Do ‘drone’ à soberania tecnológica: por que Angola precisa de uma política nacional de sistemas não-tripulados

A discussão sobre a criação de uma indústria angolana de drones merece ser ampliada. Mais do que defender a instalação de fábricas para produzir aeronaves não-tripuladas, Angola deveria começar a discutir uma questão de maior alcance estratégico: a criação de uma política nacional de sistemas não-tripulados, integrada na estratégia de Defesa, segurança, diversificação económica, ciência, tecnologia e política espacial do Estado Angolano.

Esta distinção não é meramente semântica. Ela traduz uma mudança de paradigma.

O drone é apenas a componente mais visível de um ecossistema tecnológico que envolve sensores, Inteligência Artificial, sistemas de navegação, telecomunicações, computação, análise de dados, cartografia, cibersegurança, robótica e observação da Terra. Quem domina apenas a plataforma física controla uma pequena parte da cadeia de valor. Quem domina os dados, o software, os sensores, os sistemas de comando e a capacidade de integrar essas tecnologias possui uma capacidade estratégica substancialmente superior.

É neste ponto que Angola deveria concentrar a sua atenção.

O drone deixou de ser apenas uma aeronave

Durante muito tempo, os drones foram associados sobretudo ao domínio militar. Essa percepção tornou-se insuficiente.

Actualmente, os sistemas não-tripulados constituem instrumentos de vigilância fronteiriça, monitorização marítima, agricultura de precisão, mineração, protecção ambiental, logística, inspecção de infra-estruturas, cartografia, resposta a catástrofes e observação da Terra.

A transformação é profunda porque o verdadeiro valor do sistema não está necessariamente no equipamento que voa, mas na informação que consegue recolher, processar e transformar em decisão.

Um drone que sobrevoa uma determinada área é apenas um sensor móvel. O seu valor estratégico aumenta quando a informação recolhida é integrada com imagens de satélite, radares, sistemas de informação geográfica, Inteligência Artificial e centros de comando.

Por outras palavras, o poder não está apenas em voar; está em ver, interpretar e decidir.

É precisamente por isso que a discussão sobre drones deve ser inserida no debate mais amplo sobre soberania tecnológica.

Angola tem um problema territorial que exige tecnologia

A geografia angolana é, por si só, um argumento para uma política nacional de sistemas não-tripulados.

Angola possui um território continental extenso, fronteiras terrestres com três Estados – República Democrática do Congo, República da Zâmbia e Namíbia – e uma extensa fachada atlântica. Controlar permanentemente estes espaços através, exclusivamente, de meios convencionais representa um esforço financeiro, logístico e humano considerável.

A questão não consiste em substituir soldados, polícias, marinheiros ou agentes de fiscalização por máquinas. Essa seria uma interpretação simplista. A questão consiste em multiplicar a capacidade operacional do Estado através da tecnologia.

Um sistema não-tripulado pode patrulhar durante longos períodos, operar em áreas remotas, recolher imagens, identificar alterações no terreno e transmitir informação para centros de comando. Pode ajudar a detectar actividades ilícitas e permitir que os meios humanos sejam mobilizados precisamente onde são necessários.

Assim, a tecnologia não elimina o Estado. Aumenta o alcance do Estado. Esta diferença é fundamental.

A fronteira marítima talvez seja a maior oportunidade

A dimensão marítima deveria ocupar um lugar prioritário numa política nacional desta natureza. Angola é um Estado atlântico, produtor de hidrocarbonetos, possuidor de recursos pesqueiros e com importantes infra-estruturas energéticas offshore. A protecção desse espaço não é apenas uma questão militar. É também uma questão económica.

Pesca ilegal, tráfico, poluição, exploração ilícita de recursos e ameaças às infra-estruturas marítimas representam custos económicos e riscos para a soberania.

Neste contexto, sistemas não-tripulados de vigilância marítima poderiam funcionar em articulação com radares costeiros, sistemas de identificação automática de embarcações, meios navais, aeronaves tripuladas e informação proveniente de satélites. O objectivo seria construir uma capacidade permanente de consciência situacional marítima.

Esta capacidade permitiria ao Estado saber melhor o que acontece no seu espaço marítimo, identificar comportamentos anómalos e direccionar os seus recursos de fiscalização.

A questão é essencialmente geopolítica: um Estado que não consegue observar adequadamente o seu território e os seus espaços marítimos possui uma soberania formal maior do que a sua capacidade efectiva de controlo. A tecnologia pode ajudar a reduzir essa distância.

Da segurança à economia: a segunda grande oportunidade

Seria um erro transformar a política de sistemas não-tripulados num programa exclusivamente militar. Uma das suas maiores vantagens é precisamente a possibilidade de criar uma ponte entre segurança nacional e desenvolvimento económico.

Na agricultura, drones podem apoiar a cartografia dos terrenos, monitorizar culturas, identificar problemas e optimizar determinados processos produtivos.

Na mineração, podem realizar levantamentos topográficos e recolher informação sobre grandes áreas com maior rapidez.

Na indústria petrolífera e energética, sistemas não-tripulados podem apoiar a inspecção de infra-estruturas, monitorização ambiental e avaliação de determinados activos.

Na protecção ambiental, podem ser utilizados para acompanhar florestas, incêndios, alterações territoriais e recursos hídricos.

Na Protecção Civil, podem apoiar operações de resposta a cheias, incêndios e outras emergências.

Consequentemente, a mesma infraestrutura tecnológica pode servir simultaneamente a Defesa, Agricultura, Ambiente, Energia, Mineração e Administração Pública. É justamente esta utilização transversal que pode transformar a política de drones numa verdadeira política industrial e tecnológica.

O erro seria construir apenas uma “fábrica de drones”. É aqui que a discussão precisa de ganhar profundidade.

Angola poderia importar motores, baterias, sensores, câmaras, chips, sistemas de navegação e outros componentes, montar as aeronaves localmente e, posteriormente, apresentar o resultado como indústria nacional. Mas isso seria insuficiente.

Uma verdadeira estratégia de soberania tecnológica não pode limitar-se à montagem. O objectivo deveria ser aumentar progressivamente o conteúdo tecnológico nacional.

Num primeiro momento, Angola poderia concentrar-se na integração, manutenção e operação. Depois, desenvolver software, sistemas de controlo, análise de dados e integração de sensores.

Posteriormente, avançar para componentes, electrónica, estruturas e sistemas próprios. Finalmente, o país poderia procurar desenvolver plataformas nacionais e exportar não apenas equipamentos, mas sobretudo serviços tecnológicos.

É este processo que transforma uma actividade de montagem num ecossistema industrial.

O princípio deveria ser simples: Angola não deve procurar apenas produzir drones; deve procurar dominar as tecnologias que tornam os drones inteligentes.

A verdadeira riqueza está nos dados

Existe uma dimensão frequentemente esquecida neste debate: dados. Cada voo pode gerar imagens, coordenadas, mapas, padrões de movimento, informação ambiental e dados geoespaciais.

Quando processados correctamente, esses dados tornam-se activos económicos e estratégicos.

Uma empresa agrícola pode utilizar informação recolhida por drones para aumentar a eficiência produtiva. Uma companhia mineira pode utilizá-la para melhorar levantamentos. O Estado pode utilizá-la para fiscalização territorial. Uma instituição científica pode utilizá-la para investigação.

Portanto, o valor económico não está necessariamente no aparelho.

Está na cadeia: sensor → conectividade → dados → processamento → inteligência → decisão → serviço.

É nesta cadeia que Angola deveria procurar posicionar-se.

A política de drones pode ser uma política de formação

Talvez uma das consequências mais importantes de uma estratégia deste tipo seja a formação de capital humano.

Uma política nacional de sistemas não-tripulados exigiria engenheiros aeronáuticos, especialistas em electrónica, programadores, especialistas em Inteligência Artificial, analistas de dados, técnicos de telecomunicações, especialistas em geoinformação, operadores e investigadores.

Isto criaria uma procura por novas competências nas universidades angolanas.

Mais importante ainda, poderia aproximar universidades, empresas e Estado.

Angola precisa de superar a lógica segundo a qual a universidade forma e o mercado absorve. A economia tecnológica exige uma relação muito mais estreita entre formação, investigação, inovação e produção.

Neste domínio, os sistemas não-tripulados podem funcionar como laboratório nacional de inovação.

Do drone ao espaço

Existe ainda uma ligação particularmente estratégica com o programa espacial angolano. Drones e satélites fazem parte de ecossistemas tecnológicos diferentes, mas complementares.

Um drone observa uma área específica com elevada resolução e grande flexibilidade. Um satélite permite observar enormes extensões territoriais e acompanhar fenómenos ao longo do tempo.

Quando as duas tecnologias são integradas, a capacidade de observação aumenta substancialmente.

Angola poderia desenvolver uma arquitectura em que:

  • satélites detectam;

  • drones aproximam-se;

  • sensores recolhem;

  • Inteligência Artificial analisa;

  • centros de comando integram;

  • e as autoridades decidem.

Esta integração poderia constituir uma das grandes oportunidades para o desenvolvimento da capacidade angolana de observação da Terra.

Mais uma vez, o drone funcionaria como uma etapa de uma cadeia tecnológica muito maior.

A soberania tecnológica não significa autarquia tecnológica

Há, contudo, uma distinção necessária. Defender soberania tecnológica não significa pretender produzir tudo dentro de Angola. Nenhum Estado moderno possui autonomia absoluta em todas as tecnologias.

O objectivo deve ser identificar tecnologias críticas nas quais a dependência externa possa representar uma vulnerabilidade estratégica.

É diferente comprar determinado componente num mercado internacional e depender integralmente de um fornecedor estrangeiro para o software, os sistemas de navegação, a manutenção, os dados e as actualizações de toda a plataforma.

A soberania tecnológica significa possuir capacidade suficiente para compreender, adaptar, integrar, proteger e, quando necessário, substituir tecnologias críticas.

Para Angola, esta abordagem seria mais realista e economicamente racional.

Uma política nacional deveria ter cinco pilares

Uma verdadeira política nacional de sistemas não-tripulados poderia estruturar-se em cinco grandes pilares.

Primeiro: defesa e segurança nacional. Vigilância terrestre e marítima, protecção de fronteiras, infra-estruturas críticas, apoio às forças de segurança e consciência situacional.

Segundo: desenvolvimento económico.
Agricultura, mineração, petróleo, energia, construção, logística e fiscalização de recursos naturais.

Terceiro: ciência, tecnologia e inovação. Universidades, centros de investigação, laboratórios, startups, Inteligência Artificial, robótica, electrónica e software.

Quarto: espaço e observação da Terra. Integração entre drones, satélites, cartografia, geoinformação e análise de dados.

Quinto: indústria e mercado. Produção, manutenção, certificação, serviços, formação, exportação e criação de cadeias de fornecedores nacionais.

Esta arquitectura evitaria que o projecto fosse capturado por uma única instituição ou reduzido a uma questão militar.

Angola pode transformar-se num hub africano?

Esta é talvez a dimensão mais ambiciosa. Angola não deveria pensar apenas no mercado interno. África possui Estados com enormes territórios, extensas fronteiras, vastos espaços marítimos, recursos naturais e necessidades crescentes de fiscalização.

Existe, portanto, um mercado potencial para sistemas de vigilância, agricultura de precisão, cartografia, serviços geoespaciais e monitorização ambiental.

Se Angola conseguir desenvolver competências próprias, poderá passar progressivamente de consumidor para fornecedor. Isso alteraria a sua posição nas cadeias de valor.

E existe aqui uma oportunidade de política externa. A diplomacia económica angolana poderia incorporar a exportação de tecnologia e serviços geoespaciais como instrumento de projecção internacional.

Não seria apenas vender drones a África. Seria exportar capacidade tecnológica africana produzida em Angola.

O Estado deve ser catalisador, não proprietário de tudo

O Estado terá inevitavelmente um papel central. Mas isso não significa que deva criar uma única grande empresa pública responsável por todo o sector. O modelo mais inteligente seria construir um ecossistema.

O Estado poderia definir a estratégia, regulamentar, financiar investigação, garantir procura inicial e criar condições para investimento.

As universidades produziriam conhecimento e capital humano.

As empresas desenvolveriam produtos e serviços.

As startups experimentariam soluções.

As Forças Armadas e forças de segurança funcionariam como utilizadores institucionais.

Empresas agrícolas, mineiras, petrolíferas e ambientais criariam procura civil.

Este modelo produziria algo muito mais importante do que uma fábrica: um mercado tecnológico nacional.

A janela de oportunidade está aberta, mas não indefinidamente

A revolução dos sistemas não-tripulados está a acelerar.

Os países que conseguirem combinar drones, Inteligência Artificial, satélites, sensores e análise de dados terão vantagens crescentes na segurança e na economia.

Angola possui vários elementos necessários para entrar nesta transformação: território, recursos naturais, necessidades concretas de vigilância, experiência no domínio espacial, universidades, empresas e uma posição geográfica estratégica no Atlântico Sul.

O que falta é transformar esses elementos dispersos numa estratégia coerente.

A questão já não deveria ser se Angola precisa ou não de drones. A questão é se Angola quer continuar a importar soluções tecnológicas ou se pretende começar a construir capacidade tecnológica própria.

Esta é uma escolha de desenvolvimento. Mas é também uma escolha de soberania.

Conclusão: do consumidor de tecnologia ao produtor de poder

A discussão sobre drones pode parecer, à primeira vista, uma questão técnica. Na realidade, é uma questão profundamente geopolítica.

O século XXI está a transformar a natureza do poder. Território, população, recursos naturais e forças militares continuam a ser fundamentais, mas já não são suficientes.

Dados, Inteligência Artificial, satélites, sensores, cibersegurança, robótica e capacidade de processamento passaram a integrar a arquitectura do poder nacional. É neste contexto que Angola precisa de pensar, para além da simples aquisição de drones.

Não precisamos apenas de drones angolanos. Precisamos de capacidade angolana para conceber, integrar, operar, analisar e desenvolver sistemas tecnológicos autónomos.

A diferença é enorme.

Uma fábrica produz equipamentos.

Uma política nacional produz competências.

Uma política de inovação produz empresas.

Uma política tecnológica produz conhecimento.

E uma estratégia de soberania tecnológica produz poder nacional.

Por isso, a proposta mais relevante para Angola não deveria ser simplesmente a criação de uma indústria de drones.

Deveria ser a criação de uma Política Nacional de Sistemas Não-Tripulados, integrada na Defesa e segurança nacional, na diversificação económica, na política científica e tecnológica e na estratégia espacial do país.

O drone seria apenas o ponto de partida. O objectivo final seria muito maior: transformar Angola de consumidor de tecnologia em produtor de soluções; de importador de conhecimento em criador de conhecimento; e de utilizador de sistemas estrangeiros em Estado capaz de construir parte das capacidades tecnológicas necessárias à sua própria soberania.

No fundo, a questão não é sobre máquinas que voam. É sobre quem terá capacidade para ver, conhecer e controlar o seu próprio espaço no século XXI.

E, para Angola, essa já não é uma questão do futuro. É uma questão do presente.

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