Brasileiro viaja pelas estradas de 30 países africanos. Eis como correu

A viagem, com uma distância estimada de cerca de 42.000 quilómetros, que tinha uma previsão de três meses e se prolongou por mais quatro, não tinha um itinerário definido nem um número de países estabelecido, apenas a intenção de percorrer os caminhos menos conhecidos e de ir descobrindo as histórias e culturas dos povos ao longo do caminho.

“A ideia era simplesmente viajar e, eventualmente, dar a volta ao mundo”, diz Anderson Araújo, de 42 anos, que trabalha entre Portugal e Angola.

O gestor de projetos comprou, em 2019, um Toyota Land Cruiser 78 – um veículo muito comum em África, segundo explicou – depois de abandonar a ideia inicial de fazer a viagem de mota.

O carro, de 2006, acabou por se tornar a sua casa durante grande parte do percurso e atravessou com ele cerca de 30 países do continente africano, com paisagens tão díspares que vão desde selvas densas ao deserto do Saara.

Do automóvel observou os céus estrelados do continente, pores-do-sol cujas cores são indescritíveis, viu manadas de animais a correr parques selvagens à noite e fez do pouco que tinha o seu maior conforto “do lar”.

Na primeira fase da viagem passou pelas nações mais austrais e orientais.

Entre safaris, praias e montanhas, uma das experiências que mais o marcou aconteceu no Quénia, onde explorou uma cratera vulcânica e acabou por se perder com o guia que o acompanhava.

“Estávamos perdidos, mas a situação estava sob controle”, conta, explicando que o momento acabou por se transformar numa “experiência aleatória e fantástica”.

Outro momento que destaca foi a passagem pelo Burundi, um dos países mais pobres do mundo, que o surpreendeu pelo acolhimento das pessoas, sempre dispostas a ajudar.

A segunda etapa da viagem foi a África Central e Ocidental.

Foi também nesta fase que surgiram alguns dos momentos mais difíceis, particularmente por ter apanhado malária no Senegal e ter sofrido uma tentativa de assalto na Nigéria, em Lagos.

Do Senegal – nação vizinha da Guiné-Bissau – seguiu-se outra etapa muito complicada, quando o objetivo era rumar ao norte de África e, posteriormente, à Europa. Daqui, teve o seu visto negado 10 vezes para a Mauritânia, sendo que, para si, seguir a viagem pelo Mali – país em conflito com grupos terroristas – não seria opção e, por isso, as alternativas começavam a escassear. 

Quando finalmente conseguiu entrar na Mauritânia, atravessou parte do Saara e pôde percorrer o famoso caminho dos vagões de minério de ferro. Uma experiência ilegal, mas que, nas suas palavras, é “turisticamente permitida”. São cerca de 12 horas num vagão cheio de ferro, sob um sol abrasador e uma sensação térmica de perto de 50 graus Celsius. 

Da Mauritânia seguiu para Marrocos e, posteriormente, atravessou o Estreito de Gibraltar em direção à Europa.

Apesar dos percalços que teve pelo caminho, o veículo não sofreu avarias graves. Teve um pneu furado e precisou de trocar um radiador, mas nunca ficou parado na estrada durante os cerca de 42.000 quilómetros.

“Eu acho que eu tenho mais sorte do que juízo”, afirma, lembrando que, quando começou a viagem, nem sequer sabia trocar um pneu e, para dificultar, o único idioma que domina é o português.

Ao longo da viagem, não sentiu dificuldades em abastecer o veículo, mas explicou que geriu os seus recursos e abastecia mais em países com combustíveis mais baratos. 

Questionado sobre o impacto desta viagem na sua vida, diz que ainda não “assimilou bem a experiência” e que esta foi apenas a conclusão de uma etapa que, assim que possível, será retomada a partir da Europa.

Em termos de aprendizagens, destaca que os países são mais do que os preconceitos que, por vezes, lhes são incutidos e que pode haver surpresas.

“Há mais pessoas para ajudar do que para atrapalhar pelo caminho”, conclui.

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