Coceira, espirros, nariz entupido e manchas na pele costumam ser os primeiros sinais associados às alergias. Mas os efeitos dessas doenças vão muito além do desconforto momentâneo. Distúrbios do sono, queda no rendimento escolar e profissional, irritabilidade, dificuldades de concentração e até mesmo problemas de autoestima fazem parte da rotina de milhares de pessoas devido à condição.
O cenário também chama atenção pelo crescimento dos casos. Segundo a Organização Mundial da Alergia (WAO), entre 30% e 40% da população mundial convive com algum tipo de doença alérgica. No Brasil, estima-se que cerca de 35% da população apresenta pelo menos uma alergia, índice semelhante ao citado pelo médico alergista e imunologista Ney Raffin, que define o aumento como uma verdadeira epidemia.
“Hoje se discute as doenças alérgicas como uma epidemia. Elas aumentaram muito nas últimas décadas e atingem desde alergias respiratórias até reações a medicamentos, alimentos e picadas de insetos”, afirma.
Entre as doenças mais frequentes, estão rinite alérgica, asma, dermatite atópica, dermatite de contato, urticária e alergias alimentares. Embora tenham manifestações diferentes, compartilham um mesmo mecanismo: uma resposta exagerada do sistema imunológico diante de substâncias que normalmente não representam perigo ao organismo.
Principais sintomas
- Espirros frequentes;
- Nariz entupido ou escorrendo;
- Coceira no nariz, olhos ou pele;
- Manchas e lesões na pele;
- Tosse persistente;
- Chiado no peito;
- Falta de ar;
- Inchaço nos lábios, língua ou rosto;
- Dificuldade para respirar após alimentos, medicamentos ou picadas de insetos.
Hábitos que favorecem
Apesar dos avanços da medicina, ainda não existe uma única explicação para o aumento dos casos. Uma das hipóteses mais aceitas pela comunidade científica é a chamada teoria da higiene, segundo a qual o menor contato com ambientes naturais durante a infância modifica o desenvolvimento do sistema imunológico.
Raffin explica que estudos comparando populações urbanas e rurais demonstraram menor incidência de alergias entre pessoas que vivem mais próximas da natureza. Segundo ele, fatores como excesso de tempo em ambientes fechados, alimentação baseada em produtos ultraprocessados, sedentarismo, estresse e alterações na microbiota intestinal também podem contribuir para esse cenário.
A predisposição genética também pesa. Quando um dos pais é alérgico, a chance de o filho desenvolver alguma alergia varia entre 25% e 30%. Se pai e mãe apresentam doenças alérgicas, esse risco pode chegar a 70%, embora não necessariamente seja o mesmo tipo de alergia.
Mesmo assim, herança genética não determina o diagnóstico. “Existe uma predisposição, mas ela depende da combinação com fatores ambientais para que a doença se manifeste”, explica.
Como reduzir as crises
- Lave roupas guardadas antes de utilizá-las;
- Evite varrer a casa a seco; prefira pano úmido ou aspirador;
- Não bata cobertas e roupas de cama dentro de casa;
- Mantenha ambientes arejados;
- Estimule atividades ao ar livre e contato com a natureza;
- Evite automedicação, especialmente com corticoides;
- Procure atendimento médico diante da primeira reação importante ou de sintomas recorrentes.
Muito além dos espirros
As consequências das alergias respiratórias frequentemente passam despercebidas. Ao respirar mal durante a noite, pacientes com rinite ou asma têm o sono interrompido repetidas vezes, comprometendo a qualidade do descanso.
O resultado aparece durante o dia, com sintomas como sonolência, irritabilidade, dificuldade de memória, redução da atenção e até maior risco de acidentes no trânsito.
Outro problema recorrente é o mau hálito. Como a obstrução nasal leva muitas pessoas a respirarem pela boca, a garganta fica ressecada, favorecendo a proliferação de bactérias.
Já nas doenças de pele, o impacto costuma ser emocional. Crianças com dermatite atópica, por exemplo, frequentemente convivem com perguntas, preconceitos e constrangimentos em ambientes sociais, devido às lesões visíveis.
“O tratamento precisa olhar para o paciente como um todo. Não é apenas controlar a alergia, mas entender como ela interfere na vida daquela pessoa”, ressalta o médico.
Diagnóstico e tratamentos
Nem toda reação é igual e, por isso, identificar a causa faz diferença. Enquanto algumas alergias podem ser confirmadas por exames de sangue, outras exigem testes específicos feitos em consultório.
Um exemplo é a dermatite de contato, provocada por substâncias presentes em cosméticos, metais, produtos de limpeza ou até tintas de impressão. Nesses casos, pequenas quantidades de diferentes substâncias são aplicadas nas costas do paciente para identificar o agente responsável.
Segundo Raffin, a automedicação continua sendo um dos maiores desafios. O uso indiscriminado de corticoides, por exemplo, pode causar efeitos importantes quando utilizado sem acompanhamento médico.
Outro problema está na forma incorreta de utilizar medicamentos. Pesquisa desenvolvida pela Universidade do Vale do Taquari (Univates), segundo o médico, mostrou que cerca de 80% dos pacientes utilizam o spray nasal de maneira inadequada, reduzindo significativamente a eficácia do tratamento.
Casos graves e atendimento imediato
Embora muitas alergias sejam controláveis, algumas situações representam emergência médica. Reações anafiláticas, geralmente provocadas por medicamentos, alimentos ou picadas de insetos, podem causar inchaço, dificuldade para respirar, queda da pressão arterial e levar à morte se não forem tratadas de forma rápida.
Nesses casos, a orientação é procurar imediatamente um serviço de emergência. Posteriormente, o paciente deve ser encaminhado para avaliação especializada, a fim de identificar o agente causador e evitar novas exposições.
Para pessoas com histórico de alergias graves a medicamentos, o especialista recomenda manter sempre uma identificação com essa informação e apresentar o documento sempre que receber atendimento médico.
Em números
- 35% dos brasileiros apresentam pelo menos uma doença alérgica.
- 30% a 40% da população mundial convive com algum tipo de alergia.
- 25% a 30% é a chance de um filho desenvolver alergia quando apenas um dos pais é alérgico.
- 55% a 70% é o risco quando pai e mãe apresentam doenças alérgicas.
- 80% dos pacientes utilizam o spray nasal de forma incorreta, segundo estudo da Univates citado pelo especialista.
- 60 dias pode levar a recuperação completa da mucosa nasal após uma crise de rinite.
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