As startups que querem curar com ciência feita em Coimbra – Tecnologia

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Há uma gota de colírio que escorre pelo rosto de um doente, uma bactéria que cresce silenciosa num cateter hospitalar, e duas investigadoras de Coimbra que decidiram que havia uma forma melhor de resolver estes problemas. Uma com um pequeno polímero transparente. A outra com um sensor inteligente. Ambas com a mesma convicção: a ciência que fica fechada nos laboratórios não serve ninguém.

São de histórias como estas que a próxima edição do Startup Capital Summit(inscrições gratuitas aqui), que vai decorrer em Coimbra no próximo dia 3 de junho, vai ser feita.

Paula Ferreira, cofundadora da InEye Therapeutics, descreve o problema que está a procurar resolver com uma precisão que só vem de anos passados a estudá-lo de perto. As gotas oftálmicas, o tratamento mais comum para a grande maioria das patologias oculares, são, na prática, muito menos eficazes do que qualquer doente imagina. “Quando colocamos uma gota num olho, a grande maioria do seu conteúdo imediatamente escorre pela cara abaixo… Mesmo o que fica dentro do olho, 80% do que lá está é drenado nos primeiros dois minutos pelo organismo”, explica.

O que a InEye propõe é uma alternativa sólida: um inserto polimérico que fica colocado no olho e liberta o fármaco de forma controlada, local e prolongada, sem a perda para o sistema circulatório que transforma os colírios numa roleta de efeitos secundários. O produto mais avançado chama-se InEye Pearl, e trata os sintomas do olho seco. Não tem fármacos (só lubrificantes) o que lhe permite entrar no mercado como dispositivo médico, uma via regulamentar mais rápida e menos dispendiosa do que a de um medicamento.

No entanto a estratégia não foi sempre esta. Inicialmente, a equipa tinha mira no pós-operatório de cataratas, um mercado com uma necessidade evidente: doentes a seguir calendários de gotas durante semanas. Mas os ensaios clínicos pesam, e houve um pragmatismo que acabou por ditar uma mudança de rota. “Fizemos esta mudança de estratégia, sem, no entanto, sacrificar a ambição e o desenvolvimento tecnológico”, sublinha Paula Ferreira, acrescentando que o glaucoma, uma patologia crónica sem cura, permanece no horizonte da empresa.

Entretanto, na Farmácia Estádio, em Coimbra, já começaram a decorrer os primeiros ensaios em humanos — voluntários saudáveis a testar segurança e usabilidade. “Exatamente agora, neste momento em que estamos a falar, deve haver voluntários na farmácia a testar o InEye”.

Um problema diferente, mas igualmente invisível

Cerca de 20% dos doentes que entram num hospital acabam, em algum momento, algures no internamento, com um cateter urinário. E a cada dia de cateterização, a probabilidade de uma infeção aumenta entre três a dez por cento. O que parece uma estatística fria é, na prática, trágico: só na Europa e nos Estados Unidos morrem cerca de 30 mil pessoas por ano por causa deste tipo de infeções. “O que nós queremos fazer é, ao detetar antes de haver uma infeção instalada, em teoria, nunca precisaremos de chegar ao ponto em que há um tratamento”, refere Marta Santos, CEO da TimeUp.

O problema atual é sistémico: os profissionais de saúde só agem quando o doente começa a apresentar sintomas (febre, urina turva, confusão). Nessa altura, a análise vai para laboratório, o resultado demora, e o tratamento começa tarde, muitas vezes com antibióticos de largo espetro que alimentam o ciclo de resistências. A TimeUp quer inverter esta lógica com um sensor integrado no cateter que deteta a presença de E. coli, a bactéria responsável pela maioria das infeções urinárias, em concentrações baixas, antes de qualquer sintoma.

A empresa acaba de garantir financiamento PT 2030 para um estudo clínico em consórcio com a Universidade de Coimbra, o Instituto Politécnico de Coimbra e a ULS Coimbra. Os protótipos, já validados em laboratório, vão agora encontrar pacientes reais.

Coimbra como ecossistema

O que une estas duas histórias é também o lugar onde acontecem. Coimbra tem construído, ao longo dos últimos anos, uma infraestrutura de apoio à transferência de tecnologia.

Para a InEye, o IPN funcionou como “braço direito” no desenvolvimento do plano de negócio; o Biocant, a meia hora de Coimbra, permitiu preparar os lotes para os ensaios clínicos sem sair da região. Para a TimeUp, a tríade universidade-IPN-hospital universitário criou uma simbiose que Marta Santos considera decisiva: “Essa facilidade de interligação entre estas três vertentes — a academia, o business e a parte clínica — no nosso caso, como somos um dispositivo médico, faz toda a diferença.”

A TimeUp ganhou a edição anterior do Startup Capital Summit, o evento de referência do ecossistema de Coimbra que acontece no próximo dia 3 de junho. Para Marta, o prémio valeu mais do que o reconhecimento simbólico: “É um selo de qualidade… isso também nos dá confiança a nós naquilo que estamos a fazer.”

O preço de proteger o que se cria

Quando se chega ao tema da propriedade intelectual, muitos investigadores ainda estão formatados para publicar e partilhar. A lógica da startup exige o oposto: proteger antes de revelar. E essa proteção tem um preço que a maioria das startups em fase inicial simplesmente não consegue pagar. “A propriedade intelectual e a proteção dessa propriedade intelectual é algo que envolve umas largas centenas de milhares de euros… pode levar a muitos casos de inviabilidade da própria empresa”, diz Paula Ferreira.

A cofundadora da InEye Therapeutics não pede que as universidades paguem as patentes de todos, mas algo mais simples: apoio na fase inicial, até as startups terem “um bocadinho mais de asas para voar”. É um diagnóstico que ressoa para além de Coimbra e que aponta a uma fragilidade estrutural do sistema português de transferência de tecnologia.

Marta Santos identifica o outro lado do mesmo problema: a mudança de linguagem. Falar para investidores não é falar para investigadores, e aprender essa distinção não está em nenhum plano curricular de engenharia química. “Não estava preparada para ser CEO de uma empresa”.

O que estas duas mulheres partilham, além da cidade, da ciência e da área, é a recusa em deixar que a investigação fique apenas no papel.

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