Analista de Cabo Verde e a presença de Espanha e Argentina na final: «Enaltece ainda mais o nosso trabalho»

A presença de Espanha e Argentina na final do Mundial’2026 acresce valor ao desempenho do estreante Cabo Verde, reconhece Bruno Reis, analista daquela seleção africana, que empatou com os europeus e foram eliminados pelos sul-americanos no prolongamento. 

“Não foi aquele caso de termos empatado com uma Alemanha, França ou Inglaterra que tiveram um Mundial bastante abaixo. Fizemo-lo [nos 90 minutos] com duas equipas que mostraram competência contra as restantes. Obviamente, isso enaltece ainda mais o nosso trabalho”, notou à agência Lusa o analista português, que ajudou Cabo Verde a atingir os 16 avos de final na estreia na principal competição internacional de seleções.

Única das 48 participantes a defrontar os dois finalistas do Mundial’2026, Cabo Verde começou por pontuar no Grupo H frente à Espanha (0-0), campeã em 2010 e detentora do título europeu, seguindo-se as igualdades com o Uruguai (2-2), vencedor em 1930 e 1950, e a Arábia Saudita (0-0).

Os lusófonos tornaram-se o país mais pequeno em população e área a ultrapassar a fase de grupos, mas foram eliminados nos 16 ‘avos’, ronda inédita na história da prova, ao perderem com a Argentina (3-2 após prolongamento), três vezes campeã do mundo (1978, 1986 e 2022), sem interromperem a defesa do troféu por parte da bicampeã sul-americana.

“Citando o nosso selecionador, não fomos lá para participar, mas para competir. Lançámos esse propósito a todos e fomos com o espírito de mostrar quem somos e o que tem sido trabalhado e desenvolvido há vários anos na Federação Cabo-Verdiana de Futebol. O desfecho foi positivo e mostra que estamos no caminho certo”, disse Bruno Reis, de 43 anos e integrado desde 2023 na equipa técnica comandada por Pedro Brito, mais conhecido por Bubista.

O analista realça a “forte preparação” de Cabo Verde para os encontros com Espanha e Argentina, nos quais “a estratégia e um conjunto de posicionamentos e dinâmicas” permitiram aos africanos “neutralizar bastante alguns dos pontos fortes” de cada adversário, sobretudo a roja.

“Uma das estatísticas, se calhar a mais impressionante, é que o ponta de lança da Espanha [Mikel Oyarzabal] só tocou na bola pela primeira vez ao minuto 31, o que é um recorde em Mundiais [desde os primeiros registos, datados a partir de 1966]. Conseguimos neutralizar as principais armas da Espanha: o jogo interior e a capacidade de jogar entre linhas”, observou.

As nuances táticas “mudaram um pouco” frente à albiceleste e voltaram a atestar a força estratégica de Cabo Verde, que se repercutiu em campo e fez dos lusófonos os primeiros estreantes na fase a eliminar desde 2010.

“O produto é a coragem e resiliência que os jogadores mostraram, além da sua capacidade de trabalhar, abordar [o adversário] olhos nos olhos e não desistir de cada bola ou lance. Tentaram sempre fazer o melhor, mesmo quando estivemos a perder por três vezes contra a Argentina. Até ao fim, tentámos ir buscar mais qualquer coisa. Quando estes fatores se somam e são potenciados de forma correta, o sucesso está mais próximo”, admitiu.

Questionado sobre a necessidade de marcações diretas a algum oponente, Bruno Reis recordou que, desde a sua chegada à seleção, Cabo Verde só optou por essa via em duas partidas, uma dos quais frente à Espanha e a incidir no médio Rodri, em detrimento do avançado argentino Lionel Messi.

“Conseguimos quase sempre manter uma pressão mais forte nos médios que constroem o jogo da Argentina, fosse Alexis Mac Allister ou Enzo Fernández, e nos próprios centrais, quando já estavam muito em cima de nós. A Inglaterra não o fez e acabou por levar com um volume ofensivo muito forte”, referiu, ao evocar a tendência na última meia hora da vitória com reviravolta dos sul-americanos sobre os britânicos nas ‘meias’ (2-1).

Responsável por analisar os adversários de Cabo Verde no Mundial’2026, Bruno Reis considera que o empate com o Uruguai “ajudou a preparar melhor” o duelo frente à Argentina, em função das dificuldades sentidas pelo conjunto de Bubista nos últimos 20 minutos da primeira parte, quando desperdiçou a vantagem inicial com dois golos sofridos antes do intervalo.

“Defrontámos a Argentina com dois médios e o que estava pela esquerda incidia na zona do Messi. Felizmente, conseguimos impedir essa linha de passe preferencial deles. Mais do que fazer uma marcação, houve sempre alguém nos espaços que sabíamos que eles iriam procurar, quer como equipa, quer especificamente para o melhor jogador da história”, partilhou, num embate em que o recordista de partidas (33), vitórias (23), golos (21) e assistências (12) em Mundiais inaugurou o marcador perto da meia hora.

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