A demora na apuração do resultado de primeiro turno da eleição presidencial no Peru do dia 12 reflete a combinação de fragmentação política, polarização e complexidade institucional que tem marcado o país nas últimas décadas. Com 35 candidatos neste ano, a votação produziu um quadro altamente pulverizado, no qual Keiko Fujimori, filha do ex-ditador direitista Alberto Fujimori, assegurou o primeiro lugar com pouco mais de 17% dos votos.
E embora o esquerdista Roberto Sánchez esteja 0,1 ponto percentual à frente do ultradireitista Rafael López Aliaga — faltando a contagem de quase 6% das urnas —, outros candidatos ainda têm chances de conquistar a vaga restante para o segundo turno, em 7 de junho. Na disputa voto a voto, o número de pedidos de impugnações aumenta, o que ajuda a explicar a demora na consolidação do resultado.
Há outros fatores para a lentidão da apuração, que ainda pode se estender por semanas. O país, formado por regiões andinas, amazônicas e costeiras, é o que os peruanos chamam de “desafio geográfico”, refletindo-se nas dificuldades operacionais. Mas o acirramento ideológico institucional peruano dos últimos anos amplia desconfianças e suspeitas — segundo fontes diplomáticas, muito bem fundadas — que convertem a homologação de cada ata eleitoral em uma disputa judicial.
O atraso na apuração não é novidade no Peru. Em abril de 2000, a contagem oficial de votos esteve ligada à dúvida sobre se haveria ou não um segundo turno — previamente previsto por institutos de pesquisa. Fujimori, então já assombrado por escândalos de corrupção e abuso de direitos humanos, aparecia nos primeiros boletins eleitorais com mais dos 50% dos votos que lhe dariam a vitória na primeira votação.
Governos da região, incluindo o do Brasil, discretamente intervieram para evitar uma fraude supostamente arquitetada pelo então chefe de inteligência de Fujimori, Vladimiro Montesinos.
Em uma tensa entrevista coletiva, em Lima, o chanceler Francisco Tudela inverteu responsabilidades e disse que governos estrangeiros estavam forçando a realização de um segundo turno, contrariando as urnas. “Vocês (estrangeiros) não podem pedir do governo peruano um golpe de Estado para agradar à comunidade internacional”, afirmou.
No fim, após dias, as urnas mostraram Fujimori com 49,87% dos votos válidos, a apenas 0,13 ponto percentual da vitória imediata, em meio a uma forte contestação. No segundo turno, Fujimori venceu o centrista Alejandro Toledo, mas abandonou o governo e fugiu para o Japão em novembro daquele ano, pressionado pelas acusações que o envolviam com os crimes e as trapaças de Montesinos.
Em 2001, a incerteza na apuração concentrou-se na definição do segundo colocado, com a disputa entre Alan García e Lourdes Flores — Toledo havia garantido o primeira vaga no segundo turno — decidida por centésimos percentuais, após uma semana de contagem de votos.
O cenário peruano atual adiciona novos elementos, no qual o quadro eleitoral espelha uma institucionalidade igualmente complicada. O Peru constitucionalmente opera sob um presidencialismo com mecanismos típicos do parlamentarismo, como a existência de um primeiro-ministro, a possibilidade de dissolver gabinetes e da destituição de políticos por “incapacidade moral”, o que alimenta confrontos recorrentes entre Executivo e Legislativo.
Contando com o atual presidente interino, o país teve nove presidentes em dez anos, um retrato da instabilidade recente. Nesse ambiente, a polarização entre direita e esquerda ganhou força. Setores conservadores, com forte presença no Congresso, opõem-se a agendas mais intervencionistas defendidas por lideranças de esquerda.
A vitória de Pedro Castillo, em 2021, intensificou essa divisão – seu governo enfrentou resistência contínua e acabou interrompido após a tentativa de dissolução do Congresso, considerada inconstitucional. A destituição, em dezembro de 2022, desencadeou protestos sobretudo em regiões andinas, reprimidos com violência e com mais de 60 mortos.
O paralelo entre sistema eleitoral e arranjo político é direto. Se em 2000, a demora refletia um processo sob suspeita, em 2026, traduz um modelo que, ao priorizar controle e contestação, reproduz na apuração a mesma complexidade e imprevisibilidade que marcam a governabilidade — ampliando a incerteza em um país já caracterizado pela volatilidade política.
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