Caribe em disputa: como região se tornou estratégica para Infantino reverter debacle na Fifa

“O apoio de Trump mais fragiliza do que ajuda Infantino na Fifa”, diz especialista

Depois da definição de cada posição das confederações continentais em relação à reeleição de Gianni Infantino na Fifa, o atual presidente trabalha na busca por apoio de associações nacionais dissidentes que possam contrariar as aspirações das oposicionistas. O Caribe é apontado como um terreno estratégico para o dirigente na confederação, que também congrega países das Américas do Norte e Central (Concacaf).

O México foi o primeiro país a contrariar as indicações da Concacaf. Embora a União Caribenha de Futebol (UCF) tenha se juntado a Estados Unidos e Canadá no reforço da posição continental, é nessa região que insurgem apoios — ainda que tímidos — a Infantino.

A modesta Antígua e Barbuda foi a primeira. Depois, o presidente ítalo-suíço foi bem recebido pela República Dominicana. Infantino cumpriu agenda no país nos últimos dias com o UCF Challenge Sub-14 como justificativa. Ele esteve com o presidente da federação dominicana, ​​José Deschamps, e com o ministro do Esporte e Recreação da República Dominicana, Kelvin Cruz, entre outras autoridades locais.

Segundo relatório sobre o Fifa Forward entre 2016 e 2022, o programa da entidade mundial repassou US$ 973,41 mil (cerca de R$ 5 milhões) à Federação Dominicana de Futebol (Fedofutbol). A verba foi utilizada para a reforma e construção de escritórios no Centro Olímpico Juan Pablo Duarte, na capital Santo Domingo, com inauguração em julho de 2022.

O presidente da Concacaf, Victor Montagliani, o presidente da UCF, Lyndon Cooper e o presidente da Fifa, Gianni infantino. Foto: UCF via Instagram

Montagliani tentou ‘vetar’ Infantino na República Dominicana

Victor Montagliani, presidente da Concacaf e possível candidato à Fifa, escreveu uma carta a Infantino antes da viagem do ítalo-suíço ao Caribe. “Acredito que, considerando a crise de governança em torno da Fifa, resultado da controversa proposta da Fifa Forward Enterprise, a mídia vai focar nessa situação”, escreveu o canadense, em referência ao plano comercial que desencadeou os rompimentos com o atual presidente.

“Dessa forma, respeitosamente, peço que você, em nome do futebol, reconsidere sua presença”, sugeriu Montagliani.

O canadense preside a Concacaf desde 2016. A plataforma da sua campanha foi a promessa de “unir as 41 associações da entidade”. Montagliani também é um dos vice-presidentes da Fifa e atua no Conselho da entidade máxima do futebol. Ele teve papel importante na Copa do Mundo de 2026, como “copresidente” do torneio, com influência na definição das sedes do torneio na América do Norte.

Ao comentar sobre o encontro no Caribe, ele focou no trabalho da UCF, sem sequer citar a Fifa ou Infantino. Ainda assim, houve menções indiretas à crise no futebol mundial.

“O futebol funciona melhor quando suas instituições são transparentes, responsáveis ​​e quando as associações sentem que têm voz”, disse Montagliani. “É importante que continuemos a ter essas conversas de forma aberta e respeitosa, principalmente quando há questões legítimas que precisam ser abordadas”, completou.

“Nosso foco sempre foi o futebol em primeiro lugar. Isso significa investir em sócios, competições e garantir que as estruturas em torno do esporte operem com a governança e a confiança que o futebol merece”, concluiu.

União Caribenha tem direito a R$ 25,8 milhões no terceiro mandato de Infantino

Embora tenha como pressuposto o torneio de base, a viagem de Infantino rendeu reuniões com lideranças caribenhas. Nas suas redes sociais, o ítalo-suíço expôs proximidade com os dirigentes da UCF.

O Fifa Forward prevê US$ 5 milhões (R$ 25,8 milhões) às entidades regionais, como a União Caribenha de Futebol (UCF), até o fim do ciclo de 2023 a 2026 para projetos de desenvolvimento.

Infantino aproveitou para alfinetar oponentes políticos em um encontro da UCF, em que Victor Montagliani estava presente. Diante da polarização envolvendo a Fifa, a gestão tem defendido a ideia de que a Uefa lidera a oposição por “ser contra a distribuição de receitas” pelo mundo.

“Queremos fazer o futebol crescer em cada um dos nossos 211 países no mundo. Alguns, infelizmente, não precisam e não querem que outros cresçam, mas precisamos diminuir essa diferença entre os grandes países e todos os outros”, disse Infantino, ao anunciar uma Copa do Mundo Sub-15 com todas as associações filiadas à Fifa.

Infantino se reuniu com dirigentes caribenhos em busca de apoio. Foto: UCF via Instagram

A UCF não tem dominicanos na sua direção. O presidente, Lyndon Cooper, é de Santa Lúcia. Os vice-presidentes vêm de Jamaica, Suriname, Guadalupe e Porto Rico. Há executivos de Dominica, Bahamas, Anguilla e Bermuda. E o secretário-geral, Camara David, é de Trinidad e Tobago.

Até o momento, publicamente, apenas Antígua e Barbuda se manifestou, com grandes louros a Infantino. “Conferimos o mais profundo apoio ao presidente da Fifa”, diz um trecho de um comunicado, que cita a expansão da Copa para 48 participantes.

“Ouvindo com humildade genuína e agindo com convicção decisiva, ele (Infantino) forjou um legado inclusivo que vai além do esporte, afirmando que todos os países, independentemente do tamanho, merecem ter voz igual e oportunidades a nível mundial”, continua o texto.

O bloco caribenho tem 31 integrantes, dos quais 25 são filiados à Fifa e têm direito a voto na eleição para a presidência. Os outros seis associados são territórios ultramarinos, principalmente da França e da Holanda.

Apesar de deliberarem posicionamentos, manifestações e agirem em bloco, as confederações continentais não têm direito a voto na eleição da Fifa, somente as associações membro (ou seja, as federações nacionais de cada um dos 211 países filiados à entidade). Ademais, não há diferença de peso entre os votos dos eleitores. O voto de Antígua e Barbuda, por exemplo, tem o mesmo peso do Brasil, que já conquistou cinco títulos mundiais e foi a todas as Copas.

Se a eleição presidencial da Fifa tiver dois postulantes, é necessária maioria simples (50% + 1) entre os votos válidos (106). Infantino já teve apoio explícito da Confederação Africana (54 votos) e da Conmebol (10), além de outros países asiáticos e da própria dissidência na Concacaf, que o deixa com cerca de 75 votos. Caso conquiste os 25 votos caribenhos, ele se aproxima dos 100.

No caso de três ou mais candidatos, é preciso obter dois terços dos votos válidos (140) em um primeiro turno. Caso contrário, quem tiver o menor percentual de votos é eliminado até que restem dois, que disputam por maioria simples.

A Fifa conhecerá os candidatos à eleição presidencial da entidade até 18 de novembro, prazo para inscrições de candidaturas. O pleito ocorre no Congresso da Fifa, previsto para 18 de março de 2027.

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