As tartarugas-marinhas de Cabo Verde, Guiné-Bissau (e não só) têm um livro só delas | Dia da Biodiversidade
Sabia que Cabo Verde é o principal local em todo o mundo para a desova da tartaruga-comum (Caretta caretta)? E que no arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau, as tartarugas-verdes (Chelonia mydas) têm o terceiro local mundial para o mesmo fim, e o mais importante em todo o continente africano?
Se não sabia e gostava de descobrir mais sobre estas e outras espécies de tartarugas-marinhas que podem ser encontradas em sete países da África Ocidental, está com sorte, porque há um manancial de informação à distância de um simples clique, onde pode encontrar um livro, de acesso gratuito, coordenado pelo biólogo português Paulo Catry, que lhe vai explicar tudo.
O investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) e do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (Ispa) conta que, “apesar de ser primariamente um ornitólogo”, acabou por se envolver com as tartarugas-marinhas há quase 30 anos. “Não foi sempre um trabalho contínuo, mas nos últimos dez anos, sim”, conta, ao telefone.
Nos primeiros tempos dessa actividade dedicada a estes gigantes dos mares, ainda com muito por descobrir, esteve sobretudo na Guiné-Bissau, mas nos últimos anos tem trabalhado também com equipas na Mauritânia e no Senegal, além de algumas colaborações pontuais com Cabo Verde.
Tartarugas-verdes e os rastos que deixam na praia do ilhéu do Poilão, no arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau
Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas da Guiné-Bissau
Ou seja, acabou por trabalhar em grande parte dos países que integram a Parceria Regional para a Conservação da Zona Costeira e Marinha da África Ocidental (PRCM) e, para desenvolver o livro, visitou os que tinham ficado de fora – a Gâmbia, a Guiné e a Serra Leoa. A PRCM é uma entidade que congrega várias entidades nestes sete países que trabalham em prol da conservação das tartarugas-marinhas, que são vistas cada vez mais como “um dos maiores valores da biodiversidade desta zona”, lê-se no livro Tartarugas Marinhas da África Ocidental – Ecologia e Conservação. Das sete espécies destes animais, apenas uma não está presente nesta região africana: a tartaruga-australiana (Natator depressus), que existe apenas no Norte da Austrália.
Paulo Catry achou que estava na altura de o mundo descobrir o que se passa com estas misteriosas criaturas, que passam quase todo o seu tempo em águas profundas, realizam migrações épicas e estão fortemente ameaçadas por factores tão diversos como a captura acidental na pesca (bycatch), ou as alterações climáticas. “Tem havido algum investimento para investigação e sugeri que estava na altura de se fazer um livro com o conhecimento acumulado, que sistematizasse toda a informação recolhida na região e tivesse um historial do que foi feito até agora, em termos de investigação e conservação”, conta.
O resultado é a obra editada pela PRCM, que está agora disponível online para ser descarregada em português, francês ou inglês. Catry é o autor de grande parte dos textos, mas o livro contou com a colaboração de mais de 40 pessoas, na grande maioria oriundas dos países visados.
Com textos claros e fáceis de ler e muitas fotografias apelativas, a obra – também há uma edição impressa, mas essa está toda nas mãos da PRCM – faz uma descrição das seis espécies de tartarugas-marinhas encontradas na região, que incluem, além das já referidas, a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), a tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) e, ainda que carecendo de confirmação, a tartaruga-de-kemp (Lepidochelys kempii), explicando como utilizam cada um dos países envolvidos, a sua importância, o seu estado de conservação actual, as principais ameaças que enfrentam e os esforços que têm sido feitos para a sua conservação.
Boas notícias, mas…
De toda a informação obtida, o investigador português salienta três aspectos. “Desde logo, o facto de termos nesta região dois hotspots para a desova a nível mundial: Cabo Verde, para as tartarugas-comuns, e a Guiné-Bissau para a tartaruga-verde. Estes países estão entre os mais importantes a nível mundial para estas espécies. E na Mauritânia há uma zona de alimentação no Banco de Argain que é uma área de concentração gigantesca”, sublinha. De acordo com o livro, um estudo recente estimou a presença de cerca de 150 mil tartarugas-verdes neste local, a maior parte das quais, viajam até ali desde o arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau.
Centro de incubação de tartarugas-comuns, na ilha da Boa Vista, em Cabo Verde
BiosCV
As migrações realizadas pelas tartarugas-marinhas são outro dos aspectos que Paulo Catry destaca, entre o tanto que se tem descoberto sobre estes animais naquela região. “As migrações que fazem são espectaculares. Elas ligam a Guiné-Bissau, Cabo Verde e toda a costa a outros locais no Atlântico, com ligações muito fortes à América do Sul, mas também um bocadinho às Caraíbas e à América do Norte, além de haver já também alguma presença no Mediterrâneo. É uma conectividade muito engraçada”, explica.
Por fim, o livro traz também algumas boas notícias – ainda que com reservas. “Apesar de vivermos num mundo com tantas más notícias em termos ambientais, e tantas coisas tristes a acontecer, as duas espécies mais numerosas nesta região [a tartaruga-comum e a tartaruga-verde], aumentaram nas últimas décadas. E isto deve-se, por um lado, aos esforços de conservação que têm sido feitos, mas não será só isso”, explica. “Elas podem estar a beneficiar de outros factores e, um dos possíveis, embora precise de mais estudos para se perceber se é mesmo assim, é o facto de os tubarões, que são importantes predadores das tartarugas-marinhas, sobretudo das juvenis, estarem a ser dizimados. São notícias que têm um aspecto positivo e outro negativo.”
Entre os maiores riscos que enfrentam os tubarões está a pesca – acidental ou não –, e este é um problema a que as tartarugas não estão imunes. Aliás, os perigos são vários e contribuem para que as tais boas notícias de que se falam tenham sempre um “mas” associado. Por exemplo, em Cabo Verde em 2021 registou-se a presença de 300 mil ninhos da tartaruga-comum (57% dos quais, de acordo com os registos dos últimos anos, na ilha da Boa Vista), o que parece quase uma garantia absoluta da continuidade desta espécie, classificada com o estatuto de Vulnerável, na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
Pesca de tartarugas para fins científicos com os pescadores Imraguen da Mauritânia
Paulo Catry
Mas as tartarugas-marinhas têm uma particularidade: o seu sexo é determinado depois do nascimento e está fortemente relacionado com a temperatura, com as mais quentes a gerarem fêmeas e as mais frias a darem origem a machos.
Ora, com o aquecimento global que se tem sentido – e sem sinais de travão à vista –, pode gerar-se um desequilíbrio, que faça com os machos se tornem “tão raros que isto tenha um impacto populacional negativo”, algo que já está a acontecer em algumas populações, alerta-se no livro, em que “a produção de machos já é extremamente reduzida”. Estima-se que, por exemplo, “no final do presente século, 99% das tartarugas nascidas em Cabo Verde poderão ser fêmeas, com consequências demográficas imprevisíveis”.
Uma tartaruga-verde no ilhéu de Poilão, no arquipélago dos Bijagós, Guiné-Bissau
Paulo Catry
Também a subida do nível médio do mar pode ter efeitos pesados nestas espécies, já que as praias que utilizam para a desova podem ficar submersas – algo que, diz Paulo Catry, também já começa a acontecer. “A maior colónia [de tartarugas-verdes] dos Bijagós está numa ilha muito baixinha, que já sofreu um alagamento completo por causa de tempestades mais fortes, e é previsível que estas situações venham a aumentar, podendo inviabilizar a utilização destes locais”, diz.
Pesca mortífera
A estes problemas juntam-se a predação (sobretudo dos ninhos e dos juvenis), o desenvolvimento humano em algumas zonas de costa, que inviabilizam a sua utilização pelas tartarugas-marinhas para a desova, ou a poluição (há praias que ficam cobertas pelos detritos levados pelo oceano), mas Paulo Catry destaca, além das alterações climáticas, a pesca como a principal ameaça destes animais, sobretudo as capturas acidentais.
“Apesar das boas notícias que trazemos, não é claro que elas venham a ser sustentáveis. Existem indícios de que um dos grandes factores de ameaça para toda a mega fauna marinha a nível mundial é a captura acidental. A mortalidade das tartarugas-marinhas em capturas acessórias nas pescas é assustadora. Basta passear na costa do Senegal ou da Mauritânia e encontrar todas as tartarugas mortas que vemos para perceber que este é um dos maiores problemas”, diz.
Não se pense que se está a falar apenas da pesca industrial – apesar de esta ter um peso muito relevante –, já que a pesca artesanal, com forte presença na região, acaba por ter também um peso considerável, como se lê no livro: “Qualquer conversa informal ou inquérito aos pescadores confirma isso mesmo: as tartarugas caem frequentemente nas redes ou prendem-se nos anzóis, acabando muitas vezes por se afogar. Na verdade, dada a imensidão das frotas pesqueiras que actuam na região – 37 mil embarcações artesanais activas –, às vezes custa a acreditar que ainda sobrem tartarugas nos mares destes países.”
De acordo com a Lista Vermelha da UICN, das seis espécies de tartarugas-marinhas presentes na África Ocidental apenas a tartaruga-verde tem o estatuto de conservação Pouco Preocupante. As tartarugas comuns, de oliva e de couro têm o estatuto Vulnerável e as tartarugas-de-pente e de kemp são classificadas como Criticamente em Perigo.
Por isso, todos os esforços de conservação e investigação em curso na região têm mesmo de continuar e, eventualmente, ser reforçados, sublinha Paulo Catry: “É essencial continuar o trabalho que tem sido feito, em termos das áreas marinhas protegidas que, apesar de tudo, controlam a pesca. E é preciso estender esse controlo a outras áreas, apesar de ser muito difícil, porque as frotas pesqueiras na região são muito vastas.”
É preciso também estender as acções e criar mecanismos que permitam reduzir um pouco a mortalidade ligada à pescaria, “que é colossal”, descreve. “No contexto das alterações climáticas, há que procurar sítios que até podem não ser muito importantes actualmente mas que possam servir de refúgio alternativo no futuro, para que sejam protegidos e conservados.”
O aquecimento global já está a fazer com que haja tartarugas-marinhas a deslocarem-se para desovar a sítios onde não eram presença habitual, como praias de Espanha e Itália, no Mediterrâneo, onde as águas são quentes. Em Portugal, como a temperatura do mar é mais fria, isso ainda não acontece, mas Paulo Catry não descarta que, no futuro, possamos passar a ter também a presença de algumas destas criaturas marinhas. “No Mediterrâneo já está a acontecer, e quem sabe um dia não irá acontecer também, por exemplo, no Porto Santo [Madeira], onde a água é um pouco mais quente?”
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