O Haiti está de volta à Copa do Mundo, apesar de todos os problemas que afetaram o país ao longo dos últimos. Desde o terremoto de 2010, a nação se vê imersa em um conflito entre gangues, que tomaram controle do território insular. Mesmo tendo que disputar todos os jogos das Eliminatórias longe de seus domínios, contou com o brilho de veteranos para retornar ao Mundial pela primeira vez desde 1974.
Essa classificação passa por diversos “heróis”. Sebastien Migne, treinador francês que liderou a campanha haitiana na Concacaf, não chegou a visitar o país desde que foi contratado, em função dos conflitos. Outro destes nomes é Duckens Nazon, maior artilheiro da história da seleção e que teve de passar por diversos obstáculos para levar o país à Copa do Mundo.
Pela situação no Haiti, a seleção teve de disputar as Eliminatórias em Curaçao, no campo sintético do estádio do arquipélago. Nazon defende o Haiti desde 2015, e, aos 32 anos, sonhava com o momento de representar a seleção no maior palco do futebol. No Canadá, Estados Unidos e México, neste ano, terá a oportunidade de enfrentar Brasil, Marrocos e Escócia.
Nazon construiu carreira na Europa e se tornou herói do Haiti
Nascido na França, em Châtenay-Malabry, nos subúrbios de Paris, Nazon é filho de pais haitianos. Conquistou a cidadania francesa em 1996, por meio da mãe, mas não optou por defender a seleção europeia em sua carreira como jogador. Iniciou sua carreira no Lorient, mas escolheu defender as cores caribenhas no cenário internacional.
Quando ganhou sua primeira oportunidade, os Grenadiers estavam em um jejum de participações em Copas do Mundo. A seleção só havia disputado, até então, o Mundial de 1974. Crises políticas e humanitárias afetaram a Ilha de São Domingos — em que o país tem fronteira com a República Dominicana. Neste período, entre 2015 até 2026, o Haiti foi um mero coadjuvante no cenário da Concacaf.
Nazon nunca atuou profissionalmente no Haiti. Construiu sua carreira como um “peregrino” pela Europa. França, Bélgica, Inglaterra e até Escócia, que o atacante terá de enfrentar na fase de grupos, estiveram no passaporte do haitiano.
Nenhum feito por clubes, no entanto, foi maior do que a classificação à Copa do Mundo. Contra as expectativas, e em um grupo no qual Honduras e Costa Rica se mostravam como favoritas, Nazon foi um desses heróis em Curaçao. No duelo mais importante, diante dos costa-riquenhos, marcou três no empate por 3 a 3. Sem esse ponto, em setembro de 2025, teria dificuldades para avançar pela vaga.
— Somos embaixadores do nosso país e sabemos que temos uma responsabilidade. Sabemos que os jovens também nos veem como exemplos — declarou o atacante à “BBC”.
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Artilheiro do Haiti viveu dilema antes de duelo crucial com a Costa Rica
São 44 gols marcados em 76 partidas pelo Haiti. Os três diante do Costa Rica, entretanto, quase não ocorreram. Às vésperas da partida, pensava em deixar a delegação para acompanhar o nascimento de seu filho. Foi convencido por Sébastien Migné para permanecer para as Eliminatórias.
— Ele me disse que eu era importante para o ânimo da equipe. Queria que eu ficasse e disse que o melhor cenário seria entrar (como reserva) e marcar o gol da vitória. Eu disse a ele, com toda a humildade que tenho, que seria um erro — afirmou o jogador, à “Fifa”.
Nazon foi reserva no confronto, mas resolveu a partida no segundo, assumindo o risco de que poderia perder o nascimento de seu quarto filho. “Liguei para minha mulher e ela estava chorando, mas precisava me desligar de tudo e me concentrar no jogo”, contou.
Ele ainda chegou a tempo de acompanhar a cirurgia. “A história me presenteou com um hat-trick. Acredito que fui recompensado, pois meu ato em prol do meu país foi puro e sincero”, afirmou à época.
Nazon sofreu para escapar da guerra no Irã antes da Copa do Mundo
Antes da Copa do Mundo, Nazon viveu outro dilema. Enquanto defendia o Esteghlal, do Irã, o atacante tentou deixar o país em meio aos bombardeios dos Estados Unidos e de Israel ao Golfo Pérsico. Sua mulher, marroquina, já estava na França com seus quatro filhos. Ele deveria viajar à França no mesmo dia em que se iniciaram os ataques.
Com o risco, as fronteiras e aeroportos do Irã foram fechados. Ele precisou escapar do país por terra, por meio da divisa com o Azerbaijão, enquanto via bombas caírem dos céus. Para isso, contatou a embaixada francesa, que o auxiliou com o passaporte necessário.
— Imagine se você tem sua mulher e seus filhos ao seu lado nessa situação. Não diria que não me importo com a minha vida, mas fico mais tranquilo por não tê-los ao meu lado naquele momento — contou o atacante.
Ele não joga desde então, com as competições no Irã paralisadas e “refugiado” na França. Ele tem se preparado para a Copa do Mundo por conta própria, e monitorado pela seleção haitiana — que não descartou sua convocação apesar dos problemas vividos nos últimos meses.
Nazon tem relação direta com os três países do Grupo C, que enfrentará na primeira fase: atuou na Escócia, sua mulher é marroquina e esteve em campo no último duelo entre Brasil e Haiti, na Copa América de 2016 (derrota por 7 a 1). Azarão na chave, a seleção haitiana tenta melhorar a campanha em relação a 1974, quando foi eliminada no grupo da morte, contra Itália, Polônia e Argentina.
Calendário do Haiti na Copa do Mundo
- 2/6 – Haiti x Nova Zelândia (amistoso)
- 5/6 – Haiti x Peru (amistoso)
- 13/6 – Haiti x Escócia (Copa do Mundo)
- 19/6 – Brasil x Haiti (Copa do Mundo)
- 24/6 – Marrocos x Haiti (Copa do Mundo)
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