Das ruas ao fenômeno Vozinha: como um repórter virou celebridade em Cabo Verde

Em vez de se acotovelar com outros repórteres por espaço nas zonas mistas de estádios na América do Norte — onde a Copa do Mundo aconteceu —, o jornalista Raphael Bózeo escolheu uma cobertura solitária na África. Uma estratégia talvez arriscada, mas que se pagou com sobras. Ele viveu o estrelato em Cabo Verde.

A ideia surgiu durante o mestrado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com foco na relação entre infância e esporte, que deu origem ao projeto “Futebol Miúdo” nas redes sociais. A princípio, o mestrando pretenida produzir conteúdo direto dos Estados Unidos, mas esbarrou em entraves jurídicos pelo visto.

— Eu queria entender o sentido do futebol na época da Copa para as crianças, produzir conteúdo leve e com profundidade — conta Bózeo ao Sport Insider.

Por sugestão de um amigo, ele voltou as atenções para Cabo Verde. Sem orçamento de uma empresa para bancar a viagem, ele contou com contribuições de pessoas próximas em Macaé, cidade onde vive no interior fluminense. Em paralelo, como freelancer do ge, o jornalista se habilitou como correspondente independente.

— Falei com pessoas muito próximas que precisava realizar o projeto. Pedi 100 reais para um, 300 para outro, e eles me deram os recursos por acreditarem na ideia.

Por que o Cabo Verde

Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas na costa africana, com pouco mais de 500 mil habitantes. A seleção estreou na Copa só em 2026, sem histórico na primeira prateleira do futebol mundial, o que tornava a narrativa potencialmente cativante.

Dias antes do embarque de Bózeo para o destino exótico, o pai dele conversou com Paulo Henrique, lateral da seleção brasileira na Copa de 1966. O veterano indicou o contato com Caló, ex-jogador cabo-verdiano que conhecera no futebol do Catar.

Quando aterrizou naquele naco de terra em 4 de junho, às 6 horas, no aeroporto de Praia, Bózeo foi recebido por Caló com toda a tradição de morabeza — expressão em crioulo, língua nativa do Cabo Verde, que define a gentileza local.

No dia seguinte, o jornalista foi convidado pelo ex-jogador para participar de uma pelada de veteranos. Lá, ele conheceu o assessor de imprensa do presidente José Maria Neves, que rapidamente organizou um encontro. Em pouco mais de 24 horas em solo cabo-verdiano, o jornalista fez a primeira pauta, no Palácio da República.

— O material superou 100 mil visualizações — lembra o repórter.

Carnaval e o fenômeno Vozinha

No dia 15 de junho, estreia de Cabo Verde na fase de grupos, o empate sem gols diante da Espanha precisou ser trabalhado com criatividade pelo jornalismo esportivo da Globo — a quem o repórter prestava o serviço de correspondência.

Como a emissora não detinha os direitos de transmissão do jogo, Bózeo concentrou os esforços nas reações pelas ruas da capital. O material captado por meio do celular abasteceu boletins no ge, entradas no SporTV e até o Jornal Nacional.

A repercussão surpreendeu os editores da empresa, e o que era para ser uma cobertura de duas semanas se estendeu. Com mais tempo garantido no país, o jornalista viajou até Mindelo, na Ilha de São Vicente, a 280 quilômetros da capital, para encontrar com a família do goleiro Vozinha, destaque na estreia da seleção.


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Em Mindelo, o jornalista encontrou com a mãe do arqueiro de 40 anos, dona Ana, que se preparava para viajar aos Estados Unidos. Outra reportagem que viralizou.

Na sequência, Raphael foi por via marítima para a Ilha de Santo Antão, onde explorou conexões culturais com o Brasil, como o Carnaval local e o ritmo musical de Cesária Évora, cantora cabo-verdiana de maior reconhecimento internacional.

— A Ilha de São Vicente tem uma relação com o Brasil muito grande. Ela é chamada de “Brasilim” porque é a ilha que tem Carnaval, o maior da África. Foram coisas que saíram dessa perspectiva só do futebol. A gente vai pegando relações culturais pra trazer muito além do que tá acontecendo apenas ali no jogo ou da comemoração.

Repórter-celebridade

A sobrevida de Cabo Verde na Copa, o sucesso midiático de Vozinha, a dedicação que Bózeo demonstrou para ouvir as histórias dos cidadãos locais — esses fatores fizeram com que uma pesquisa de mestrado virasse uma cobertura internacional.

Naturalmente, o próprio jornalista ganhou cartaz. As pessoas o paravam para pedir autógrafos e fotos. A Câmara da Praia — órgão municipal que administra a capital do Cabo Verde — concedeu uma homenagem formal para ele, ao fim do trabalho.

— É até chato falar que virei celebridade local, porque não sou nada disso. Mas a dimensão foi apavorante. Fizeram fila para tirar fotos e pediram autógrafos na camisa oficial da seleção. Fiquei sem jeito e avisei que era apenas o repórter que contava as histórias, mas eles fizeram questão — relembra, com certa timidez.

A emissora estatal TCV e jornais estrangeiros, como o argentino Olé, repercutiram a rotina de apuração do correspondente independente. Na recepção oficial da delegação nacional, em 5 de julho, o presidente Neves citou a cobertura de Bózeo no pronunciamento aos atletas e à imprensa, para mais uma surpresa do jornalista.

— O presidente falou de mim no discurso oficial e brincou que eu cheguei para ficar duas semanas, mas já estava no país havia mais de um mês. Ver o chefe de Estado destacar o nosso trabalho diante de toda a seleção foi um choque.

No mesmo evento, a primeira-dama Débora Carvalho interpelou Bózeo sobre a seleção feminina, classificada para a Copa Africana de Nações no Marrocos. Ela explicou a necessidade deele também dar destaque ao feito histórico das mulheres.

Autoridades e parceiros locais viabilizaram a hospedagem para o jornalista viajar ao norte da África, na primeira quinzena de agosto. No Marrocos, a cobertura dele focou a rotina de atletas que mantêm dupla jornada de trabalho, incluindo a goleira titular de Cabo Verde, que concilia o esporte com a carreira de policial.

— O que mais me marcou foi ouvir que contamos a história do povo, e não só o placar em campo. Meu trabalho se apoia em três pilares: amor, dedicação e diversão. Quando o repórter valoriza a escuta e a relação humana, o conteúdo ganha uma dimensão muito maior do que os 90 minutos de partida — conclui.

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