Paola Santos, de 21 anos, foi deportada para a Libéria
Brasileiros deportados dos Estados Unidos passaram a viver em países africanos que não são seus locais de origem e, em alguns casos, sem saber quando poderão voltar. Os relatos incluem longos períodos de detenção, ameaças, falta de comunicação e destinos desconhecidos. As histórias foram reveladas em reportagem exclusiva do Fantástico, exibida neste domingo (6).
A política adotada pelo governo de Donald Trump permite que imigrantes que não podem ser enviados de volta aos países de origem sejam encaminhados para terceiros países. Segundo a reportagem, quase 25 mil pessoas foram deportadas dessa maneira desde o início da atual política migratória americana.
Brasileira é levada para a Libéria sem saber o destino
Um dos casos é o da mineira Paola Santos, de 21 anos. Ela vivia nos Estados Unidos havia cinco anos e trabalhava com limpeza de obras em Massachusetts.
Paola havia entrado no país pela fronteira com o México e acabou detida pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA, o ICE. Ela permaneceu presa por um ano e três meses e passou por unidades em Massachusetts, Connecticut, Vermont, Texas e Louisiana.
Há cerca de duas semanas, a brasileira foi colocada em um avião sem saber para onde seria levada. Durante a viagem, que durou aproximadamente 16 horas, ela permaneceu algemada pelos pés, mãos e cintura.
Paola só descobriu o destino quando desembarcou. Segundo ela, funcionários da imigração disseram que ela estava na Libéria.
A brasileira contou que chegou a questionar os agentes antes de embarcar e disse que não sairia do ônibus enquanto não soubesse para onde estava sendo levada. Ela afirma ter sido ameaçada com o uso de força caso resistisse.
Por que brasileiros estão sendo enviados para outros países?
A reportagem explica que não existe uma regra única para esses casos. Em algumas situações, os imigrantes pediram asilo nos Estados Unidos alegando que corriam riscos em seus países de origem por causa de violência, perseguição política ou outras ameaças.
Quando a Justiça americana impede que essas pessoas sejam devolvidas aos países de origem, o governo dos Estados Unidos busca um terceiro país disposto a recebê-las.
Segundo o Fantástico, países que aceitam receber deportados recebem milhões de dólares para isso.
O Ministério das Relações Exteriores afirmou à reportagem que não havia sido notificado sobre o caso de Paola pelos países envolvidos nem pela brasileira ou sua família.
Brasileiro é levado para Guiné Equatorial
Outro caso apresentado pela reportagem é o do pernambucano Pietro Graza de Lima, que vivia na Flórida.
Ele fazia parte de um grupo que deveria ser deportado para a Libéria. Segundo Pietro, cinco pessoas resistiram ao desembarque e foram agredidas. Ele afirma que o grupo sofreu hematomas e foi retirado à força da aeronave.

Pietro Graza de Lima foi deportado pelos EUA para Guiné Equatorial
De acordo com o brasileiro, um representante da Libéria informou que o país não aceitaria aquelas pessoas. O avião então decolou novamente.
Os deportados acreditaram que retornariam aos Estados Unidos, mas a aeronave pousou na Guiné Equatorial.
Pietro afirma que cerca de 10 a 20 policiais armados e encapuzados aguardavam o grupo no local. Desde então, ele permanece hospedado em um hotel determinado pelas autoridades.
Brasileiros ficam sob vigilância em hotéis
Imigrantes enviados para a Guiné Equatorial ficam hospedados em hotéis, mas não têm liberdade para circular normalmente.
Pietro relatou ao Fantástico que está em um hotel que, segundo informações da Associated Press, já foi utilizado para receber pessoas suspeitas de terem sido contaminadas pelo vírus ebola e deportados pelo ICE.
O brasileiro havia deixado o Brasil após relatar temer pela própria segurança. Em 2016, ele foi preso no Recife por falsificação de anabolizantes e posteriormente sofreu uma emboscada na qual levou sete tiros.
Nos Estados Unidos, afirmou ter entrado com pedido de asilo. Agora, permanece na Guiné Equatorial sem saber qual será seu destino.
O Itamaraty informou ao Fantástico que foi comunicado sobre a situação de Pietro na quarta-feira (2). Segundo o ministério, o brasileiro está em boas condições de saúde e uma visita do embaixador brasileiro ao hotel deverá ser facilitada.
Outro brasileiro tenta evitar deportação para a África
A possibilidade de ser enviado para a Guiné Equatorial também preocupa Alex Pereira Alves, brasileiro que vive em Los Angeles.
Ele pediu asilo nos Estados Unidos há cerca de dez anos, alegando perseguição por ser homossexual. Durante esse período, precisava se apresentar regularmente às autoridades de imigração.
A situação mudou em abril deste ano, quando ele recebeu um dispositivo de monitoramento eletrônico. Em agosto, foi convocado novamente para uma audiência, mas acabou preso poucos minutos depois de chegar ao local, segundo sua advogada.
Alex está detido em Adelanto, na Califórnia, e tenta ser deportado para o Brasil, e não para a Guiné Equatorial.
Segundo a advogada Jane Oak, o brasileiro acredita que poderia estar mais seguro atualmente no Brasil do que quando deixou o país, dez anos atrás.
Países têm situações políticas diferentes
Os países utilizados pelos Estados Unidos para receber deportados apresentam realidades bastante diferentes.
Entre eles estão democracias como Costa Rica e Libéria, mas também países considerados instáveis ou governados por regimes autoritários, como El Salvador, Essuatíni, República Democrática do Congo, República Centro-Africana e Guiné Equatorial.
Para a advogada Savi Arvey, da organização Human Rights First, a estratégia também teria o objetivo de provocar medo entre imigrantes que ainda estão nos Estados Unidos.
Segundo ela, o governo Trump firmou acordos com mais de 35 países e estaria usando a possibilidade de deportações para terceiros países como forma de pressionar imigrantes a deixarem voluntariamente os Estados Unidos.
Brasileiros não sabem quando poderão voltar
Os casos apresentados pelo Fantástico mostram que, depois da deportação, alguns brasileiros permanecem sem informações claras sobre quanto tempo ficarão nos países africanos ou quais serão os próximos passos.
Os governos da Libéria e da Guiné Equatorial foram procurados pela reportagem, mas não responderam sobre o destino dos brasileiros enviados para seus territórios.
Enquanto aguarda uma definição, Paola tenta criar uma rotina na Libéria. Ela conta que frequenta a piscina do hotel, caminha até uma praia próxima e busca maneiras de ocupar o tempo.
Apesar da deportação e da incerteza sobre o futuro, a jovem afirma que não se arrepende dos anos que viveu nos Estados Unidos, período em que conseguiu trabalhar e ajudar financeiramente a família no Brasi l.
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