Ambulância da cidade de Valencia, na Venezuela, colorida com os morcegos de Lacava (Foto: Livia Camillo/Sport Insider)
Ao andar pela cidade de Valencia, na Venezuela, é possível ver morcegos por todos os lados. Eles estão desenhados nas paredes das escolas, estampados nas camisas dos garis e até pichados nas arquibancadas do estádio Miseo Delgado. Este é o símbolo que, em visita casual, chamaria a atenção de um turista. Não desta vez.
O município fica a cerca de 170 quilômetros de Caracas, trajeto que se faz com quase três horas de ônibus. Ele foi escolhido pela Conmebol para receber a partida entre Universidad Central, um time da capital, e o Santos pela Sul-Americana.
Trata-se de um improviso necessário em razão da devastação causada por terremotos na Venezuela em junho. A contagem de corpos encontrados sob escombros ainda não acabou, mas já passa de 5 mil. Dada a escala da tragédia humanitária e mobilização de todo o país, o futebol ganhou outra conotação.
— Eu, particularmente, nunca havia chorado tanto na vida como nestas últimas semanas — contou Rafael Lacava, governador do estado de Carabobo, onde está a cidade que sediou a partida, em conversa com o Sport Insider.
Os morcegos, inclusive, são uma obsessão do político. Ele é apaixonado por Drácula e faz dos animais uma espécie de marketing pessoal. Um detalhe que enriqueceria o relato da reportagem ao falar de futebol, mas que se tornou secundário.
A engrenagem dos bastidores
Realizar a partida em Caracas se tornou inviável por razões operacionais e humanitárias. A capital está com serviços essenciais no limite; hospitais lotados e forças de segurança voltadas ao resgate dos desaparecidos. Redes hoteleiras de Chacao, uma subdivisão da capital, foram requisitadas como abrigo para moradores.
— Hotéis de Chacao que costumam hospedar esses times internacionais começaram a abrigar moradores da região que perderam suas casas — relatou Jair Pineda, jornalista esportivo da venezuelana TVE.
Nos bastidores, a Federação Venezuelana de Futebol (FVF) pressionou para manter o jogo na capital, com o objetivo de projetar normalidade. A diretoria do Santos se posicionou contra e acionou CBF e Conmebol para vetar Caracas, com o argumento de que a cidade precisava de todos os recursos dela direcionados à emergência.
— O Santos atuou bastante nos bastidores, primeiro entendendo o lado humano. Um jogo desse envolve muita coisa: segurança, polícia, hospitais. Todo o envolvimento de Caracas devia estar voltado para o povo que está necessitando pela tragédia — afirmou Alexandre Mattos, executivo de futebol do Santos.
Sem aval das forças de segurança para o Estádio Olímpico e com Maiquetía fechado, a partida foi transferida para o Estádio Misael Delgado, em Valencia.
A mudança gerou problemas adicionais. A arena não tem a capacidade mínima de 20 mil lugares exigida pela Conmebol para os playoffs, além de limitações técnicas e de hospitalidade, o que expôs o clube ao risco de advertência ou sanção financeira.
— Ao jogar num estádio que não cumpre as especificações, ninguém sabe se, mais adiante, não virá uma advertência ou uma sanção da Conmebol — ponderou Pineda.
O vazio no vestiário
Para a Universidad Central, o golpe mais duro foi a morte de Yimvert Berroterán, de 18 anos. Revelação das categorias de base do clube e da seleção sub-20 da Venezuela, a Vinotinto, o jovem morreu após mais de 24 horas soterrado nos escombros do terremoto de 24 de junho. A FVF confirmou a morte dois dias depois.
O elenco ficou quase duas semanas sem atividades. Cinco dias antes do jogo, equipe e comissão técnica interromperam a preparação para se despedir do companheiro.
— Não tem sido fácil. Parece desculpa, mas não é. Há poucos dias, estávamos numa missa nos despedindo de um companheiro. Não queríamos viver essa situação como país, mas vivemos. Enquanto pudermos apoiar, pelo esporte, um povo tão golpeado, faremos — declarou Daniel Sasso, treinador da UCV, após a partida contra o Santos.
Em campo, o único gol venezuelano saiu dos pés de Maicol Ruiz, companheiro de Berroterán, que teve mulher, mãe e filho na arquibancada, vindos de Caracas.
— Sinto que o abalo afetou muito pela perda de Yimvert. Perdemos amigos, familiares e um companheiro. Mas a vida tem que seguir em frente — afirmou Ruiz.
Arquibancadas na terra do beisebol
Na Venezuela, a paixão nacional é o beisebol. Jogos do futebol local em Caracas dificilmente passam de 2 mil torcedores. Mesmo com a ausência de Neymar — o nome de maior apelo da delegação —, a presença do Santos mexeu com o Misael Delgado e funcionou como raro programa de entretenimento em meio à crise.
— O futebol venezuelano vem num crescimento constante, mas ainda não avançou de todo em público e em euforia — contou o jornalista esportivo Pineda.
Nas tribunas esteve o governador de Carabobo, Lacava, cujo filho, Matías, passou pela base do Santos em 2022. Ele relatou os estragos causados no próprio estado.
— Tivemos um episódio muito traumático, mas venezuelanos têm uma solidariedade incrível. Nos lugares onde é possível voltar à normalidade, voltaremos. O futebol ajuda a dar essa sensação de que vamos nos levantar — disse o político.
O Santos venceu por 4 a 1 e abriu vantagem para a volta, marcada para 28 de julho, na Vila Belmiro. Ao resultado, somaram-se ações do clube brasileiro em campanhas de doação para os atingidos, e a Universidad Central deixou o gramado aplaudida pela postura diante do luto recente. O placar adverso foi o que menos importou.
*A repórter viajou à Venezuela a convite do Santos FC.
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