andrade adiantou que ainda não está definida a comparticipação definitiva de cada uma das partes, mas antecipa que, recorrendo apenas a fundos próprios, a Gazcorp deverá assegurar “cerca de 80% do investimento”, para garantir uma posição maioritária na propriedade da fábrica.

Quanto à empreitada, está prevista para um terreno de 5.000 metros quadrados na zona industrial da cidade de São Tomé, capital do país, e deverá ficar concluída até final de 2026, para a operação arrancar no início de 2027.

“É uma construção rápida porque o edifício é pequeno e simples, e os tanques para os gases já vão para lá preparados – só têm que ser instalados no exterior”, explicou.

Mais complexa é a situação dos recursos humanos, já que, segundo o empresário português, o projeto requer a criação de 10 novos postos de trabalho e não há em São Tomé quadros devidamente preparados para o efeito.

O processo de recrutamento vai exigir, por isso, 15 dias de formação intensiva em Portugal, nas instalações da Gazcorp, após o que se seguirá mais aprendizagem em solo africano, já na futura fábrica – que começará a sua atividade apenas com propano e oxigénio, mas prevê alargá-la depois a outros gases técnicos, adiantou.

Em declarações em meados de junho à imprensa de São Tomé, o ministro Gareth Guadalupe afirmou: “Um bem que acho extremamente importante para o país é o gás. Neste momento podem ver algumas filas para abastecer de petróleo aquele utensílio doméstico que é o fogão (…), mas nós já temos um parceiro identificado para nos fazer chegar o gás a um preço muito mais baixo”.

Enquadrando o projeto no plano de descarbonização do seu Governo, o ministro notou que as ruturas de abastecimento têm sido agravadas pela guerra no Estreito de Ormuz e acrescentou: “Queremos deixar o querosene e o ‘jet fuel’, e a fábrica de enchimento de gás vai permitir que o mercado nacional esteja totalmente abastecido, a um preço muito mais reduzido do que temos hoje”.

As adaptações necessárias ao uso de propano também já estão a ser estudadas, mediante negociações com importadores de eletrodomésticos, de forma a aumentar a oferta de fogões idênticos aos europeus a preços razoáveis. “Isso vai permitir que as famílias com menos poder de compra os possam adquirir e fazer a transição para o gás”, defendeu o ministro.


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