Pressionados dentro e fora do país: assim pode ser resumida a situação dos haitianos, que se veem diante de uma situação crítica, com violência interna gerando deslocamentos forçados e cidadãos que antes viviam em outros países retornando ao Haiti em razão de perseguições e xenofobia.
A violência provocada pela disputa entre gangues fez o Haiti atingir um triste recorde nos últimos dias, registrando 1,5 milhão de pessoas em situação de deslocamento forçado. Os dados são da OIM (Organização Internacional para as Migrações).
Com uma população estimada em 11,9 milhões de pessoas, isso significa que o país caribenho tem cerca de 12% dos habitantes em deslocamento forçado. Mais da metade desse grupo é formada por mulheres e crianças.
A situação é especialmente preocupante na capital, Porto Príncipe, e nos arredores, onde operam nada menos que 26 gangues. No entanto, regiões que antes eram consideradas seguras também já se tornaram palco de enfrentamentos.
Uma das piores crises humanitárias em curso
Para Gregoire Goodstein, chefe da missão da OIM no Haiti, o deslocamento forçado no Haiti está entrando em uma fase ainda mais alarmante. “A crise já não está mais restrita a bairros ou regiões específicas. À medida que a violência se espalha para áreas antes consideradas seguras, cada vez mais pessoas são forçadas a fugir repetidamente, muitas vezes sem ter para onde ir.”
Apenas no ano passado, segundo dados oficiais, 55 mil pessoas morreram em razão dos embates entre gangues. De acordo com comunicado do Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti (Binuh), os primeiros três meses de 2026 registraram mil mortes e 745 feridos. Entre as violações cometidas estão assassinatos, sequestros, extorsões e destruição de propriedades. A exploração sexual também é usada como instrumento de controle dos moradores das áreas controladas por gangues.
Em comunicado, a OIM disse que a agência continua a prestar assistência vital em algumas das áreas mais afetadas do Haiti, fornecendo abrigo de emergência, cuidados de saúde, apoio psicossocial, serviços de água, saneamento e higiene, bens de primeira necessidade e apoio às comunidades deslocadas.
Segundo relatório publicado no fim de 2025 pela ONG IRC (Comitê Internacional de Resgate), o Haiti ocupa o quinto lugar entre os países que enfrentam diversas emergências em todo o mundo, atrás apenas de Sudão, Palestina, Sudão do Sul e Etiópia.
Retornos forçados e temporada de furacões
Além do deslocamento forçado interno, o contexto internacional contribui para tornar a situação do Haiti ainda mais crítica. Desde o início deste ano, mais de 110 mil pessoas que estavam em outros países foram obrigadas a retornar à nação caribenha. Em 2025, outros 270 mil haitianos já haviam voltado, sobretudo por conta da política migratória mais severa adotada por locais tradicionais de destino, como Estados Unidos e a vizinha República Dominicana.
Único país com o qual o Haiti compartilha uma fronteira terrestre, a República Dominicana está realizando uma das maiores campanhas de deportação em massa do Hemisfério Ocidental, expulsando milhares de haitianos. O esforço se estendeu aos hospitais, uma medida controversa que críticos denunciaram como desumana e reflexo de profundos sentimentos anti-haitianos na ilha. Apesar de críticas da comunidade internacional e de organizações de direitos humanos, a política antimigração dominicana tem sido aplicada sem pudores.
Além dos fatores sociais, econômicos e políticos, o Haiti também precisa se preocupar com a questão ambiental. Isso porque já começou a temporada de furacões deste ano no oceano Atlântico, que costuma gerar grandes estragos em nações caribenhas. A região, inclusive, é ponto de origem de várias dessas tormentas.
Crise persistente
Desde sua independência, em 1804, o Haiti já enfrentou uma série de crises políticas e sociais, além de intervenções militares internas, invasões por outros países e regimes ditatoriais.
A atual crise é considerada a mais grave desde o terremoto de 2010, que matou cerca de 200 mil pessoas. Ela teve início em 2021, quando o então presidente Jovenel Moïse foi assassinado. Em seu lugar, assumiu o primeiro-ministro Ariel Henry, que prometia a convocação de novas eleições – o que não ocorreu. O caso, aliás, segue sem resolução e tem vários suspeitos, incluindo o próprio Henry, nomeado premiê poucos dias antes do crime.
Em resposta, gangues do Haiti uniram-se para atacar locais públicos, criando uma disputa contra o primeiro-ministro. Esses mesmos grupos armados agora lutam entre si, aproveitando o vazio de poder.
Diante desse contexto conturbado, a migração para outros países se tornou uma necessidade para muitas famílias haitianas, mantidas com o auxílio de representantes que conseguem se estabelecer em outros países.
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