Brasil desiste da retranca e inicia processo de reciprocidade contra tarifaço dos EUA

O governo brasileiro iniciou nesta quinta-feira (13) o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica em resposta à tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos a parte dos produtos nacionais. A pedido do presidente Lula, o Ministério das Relações Exteriores notificará formalmente a administração de Donald Trump e solicitará a realização de consultas diplomáticas.

A legislação, sancionada em 2025, permite ao Brasil adotar contramedidas diante de ações unilaterais que prejudiquem a competitividade do país no comércio internacional. Apesar da abertura do procedimento, o Palácio do Planalto informou que continuará priorizando uma solução negociada para o impasse.

Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, as conversas terão como objetivo reduzir ou eliminar os efeitos das barreiras americanas e de possíveis respostas brasileiras. “As tarifas norte-americanas são injustificadas e arbitrárias, e o Brasil continuará defendendo sua posição em todas as instâncias cabíveis”, afirmou o governo.

A cobrança adicional entrou em vigor em 22 de julho. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que a medida alcança 15% do volume exportado pelo Brasil aos Estados Unidos em 2025, equivalente a US$ 5,8 bilhões.

Entre as atividades mais afetadas estão os segmentos de madeira, móveis, máquinas e equipamentos, calçados, produtos cerâmicos e açúcar. O governo pretende manter o auxílio às empresas atingidas por meio do Plano Brasil Soberano, com foco na preservação dos empregos e da capacidade produtiva.

A abertura do processo, no entanto, divide especialistas. Uma das preocupações é que a adoção de contramedidas provoque uma nova reação do governo Trump e amplie o conflito. Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, avaliou que o início da análise ainda não produz consequências comerciais imediatas, mas pode aumentar a tensão bilateral. “Diante da imprevisibilidade de Trump, isso pode gerar uma escalada”, afirmou.

Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, também considera elevado o risco de uma resposta mais dura de Washington. Para ele, o cenário mais provável seria a imposição de novas restrições contra a economia brasileira. “Na medida em que a retaliação sirva apenas como simbologia, eu acho isso um péssimo movimento”, declarou.

Azevêdo defende que o Brasil busque alternativas de negociação capazes de envolver interesses estratégicos dos dois países. Na avaliação do ex-comandante da OMC, uma retaliação sem capacidade suficiente para mudar o cálculo político americano poderia atingir empresas e consumidores brasileiros sem provocar o recuo esperado dos Estados Unidos.

Em sentido diferente, a economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade de Georgetown, sustenta que o Brasil dispõe de instrumentos para pressionar Washington. Uma alternativa seria aplicar temporariamente impostos sobre a exportação de produtos brasileiros dos quais os americanos dependem.

“É o único instrumento de política externa que, quando você tem poder de mercado, você atinge diretamente o consumidor do outro país”, disse De Bolle em entrevista à agência Bloomberg Línea.

Segundo a economista, a lista de mercadorias excluídas do tarifaço americano revela setores nos quais o Brasil possui maior poder de negociação. Produtos como café, suco de laranja, carne e nióbio têm participação relevante no abastecimento dos Estados Unidos. Uma eventual taxação das vendas brasileiras poderia elevar os custos naquele mercado e aumentar a pressão interna sobre a Casa Branca, embora também trouxesse perdas aos exportadores nacionais.

A Confederação Nacional da Indústria adota uma posição mais cautelosa. A entidade avalia que o diálogo e as discussões técnicas devem continuar como os principais caminhos para tentar reverter as barreiras. O presidente da CNI, Ricardo Alban, destaca que bens intermediários representaram 58% da corrente comercial entre os dois países na última década, o que demonstra a complementaridade das duas economias.

O novo tarifaço foi adotado depois de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR. O órgão apontou supostas práticas brasileiras consideradas prejudiciais às empresas americanas, citando questões relacionadas ao Pix, ao desmatamento e à corrupção.

O Planalto informou que apresentou ao USTR, ao longo do último ano, documentos e evidências para contestar as acusações. Como não houve o encerramento da investigação nem a retirada da sobretaxa, o Executivo decidiu avançar com o procedimento de reciprocidade.

Além das negociações bilaterais, o governo afirmou que seguirá defendendo o sistema multilateral de comércio e mudanças na Organização Mundial do Comércio. A estratégia também prevê ampliar a quantidade de parceiros e abrir novos mercados, reduzindo a exposição dos exportadores brasileiros às restrições impostas por Washington.

 




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