As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 12,2% entre janeiro e julho, para US$ 21 bilhões, segundo levantamento da Amcham Brasil.
O resultado mostra que o impacto das tarifas impostas pelo governo de Donald Trump já aparece nos dados do comércio exterior: enquanto as vendas brasileiras ao mercado americano encolheram, as exportações do país para o restante do mundo continuam crescendo.
O recuo representa US$ 2,9 bilhões a menos em exportações na comparação com os sete primeiros meses de 2025 e levou as vendas aos EUA ao menor patamar para o período em três anos, segundo o Monitor do Comércio Brasil–Estados Unidos, elaborado pela entidade com dados do Comexstat.
A queda é particularmente forte entre os produtos que passaram a enfrentar as maiores barreiras. As exportações desses itens recuaram 31,5%, de US$ 4,6 bilhões para US$ 3,2 bilhões.
O contraste com o restante do comércio brasileiro é significativo: no mesmo período, as exportações totais do país cresceram 10,5%.
Tarifas já aparecem nas vendas
O novo levantamento reforça um movimento que já havia sido identificado nos dados do primeiro semestre.
Entre janeiro e junho, as exportações brasileiras para os EUA haviam recuado 13%, para US$ 17,4 bilhões, segundo dados da própria Amcham. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços também registrou queda de 13% no período.
Desde então, o governo Trump ampliou as barreiras. As medidas adotadas em julho combinaram uma sobretaxa de 25% sobre determinados produtos brasileiros com uma tarifa adicional de 12,5% vinculada à investigação americana sobre trabalho forçado.
Quando as duas incidem sobre o mesmo produto, a cobrança chega a 37,5%. Segundo o governo brasileiro, 23,1% das exportações do país aos EUA estão sujeitas às novas sobretaxas da Seção 301. Outros produtos continuam submetidos às tarifas setoriais da Seção 232, como ocorre com parte do aço e do alumínio.
A CNI calcula que cerca de 25,5% das exportações brasileiras aos EUA estejam sujeitas especificamente à tarifa acumulada de 37,5%.
Quais produtos estão perdendo espaço
O efeito não aparece apenas no total das exportações. Ele também pode ser observado na comparação entre os produtos vendidos aos americanos e aos demais mercados.
Entre os dez principais produtos exportados pelo Brasil aos EUA, quatro registraram queda nas vendas ao mercado americano ao mesmo tempo em que avançaram para outros destinos.
É o caso do petróleo bruto, cujas exportações aos EUA recuaram 25,5%; dos produtos semimanufaturados de ferro ou aço, com queda de 11,1%; do ferro-gusa, que caiu 7,9%; e da celulose, com retração de 5,3%.
O movimento sugere que parte da perda não está necessariamente relacionada à falta de oferta ou à menor capacidade brasileira de produzir e exportar, mas à dificuldade de manter competitividade especificamente no mercado americano depois da elevação das tarifas.
Entre os produtos diretamente atingidos pelas sobretaxas mais elevadas, aparecem ainda sebo bovino, madeira, portas, fumo e granito.
O comércio com os EUA está ficando mais desequilibrado
A deterioração não ocorre apenas nas exportações.
Em julho, as importações brasileiras de produtos americanos cresceram 0,6%, para US$ 4,3 bilhões, depois de sete meses consecutivos de queda.
Com isso, o Brasil registrou déficit comercial de US$ 639 milhões com os EUA no mês.
No acumulado de janeiro a julho, o saldo negativo chegou a US$ 2,3 bilhões, uma alta de 122,3% em relação ao mesmo período de 2025.
Na prática, isso significa que o Brasil está vendendo menos para os americanos justamente enquanto suas compras de produtos dos EUA começam a se recuperar.
A diferença para a China
Os Estados Unidos continuam sendo o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás da China. Mas sua importância relativa vem diminuindo.
No primeiro semestre, a participação americana nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4% em um ano.
O governo brasileiro também registra que as exportações aos EUA haviam atingido o recorde de US$ 40,4 bilhões em 2024, antes de recuarem para US$ 37,7 bilhões em 2025.
O dado ajuda a colocar o atual conflito em perspectiva: os EUA continuam sendo um mercado importante, mas o Brasil possui uma pauta de exportações suficientemente diversificada para redirecionar parte das vendas para outros países.
Isso não significa, porém, que a substituição seja simples. Produtos industriais e commodities com características específicas podem enfrentar custos maiores ou preços menores quando precisam encontrar novos compradores.
O agro também está sob pressão
O impacto das tarifas é especialmente relevante para o agronegócio.
Levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que 32,9% das exportações brasileiras do agro aos EUA estejam sujeitas à tarifa acumulada de 37,5%. Outros 12,3% enfrentam exclusivamente a sobretaxa de 12,5%.
Isso coloca sob pressão empresas que construíram relações comerciais de longo prazo com compradores americanos.
A dificuldade não é simplesmente encontrar outro país para vender. Em muitos casos, redirecionar cargas significa enfrentar mercados com preços diferentes, exigências sanitárias específicas ou concorrentes já estabelecidos.
O Brasil prepara uma reação
O levantamento da Amcham surge em meio à escalada comercial entre Brasília e Washington.
O governo brasileiro já acionou a Lei da Reciprocidade Econômica e iniciou consultas com os Estados Unidos, primeiro passo para uma eventual adoção de medidas de retaliação. Também levou a disputa à Organização Mundial do Comércio.
A estratégia, porém, envolve um dilema: retaliar pode aumentar a pressão sobre o governo Trump, mas também pode encarecer produtos americanos importados pelo Brasil e atingir empresas brasileiras que dependem desses insumos.
Por isso, o governo tem afirmado que pretende analisar as medidas com cautela antes de efetivamente impor tarifas de resposta.
Os números da Amcham dão uma dimensão concreta do que está em jogo. O efeito do tarifaço já não é apenas uma ameaça futura para as empresas brasileiras: ele começa a aparecer no fluxo de comércio entre os dois países.
Enquanto as exportações brasileiras para o mundo continuam crescendo, as vendas para os EUA estão encolhendo. A questão agora é saber até onde essa diferença vai aumentar caso as tarifas permaneçam em vigor.
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