A região paraguaia do Alto Paraná ocupa uma posição central na cadeia agrícola do país, especialmente por sua importância na produção de soja e milho, além de seu papel estratégico na comercialização, industrialização e escoamento dos produtos para os mercados internacionais.
Hugo Pastore, diretor da Câmara Paraguaia de Exportadores e Comercializadores de Cereais e Oleaginosas (Capeco), afirmou que o departamento constitui um dos principais polos de atividade do setor agrícola e também concentra uma importante infraestrutura ligada ao agronegócio.
“O departamento de Alto Paraná é, sem dúvida, um departamento extremamente importante para toda a cadeia de produção, comercialização, logística, exportação e industrialização”, diz ele.
A importância de Alto Paraná ganha dimensão quando observados os números do agronegócio paraguaio. O país produziu 10 milhões de toneladas de soja na safra 2024/25, segundo a Capeco, e iniciou 2026 com forte avanço das vendas externas. No primeiro semestre, foram embarcadas 5,89 milhões de toneladas do grão, crescimento de 43,6% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a receita chegou a US$ 2,27 bilhões, alta de 50,9%. O Alto Paraná ocupa posição relevante nessa estrutura produtiva: um levantamento geoespacial da entidade apontou o departamento como líder nacional em área de milho na safrinha de 2025, com 287 mil hectares, equivalentes a quase 33% dos 875 mil hectares cultivados com o cereal no país.
Vale registrar que em 2025, as vendas externas de produtos primários e manufaturas de origem agropecuária totalizaram US$ 8,03 bilhões, segundo dados do Banco Central del Paraguay (BCP). Foram exportadas cerca de 16,2 milhões de toneladas dessas duas categorias ao longo do ano. Enquanto a receita dos produtos primários recuou 12%, para US$ 3,55 bilhões, as exportações de produtos agropecuários processados cresceram 12,7% e alcançaram US$ 4,48 bilhões, impulsionadas principalmente pela carne bovina e pelo óleo de soja. A soja em grão respondeu por US$ 2,35 bilhões em vendas externas, enquanto a carne bovina movimentou US$ 2,10 bilhões.
Mas a importância do departamento não se limita à área destinada às lavouras. Pastore explica que Alto Paraná também conta com um centro estratégico para a atividade comercial do agronegócio, especialmente em Ciudad del Este, onde estão presentes empresas ligadas ao fornecimento de insumos e de outros serviços para o setor.
Mas o desenvolvimento da agricultura também foi acompanhado pelo crescimento de várias cidades do departamento, entre elas Santa Rita, San Alberto e Naranjal, além da região metropolitana formada por Ciudad del Este, Hernandarias, Minga Guazú e Presidente Franco.
“Temos cidades que se desenvolveram de maneira muito significativa no departamento, juntamente com a agricultura”, afirma o diretor da Capeco. A essa estrutura produtiva e comercial soma-se o componente logístico. Alto Paraná representa um dos principais pontos de saída terrestre das exportações paraguaias com destino ao Brasil, razão pela qual qualquer melhoria na infraestrutura de conexão tem impacto direto sobre a cadeia.
Nesse contexto, Pastore destacou a futura entrada em operação, em plena capacidade, da Ponte da Integração, uma infraestrutura que considera estratégica para a movimentação de produtos e para o comércio exterior. “Com a futura inauguração, já para operar em plena capacidade em algum momento do ano que vem, da Ponte da Integração, isso será uma ajuda muito importante”, afirma.
O dirigente também ressaltou que atualmente estão sendo concluídas obras relacionadas aos acessos à ponte e à infraestrutura viária na região de Ciudad del Este, o que permitirá fortalecer a ligação do departamento com a fronteira brasileira.
Solos que favorecem a produtividade
Outro fator que explica a importância de Alto Paraná no mapa agrícola é a qualidade de seus solos. Segundo Pastore, grande parte das terras do departamento apresenta condições favoráveis ao desenvolvimento das culturas e permite alcançar bons níveis de produtividade.
“A característica da grande maioria dos solos do departamento de Alto Paraná é de qualidade muito alta, com condições de solo muito boas, e isso permite obter produtividades muito boas na grande maioria das áreas”, explica.
Mesmo nas regiões onde as condições produtivas são um pouco inferiores, o manejo realizado pelos produtores permite manter uma boa capacidade de produção, acrescentou. Esse conjunto de fatores, como área agrícola, qualidade dos solos, infraestrutura comercial e conexão logística, posiciona o departamento como um dos principais centros de produção de grãos do país.
O clima, um dos principais pontos de atenção para a nova safra
Enquanto Alto Paraná mantém sua importância na produção agrícola, o setor já acompanha atentamente as condições climáticas que estarão presentes na próxima safra. Em particular, a evolução do fenômeno El Niño chama a atenção de produtores e agentes da cadeia, em razão das possíveis mudanças no regime de precipitações.
Pastore afirma que o setor acompanha de perto as previsões, embora tenha ressaltado que, para uma atividade que depende diretamente das condições climáticas, contar com chuvas é preferível a enfrentar períodos de seca. “Para nós, que trabalhamos em um negócio que é uma indústria a céu aberto, ter uma previsão de chuvas é melhor do que ter uma previsão de seca”, afirmou.
No entanto, o excesso de precipitações também pode se transformar em um problema para o desenvolvimento das culturas e para toda a cadeia produtiva. “De qualquer forma, os excessos nunca são bons. Para nós, o importante é poder contar com as precipitações no momento certo, da maneira adequada e, na medida do possível, evitar os excessos”, afirma.
O impacto das chuvas não se limita ao desenvolvimento das plantas. O excesso de umidade pode dificultar a entrada das máquinas nas áreas, atrasar os trabalhos de plantio e complicar a aplicação de produtos destinados à proteção das culturas. A isso se soma o componente logístico. As dificuldades para trafegar pelas estradas rurais podem posteriormente afetar o transporte da produção das propriedades até os silos e as indústrias, especialmente durante a colheita.
Tecnologia e manejo para reduzir riscos
Nesse cenário, o manejo agronômico e a aplicação de tecnologia ganham importância para reduzir parte dos riscos associados às condições climáticas. Pastore destaca, em primeiro lugar, a necessidade de manter os solos cobertos por meio de práticas como o plantio direto e o uso de curvas de nível para evitar a erosão.
“Um dos pontos é manter sempre o solo coberto com práticas de plantio direto e ter também a possibilidade de proteger o solo com curvas de nível que evitem a erosão. Isso é fundamental”, explicou.
À conservação do solo soma-se a capacidade de resposta diante do surgimento de doenças que possam afetar as culturas, especialmente em cenários de maior umidade. Nesse sentido, contar com boas condições de solo volta a ser determinante, pois permite a entrada das máquinas para realizar as aplicações necessárias, particularmente de fungicidas.
“Na medida em que possam surgir mais doenças, é preciso ter também a possibilidade de, quando houver boas condições de solo, permitir que as máquinas entrem para realizar, sobretudo, a aplicação de fungicidas”, afirmou. Assim, enquanto Alto Paraná mantém sua posição como um dos principais territórios agrícolas do país, o desafio para a próxima safra será marcado pela combinação entre produtividade, manejo dos solos, tecnologia e infraestrutura logística.
O departamento parte de uma posição estratégica dentro da cadeia de grãos, mas seu desempenho também estará condicionado por um fator que o setor não pode controlar: que as chuvas ocorram no momento adequado e sem excessos que acabem afetando tanto a produção quanto o transporte dos grãos.
Publicada originalmente em Forbes Paraguai com edição de Forbes Brasil
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