Dom Gallagher: “promover a diplomacia da esperança”

Na Conferência da comemoração dos 50 anos das relações diplomáticas entre a Santa Sé e a República de Cabo Verde, o Secretário para as Relações com os Estados e as organizações internacionais, Dom Paul Richard Gallagher, destacou a importância de promover a diplomacia da esperança e valores pelos quais a Santa Sé e a República de Cabo Verde se têm sempre empenhado.

Padre Bernardo Suate – Vatican News

Após a apresentação da saudação e Bênção do Papa Leão XIV aos Dirigentes e a toda a Nação cabo-verdiana, pelos os 50 anos de relações plenas entre a Santa Sé e Cabo Verde, Dom Gallagher na sua saudação manifestou-se antes de tudo feliz por este, disse, meio século de diálogo sereno, cooperação legal e amizade autêntica entre um Estado soberano jovem e uma das instituições diplomáticas mais antigas do mundo,

Longa tradição histórica da diplomacia da Santa Sé

A diplomacia da Santa Sé insere-se numa longa tradição histórica, cujo objetivo central sempre foi o serviço em favor da paz e da defesa e promoção da dignidade da pessoa humana, disse o prelado, sublinhando que foi a partir da Reforma Gregoriana que o direito de legação foi institucionalizado no âmbito da Igreja, e se tornou elemento essencial de seu governo. Este processo inaugurou, na prática, os fundamentos do serviço diplomático propriamente dito, ao introduzir a ideia de representação regular, continuada e juridicamente reconhecida, explicou o arcebispo.

Para Dom Gallagher, porém, a diplomacia da Santa Sé consolidou-se mais tarde com a distinção entre Núncios, Legados e Internúncios, antecipando práticas posteriormente incorporadas pelo direito internacional clássico porque, de fato, a Igreja é, sim, uma realidade espiritual, mas também uma sociedade organizada sui generis, e é enquanto tal que ela, por meio da Santa Sé, se faz sujeito de direito internacional.

Neste sentido, prosseguiu o também Secretário para as Relações com as Organizações internacionais, a Santa Sé mantém relações diplomáticas com 184 os Estados e foi, na sua experiência de serviço à paz, à justiça e à defesa e promoção da dignidade humana, que ela não tardou em reconhecer Cabo Verde e estabelecer com ela relações diplomáticas plenas.

Encontro de Paulo VI com líderes independentistas africanos

Como sinal dessa determinação da Igreja pelo reconhecimento da Nação caboverdiana, mesmo antes da declaração da independência, o prelado citou a audiência que o Papa Paulo VI concedeu, em 1º de julho de 1970, no Vaticano, a alguns líderes dos movimentos de luta pela independência dos países africanos.

Este encontro, observou Gallagher, custou à Santa Sé o rompimento temporário das relações diplomáticas com Portugal, mas também revelou a determinação corajosa da Igreja e do Santo Padre em dar visibilidade internacional à questão Africana e à sede pela libertação dos povos colonizados.

Presença da Igreja em Cabo Verde, parte essencial do País

Mesmo em tempos muito anteriores à independência ou ao início das relações diplomáticas entre as duas Partes, sublinhou ainda Dom Gallagher, a presença da Igreja Católica não se fez um elemento periférico ou limitado ao âmbito meramente religioso, ela é parte constitutiva essencial de todo o Cabo Verde.

Na verdade, apenas 70 anos após a chegada dos primeiros habitantes nas ilhas, foi criada a Diocese de Santiago de Cabo Verde, a primeira da África subsaariana, em 31 de janeiro de 1533. E bem cedo, Cabo Verde – e, sobretudo, a Diocese de Santiago de Cabo Verde – se converteu em centro irradiador de evangelização e organização eclesial, e também de organização social, com a construção de centros sanitários e de formação. Porque educação e instrução foram seriamente tratadas pela Igreja desde o início do processo de povoamento destas ilhas, enfatizou ainda Dom Gallagher

E, para o arcebispo Gallagher, Cabo Verde soube transmitir e exportar a sua cultura, a sua identidade e a sua fé, não só ao Continente africano, mas ao mundo todo e em todo o tempo. Entre tantos exemplos, o de Manuel Costa de los Ríos, o Negro Emanuel, levado e vendido como escravizado (para a Argentina, onde é venerado), mas que, graças à sua fé e à sua perseverança, conseguiu dar resposta ao sofrimento ao qual estava condenado, de escravo dos homens fez-se “escravo da Virgem e de mais ninguém”, como ele se apresentava, e sobre quem no Vaticano segue o processo canônico em vista da sua beatificação, afirmou o arcebispo.

Canais da Igreja sempre abertos para assistência

Gallagher referiu-se igualmente à diáspora cabo-verdiana: onde os Cabo-verdianos chegam, destacou, não só buscam melhores condições de vida, mas também levam a sua música, os seus costumes e a sua identidade, a sua fé, em fim, a sua cabo-verdianidade. Pelo que eles merecem ser adequadamente acompanhados e assistidos por todas as instituições, sejam elas civis, políticas ou religiosas, insistiu.

“E podeis estar certos de que os canais da Igreja sempre estarão abertos e disponíveis, seja em Cabo Verde que na diáspora, para facilitar o encontro e a assistência dos filhos desta nobre Nação”, assegurou o prelado.

Porque a Igreja, não sendo estrangeira em parte nenhuma, “ela preconiza, onde se encontra implantada, o desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens […]; fá-lo sempre em plano de subsidiariedade; não reclama privilégios, pede simplesmente que se respeite o espaço de liberdade que lhe cabe e que é direito inalienável daqueles a quem ela procura beneficiar”, reiterou Dom Gallagher citando São João Paulo II.

Exemplo concreto nestes dias, desta expressão, é a aprovação da parte do Governo do Protocolo de aplicação do Acordo entre a Santa Sé e a República de Cabo Verde, em vigor desde maio de 2014, observou Dom Gallagher, e cuja finalidade não é privilegiar a Igreja, mas garantir a assistência devida a quem a ela acorre, em vista do bem comum e do desenvolvimento humano integral de toda a população.

E isto porque a Santa Sé e Cabo Verde partilham numerosos valores prioritários, mas também as preocupações, tanto estruturais quanto antropológicas e culturais, entre as quais os conflitos armados e a instabilidade geopolítica; a crise climática e ambiental; as desigualdades econômicas e a pobreza; o problema da migração ilegal e da exploração do trabalho, e outros.

Num quadro mundial dramático, promover diplomacia da esperança e valores

Porém, o quadro mundial muitas vezes dramático em que vivemos nos deve encorajar ainda mais a promover a diplomacia da esperança e dos valores, na qual se tem empenhado a Santa Sé, mas que também faz parte do empenho da diplomacia de Cabo Verde, disse Dom Gallagher a terminar, citando o constante apelo do Papa Leão XIV por uma “paz desarmada e desarmante”, um renovado convite a reconhecer que outro futuro é possível se convertermos as nossas intenções e interações, baseando-as no amor e na verdade e não na força e na arrogante ganância por domínio e poder.

Inspirados pela vossa cabo-verdianidade, como concidadão do mundo e irmãos na fé, encorajo-vos, dirigentes e população em geral, a perseverar na vossa contínua busca do bem comum e da convivência social pacífica, superando conflitos e divisões e baseando-vos na justiça, na igualdade, na verdade e na solidariedade fraterna, exortou Dom Gallagher.

Volto-me confiante a Deus agradecido pelos já quase 51 anos de independência da vossa Nação e 50 de boas relações diplomáticas entre a República de Cabo Verde e a Santa Sé, que hoje comemoramos, concluiu o arcebispo, confiando todos à proteção materna de Nossa Senhora, e à intercessão de São Tiago Menor e dos Santos Padroeiros das ilhas que compõem o arquipélago.

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