A produtividade brasileira mudou de endereço. O motor do ganho de eficiência do país não roda mais nos tradicionais polos industriais, mas no interior do Brasil —empurrado pela força do agronegócio no Centro-Oeste e pelo avanço sobre novas fronteiras agrícolas, onde a desigualdade social também diminui.
Essa engrenagem vai muito além do campo. O agro converteu-se no catalisador de uma vasta rede econômica: irriga o transporte, o comércio, a construção civil, a tecnologia, o crédito e o setor de serviços —responsável por cerca de 70% da economia nacional—, além de alimentar diretamente as cadeias industriais.
Quase 70% da produção agrícola nacional abastece a indústria de alimentos, que se tornou uma espécie de “supermercado” global, entre as maiores do mundo. O agro brasileiro é líder em produtividade.
No primeiro semestre, as exportações da indústria de alimentos somaram US$ 33 bilhões (R$ 170 bilhões), alta de 8,5% em receita e de 6,3% em volume em relação ao mesmo período de 2025. O resultado representou 18% das vendas externas no período, segundo a Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos).
O dinamismo contrasta com a perda de força da indústria tradicional, concentrada sobretudo no Sudeste. A participação da indústria de transformação no PIB caiu de 15,7% para 9,8% desde 1995, redução de 38%. Análise da consultoria MB Associados atribui a queda à perda estrutural de competitividade.
No agro, porém, estudo sobre a produtividade do trabalho nos mais de 5.500 municípios ajuda a dimensionar a mudança. Entre 2002 e 2019, a produtividade do país cresceu 18,7%. Na agropecuária, o avanço chegou a 80,1%; nos serviços, a 10,3%; e, na indústria, a apenas 5,4%. Alguns estados “decolaram”.
O Piauí liderou o crescimento da produtividade, com alta de 103%. O Maranhão avançou 86%, e o Tocantins, 69,7%. Em São Paulo, o aumento foi de apenas 1,2%; no Rio, de 4%.
Com isso, estados antes periféricos passaram a concentrar alguns dos maiores ganhos de eficiência. Mato Grosso é um dos símbolos dessa transformação, com crescimento nove vezes acima da média nacional nos últimos anos.
Levantamento da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária) mostra que 94,8% dos produtores relatam dificuldade para contratar mão de obra, mesmo com os salários no agro tendo avançado 35,2% entre 2022 e 2025 —acima dos 24,8% da média de todos os setores.
Uma das razões é a migração de trabalhadores agrícolas para o setor de serviços.
“A produtividade do agro cresce agora além das fronteiras tradicionais. Hoje, o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) é o novo ouro. É o que foi o Centro-Oeste nos anos 1950. Trata-se de um crescimento que faz mudar a realidade regional”, afirma Alan Bueno, professor de economia na Universidade Estadual do Paraná e um dos autores do estudo que estima a produtividade do trabalho nos municípios brasileiros.
O levantamento de Bueno, em parceria com Diogo Ferraz, incorpora a informalidade, além do emprego formal, para estimar a produtividade e evitar distorções em regiões com grande número de trabalhadores sem carteira. Os dados vêm sobretudo da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), que capta o mercado formal, e da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).
Segundo dados do IMDS (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social), a probabilidade média de as crianças brasileiras, quando adultas, estarem entre os 10% mais ricos é de 1,8%. No Centro-Oeste, ela chega a 2,86%. Em municípios como Sapezal (MT), visitado pela Folha há alguns anos, ela salta a 3,9%.
“Em muitas dessas cidades, a receita das prefeituras é alta e há um efetivo aproveitamento disso pelo setor público, com bons serviços em educação e saúde, o que favorece a mobilidade”, diz Fernando Veloso, diretor de Pesquisas do IMDS.
O ex-ministro da Agricultura e professor emérito da FGV Roberto Rodrigues descreve o desenvolvimento dessas áreas assim: “Quem investe no agro acaba aplicando seu dinheiro na região em que está. Em vez de comprar um imóvel no Rio ou em São Paulo, constrói localmente. Os filhos dessas pessoas abrem escritórios de advocacia ou consultórios, e assim por diante. Há uma multiplicação de oportunidades”, afirma.
Décadas de investimento em pesquisa e tecnologia adaptada às condições tropicais, lideradas pela Embrapa, ajudaram a construir uma agricultura competitiva no Brasil. O Valor Bruto da Produção Agropecuária foi estimado pelo Ministério da Agricultura em R$ 1,39 trilhão em julho.
Esse volume se espalha por uma extensa cadeia. Uma safra maior exige máquinas, fertilizantes, sementes, crédito e tecnologia. Depois da colheita, mobiliza transportadoras, armazéns, silos, ferrovias, portos e comércio. Também alimenta a indústria: soja vira óleo e ração; milho, alimentos e etanol; leite, derivados.
“A indústria de alimentos opera com escala e eficiência produtiva, investindo cada vez mais em tecnologia, logística e sustentabilidade”, diz Cleber Sabonaro, gerente de Economia e Inteligência Competitiva da Abia.
“O grande desafio é transformar essa força em mais valor agregado, ampliar a presença nos mercados globais e reforçar a contribuição do Brasil na segurança alimentar mundial.”
Para Rodrigues, no entanto, o Brasil falha ao deixar de abrir novos mercados, sobretudo para produtos alimentícios mais sofisticados —quando deveria fazer da questão uma “agenda de Estado”.
Crédito: Link de origem