Há cerca de sete anos, os espelhos que revestem uma sala da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Esefid/UFRGS) refletiram o nascimento de uma cultura que incendeia Porto Alegre.
Foi ali, em 12 de outubro de 2019, que cerca de 200 pessoas participaram do evento inaugural da cena ballroom da capital gaúcha. Desde então, com desfiles, performances e dança, o movimento vem construindo um espaço em que a comunidade LGBT+ encontra uma rede de apoio e amizade e é celebrada como protagonista de sua trajetória.
— Para mim, é um estilo de vida — diz Bru Likes Borba, uma das pioneiras no cenário local. — O dia de ball (“baile”, em inglês) é para celebrar o meu corpo trans e as suas potencialidades, esse corpo que, diferentemente do que ocorre em outros espaços, é cultuado, é querido dentro da ballroom.
Criada por pessoas que por décadas foram marginalizadas, a ballroom é hoje objeto de estudo, tema de filmes, séries e músicas. Para seus integrantes, é também uma forma de se olhar para o mundo. Um espaço de acolhimento e identidade.
— É um mundo alternativo. Sabe quando você é criança e sonha com algo que parece não ser possível? Na ball, você vai ver que é, sim, possível — enfatiza Ávine Fernandes, outra liderança da Capital. — Só consegui entender a possibilidade de ser uma travesti sendo respeitada e exaltada por conta da ballroom.
Com a pista aberta, a noite de baile vai começar
O ápice da cultura é uma ball, o momento no qual os membros se reúnem para apresentar seus talentos. O evento é organizado em batalhas divididas por categorias, em que os participantes se arriscam a “caminhar” — como é chamada a apresentação.
Posicionado em um lugar de destaque, o DJ começa a tocar seu som, e o público se reúne ao redor da pista. Com o microfone em mãos, o chanter — um mestre de cerimônias — agita quem está presente. O baile vai começar.
Palmas pulsam no ritmo da música, dedos estalam e gritos evocam os nomes das casas (espécies de grupos ou coletivos) presentes no dia. Nesse instante, todas as atenções se voltam a quem está na pista, disputando a preferência da maioria do júri, formado por pessoas mais experientes.
O ritual de toda ball envolve algumas etapas. Antes de efetivamente começarem as competições, a primeira parte, chamada de roll call, é dedicada a honrar figuras importantes da cena presentes no dia. Um sinal de respeito a quem chegou antes. E honrar ainda uma instituição fundamental dentro da cultura: as houses, ou “casas” em português.
“House”, um lugar de acolhimento
O princípio de tudo foi nos Estados Unidos — daí a mistura de termos em inglês —, no final dos anos 1960. Mais do que uma contracultura, a ballroom nasce como uma ação de reivindicação social, um protesto da nova-iorquina Crystal LaBeija, travesti negra que se revoltou com o racismo das competições de beleza promovidas pela comunidade LGBT+ da época. Ela precisava embranquecer suas aparências para ter mais chances de vitória.
— É uma comunidade que surge a partir da Crystal e dessa proposta de criar uma nova comunidade que trouxesse esse olhar (de protagonismo) para pessoas negras de Nova York dentro desses concursos — contextualiza Domaréon da Silva Policarpo, que na cena ballroom é conhecido como Banjee Boy Dom Harpya.
Assim como a gente tem o breaking, que é uma dança da cultura hip-hop, o voguing é a dança da comunidade ballroom.
DOMARÉON DA SILVA POLICARPO
Um dos organizadores da primeira ball de Porto Alegre, em 2019
Foi LaBeija quem criou a primeira casa, a House of LaBeija. Na época, o uso do termo house era literal: as pessoas LGBT+, frequentemente expulsas de suas famílias biológicas por serem quem são, eram tiradas das ruas e levadas para morar com a “mãe” ou “pai” de uma casa.
— Muitas pessoas colocam as casas como coletivos, mas eu acho que é muito além. É uma família para além de um laço sanguíneo — sintetiza Ávine, mãe da Feroz Casa de Leopardos. — Meus filhos vêm falar comigo coisas que não falam com as mães. E tenho filhos que não têm contato com as mães. As casas estão nesse local de ressignificação familiar.
Ela menciona também um papel educacional desses grupos. Por fatores históricos e sociais, que envolvem preconceito e marginalização, a comunidade LGBT+ é uma das afetadas pelo HIV. Em Porto Alegre, capital que há 10 anos lidera o ranking de mortalidade por aids, algumas casas exercem a função de conscientizar para a prevenção e o apoio a pessoas soropositivas.
Cada casa, uma família
Dentro de sua casa, Ávine é chamada de founder mother. Foi ela quem fundou o grupo e é quem está à frente dele. Posição semelhante à de Dom, over founder father da House of Harpya, a primeira criada no Rio Grande do Sul. Ainda há outros cargos possíveis na cena, de acordo com sua lealdade e suas contribuições para a comunidade.
Porto Alegre tem hoje nove casas, algumas criadas aqui e outras sendo representantes de outros Estados: Atrevida, Audácia, Cabal, Feiticeira, Harpya, Juicy, Lanceira, Leopardos e Tarântula.
Mas para integrar a ballroom não é necessário pertencer a uma house. Há quem participe das performances de forma independente. São os chamados 007. A expressão é uma referência direta ao célebre agente secreto James Bond.
— A grande maioria das pessoas começa como 007 — explica André Borba, chamado de Wistar 007, que já integrou casas, mas hoje segue independente. — Os iniciantes 007 participam de balls e ensaios e podem ser acolhidos por uma dessas famílias.
Hora de mostrar beleza, talento e criatividade
Depois da apresentação das casas, começam as batalhas da ball. O espaço se abre para que os competidores caminhem na pista, a cada categoria que é chamada, uma por vez. Entre as mais clássicas, estão as de dança, em que o glamour e a elegância das roupas conversam com as técnicas e movimentos.
Mas não é qualquer dança. É o vogue (ou voguing), outro pilar dessa cultura. No mesmo Harlem, onde Crystal LaBeija foi precursora, desenvolveu-se esse estilo que simboliza o que a cultura é até hoje. Por meio de movimentos angulares de pernas e braços, a dança imita poses de modelos da famosa revista Vogue.
— Assim como a gente tem o breaking, que é uma dança da cultura hip-hop, o voguing é a dança da comunidade ballroom — resume Dom.
Sabe quando você é criança e sonha com algo que parece não ser possível? Na ball, você vai ver que é, sim, possível.
ÁVINE FERNANDES
Mãe da Feroz Casa de Leopardos
A modalidade rapidamente se alastrou entre a população negra e latina de Nova York. A dança virou categoria de destaque nas balls e referência na cultura pop de forma geral.
Aonde chega, ganha sotaques locais. Dentro do Brasil, por exemplo, diferentes ritmos musicais forjam novos passos e estilos. A over founder mother da Casa de Lanceira, Katrina Chagas, cita influências do funk carioca, brega, pagode baiano e até capoeira.
— A partir disso, foram aparecendo outras categorias. Começavam com categorias de beleza, estética, face, runway (passarela), e foram surgindo outras. Assim nasceu a comunidade ballroom — completa Dom.
Preparação técnica e emocional
Ao vivenciar uma ball, fica evidente que as batalhas não se limitam à mera busca por premiação. É quando essas pessoas, principalmente trans e travestis, conseguem se apresentar ao mundo em toda a sua plenitude. A banca de jurados analisa a técnica. Na pista de baile, quem se dispõe a disputar sabe que ali será acolhida exatamente como é.
— A ballroom é uma cultura, mas é também uma comunidade, com especificidades e marcadores sociais. Não tem como a gente não falar das diferenças que as pessoas têm entre elas. Então, raça, identidade de gênero, sexualidade são centrais — reforça Katrina.
Para ela, caminhar em uma ball carrega tons de um ritual. Entrar em uma batalha envolve preparação técnica e emocional. Mas entende, acima de tudo, como um momento de liberdade:
— A primeira coisa que passa pela minha cabeça é: “Eu estou viva”. A segunda é: “Esse é um dia que, para mim, está sendo bom, então eu vou caminhar”.
O momento em que Porto Alegre começa a ferver
De início, a faísca que fez Porto Alegre incendiar foi o vogue. Pela internet ou em estúdios de dança, pioneiros da cena local passaram a se interessar pela dança e estudá-la.
Na Capital, bailarinos ensinavam o estilo e ensaios abertos eram organizados desde 2015. Locais como o Parque Farroupilha (Redenção) e a Orla do Guaíba foram alguns dos cenários desses encontros.
O uso do espaço público ocorria, principalmente, pela necessidade. Sem lugares apropriados ou recursos para bancar um salão, era preciso ocupar a cidade.
Isso se desenvolveu de forma simultânea ao que ocorria em outros Estados, já que a ballroom chegava ao país naquela época. Pessoas que estavam se movimentando no período acabaram se tornando nomes de referência para a cena.
Dom, da Harpya, foi um deles. Ele conta que era possível reunir a comunidade ballroom do Brasil em um grupo de WhatsApp. Havia cerca de 150 pessoas, e os eventos ocorriam normalmente em São Paulo. Dom fez parte da equipe que organizou aquela primeira ball em Porto Alegre, em 2019.
— Acredito que foi algo bem inconsciente na época. Eu não era uma pessoa assumidamente LGBT+, eu não tinha transicionado (assumido a identidade de gênero masculina), mas o meu inconsciente já estava lá trabalhando para que hoje eu tivesse esse espaço seguro, que me permite ser quem eu realmente sou — conta ele, uma pessoa transmasculina.
Lugar de acolhimento
Além de Harpya, esse marco inicial apresentou outras duas houses: a Casa de Lanceira, formada por alunos de projetos sociais e moradores da Casa do Estudante da UFRGS, e a Casa de Kaliça, que, apesar de hoje extinta, teve uma história semelhante à das casas do início da ballroom. O coletivo foi formado em uma ocupação urbana composta por pessoas negras e LGBT+, que dividiam o mesmo espaço por necessidade financeira.
— A gente estava morando junto, pensando em formas de sobrevivência mesmo, de como conseguir o rango pra gente, como gerar renda. Mas também esse lugar de acolhimento, de criação e intimidade — explica Fayola Ferreira, que foi mother da House of Kaliça e hoje integra a Casa de Tarântula.
Papel de um coletivo
Aos poucos, vieram novas houses, novos integrantes, e a cena local cresceu, acompanhando o movimento nacional. Se antes um grupo de WhatsApp era capaz de reunir toda a cena ballroom do país, hoje só Porto Alegre já supera esse número.
— O Brasil todo, de 10 anos pra cá, vê a ballroom crescer a ponto de eu não fazer ideia de quantas pessoas tem na comunidade — destaca Dom.
A dificuldade em se encontrar espaços de promoção dessa cultura parece ter ficado no passado. Bru, conhecida como Mother Sugar Baby Harpya, e Dom brincam que hoje precisam escolher em quais das balls participar. Um símbolo dessa expansão, paradoxalmente, é o fim de um coletivo fundamental para o desenvolvimento da cena, o POA Vogue Nights (PVN).
A ballroom é uma cultura, mas é também uma comunidade, com especificidades e marcadores sociais.
KATRINA CHAGAS
Over founder mother da Casa de Lanceira
O PVN nasceu no início de 2022, quando um grupo de amigos que ensaiava nas férias sentiu a necessidade de ver um espaço em que pudesse batalhar e viver, com mais frequência, a experiência das balls a que assistiam na internet. Viraram produtores na cena da Capital.
— Aonde o POA Vogue Nights chegava para fazer algum evento, ele acabava levando a cultura ballroom e a conectava ao público desses lugares — afirma Gilian Vinicius, prince da House of Cabal e um dos fundadores do coletivo.
No último dia 24 de maio, o grupo organizou a Kiki Ball da Despedida, que lotou o bar Ocidente, no Bom Fim, com um clima de dever cumprido, segundo André Borba:
— Hoje, a gente acha que esse vácuo (de balls) não está mais lá. Cada pessoa do coletivo tem as suas casas, e eu acho que está todo mundo muito ativo. A gente sente que o PVN chegou ao fim de forma natural, e resolvemos celebrar esses quatro anos.
“Faça você mesmo”
Os mesmos espelhos que refletiram o marco inicial da cena agora projetam o futuro de novos talentos. Na Sala Rítmica 1 da Esefid da UFRGS, Bru e a professora Aline Nogueira Haas coordenam o Vogue Instruction Program (VIP), que oferece aulas gratuitas de voguing para a comunidade. O projeto é vinculado ao doutorado em que Bru pesquisa a dança na UFRGS.
Gilian aponta uma conexão direta entre o início da cena e os futuros possíveis da cultura ballroom do Estado. Da falta de portas abertas e dinheiro para financiar suas ações, as pessoas que fizeram acontecer desenharam uma característica própria da cidade. Por aqui, a noção de “faça você mesmo” — das roupas às balls — está sempre presente:
— Cada cena tem o seu processo de desenvolvimento. Mas talvez a nossa cena não tivesse se desenvolvido tanto se nós, que somos daqui, não tivéssemos tomado a frente na produção.
Hoje, a gente acha que esse vácuo (de balls) não está mais lá. Cada pessoa do coletivo tem as suas casas, e eu acho que está todo mundo muito ativo.
ANDRÉ BORBA
Participante independente da cena ballroom
Isso fez com que a construção da comunidade ocorresse de modo orgânico, mas, ao mesmo tempo, organizado. Foi necessário que os envolvidos se aproximassem, formando redes. Isso acabou dando fôlego e autoestima para que cada integrante possa se ver como parte importante desse processo.
— O que me mantém hoje, com certeza, é o fato de eu querer levar isso para frente. Ver os meus filhos se desenvolvendo, criar novas lideranças para o futuro, para que a cultura não morra — reforça Ávine.
O desejo coletivo é que a ballroom se expanda, mas sem que os significados do movimento sejam esvaziados. Para Gilian, essa é a chance de que ela se converta em oportunidades reais de emprego e renda às pessoas que fazem a cultura acontecer.
— A gente conseguiu consolidar um ponto de chegada, mas porque essa solidificação apontou para uma perspectiva muito boa de continuar crescendo, de continuar atraindo novos públicos, e também de fazer com que os artistas da comunidade sejam mais vistos e reconhecidos — diz Gilian.
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