Haiti: Duckens Nazon, o viciado em golos que pôs um hat-trick à frente da mulher grávida e demorou dois dias a fugir da guerra

Em vésperas de Mundial, era altura de tratar da burocracia. A equipa iraniana do Esteghlal deu dois dias de folga e Duckens Nazon decidiu viajar até França. Internacional pelo Haiti, pretendia usar o descanso para tratar de papelada no país de nascimento, de modo a que tudo estivesse em ordem na altura da convocatória.

Sentou-se dentro do avião. Enquanto os procedimentos de embarque decorriam, recebeu uma mensagem de um amigo a jogar em Israel. O colega disse que estava a ouvir o alarme que sinaliza ataques. Duckens considerou-se um sortudo por não estar na mesma situação. Enquanto tinha este pensamento, o capitão mandou toda a gente sair do avião. O espaço aéreo tinha sido fechado.

Voltou ao centro de Teerão, o alvo das investidas dos Estados Unidos e de Israel no final de fevereiro, porque a equipa treinada por Ricardo Sá Pinto estava a organizar a retirada dos jogadores estrangeiros. Pelo caminho, viu bombas caírem a 100 metros. Nazon esperou sete horas pelo veículo que o levou à fronteira com o Azerbaijão e demorou nove horas a completar o percurso. Quando chegou, eram 4h30.

De manhã, carimbaram-lhe o passaporte e preparava-se para seguir caminho. Porém, a travessia não seria assim tão fácil. Supostamente, precisava de um código para continuar. Duckens encontrava-se incontactável e, no Irão, a internet estava em baixo. Com um cartão SIM virtual de que, por acaso, era proprietário, fez um milagre com a pouca rede azeri que conseguia obter. Mesmo com dificuldades, falou com a mulher e acionou o embaixador francês no Azerbaijão. Ainda assim, esteve entalado entre os dois países aproximadamente 35 horas.

Duckens Nazon tem 44 golos em 80 jogos pelo Haiti

Vaughn Ridley

Desde aí, não voltou a jogar no Irão, país que, entretanto, suspendeu as competições. Apesar do pouco ritmo competitivo, o nome de Duckens Nazon consta da convocatória do Haiti para o Mundial 2026. Seria difícil que tal não acontecesse. O avançado tem 44 golos em 80 encontros, números que fazem dele o melhor marcador da história da seleção que esteve presente pela última vez no torneio em 1974. Mais seis encontros e isola-se também como o jogador com mais internacionalizações pelo Haiti.

Se tiver decidido escrever crónicas de viagens, certamente que tem material de apetecível leitura. Aos 32 anos, já jogou em oito países. Começou a carreira nos escalões inferiores de França antes de emigrar pela primeira vez. Estava na Índia quando o Wolverhampton demonstrou um súbito interesse no ponta de lança. Acabaria por não se estrear na equipa principal e continuar a carreira em países como Bélgica, Escócia, Bulgária e Turquia.

Durante o drama passado no Irão, a mulher estava a acompanhar a situação à distância. Junto a si, tinha os quatro filhos. Um deles nasceu há menos de um ano. A companheira de Duckens tinha uma cesariana marcada para o dia seguinte ao Costa Rica-Haiti, jogo de qualificação para o Mundial. Porém, o risco de o tempo de vida do bebé começar a contar antes do previsto era alto.

O jogador percebeu que não ia ser titular e decidiu questionar o treinador. Os dois tinham ideias divergentes sobre a situação. O técnico preferia que Nazon entrasse na segunda parte para dar um impulso à equipa. Desagradado, o jogador transmitiu que não estava disponível, porque queria estar junto da mulher durante o nascimento da criança. O selecionador argumentou que a sua presença era “importante para o espírito de equipa” e Duckens reclamou. “Não sou um comediante”, contou em entrevista à FIFA.

Ainda assim, o goleador acabou convencido e comunicou à mulher que ia assumir o risco de não assistir ao nascimento para estar no jogo frente aos costa-riquenhos. Duckens Nazon entrou na segunda parte e marcou um hat-trick, contributo fundamental para o empate (3-3). No final, a esposa entristecida com a decisão acabou por ter companhia na hora H.

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