A Venezuela precisa de uma nova “luta de libertação”

UMA ENTREVISTA DE

Federico Fuentes

O presidente dos EUA, Donald Trump, reiterou recentemente que está “considerando seriamente tornar a Venezuela o 51º estado”. A declaração surge poucos meses após o ataque militar dos EUA ao país sul-americano e o sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro. A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, respondeu afirmando que seu país “não é uma colônia” e que o presidente Trump “sabe que temos trabalhado em uma agenda diplomática de cooperação”.

Mas para Elías Jaua, ex-vice-presidente de Hugo Chávez, a Venezuela de hoje é um país “militarmente ocupado”, além de “sujeito à tutela coercitiva” e a uma “administração neocolonial” dos EUA. Nesta entrevista, originalmente publicada em inglês no LINKS International Journal of Socialist Renewal, ele afirmou que o Estado venezuelano deveria denunciar esse “grave ato de agressão”.

Em conversa com Federico Fuentes, Jaua analisou o plano de Trump para a Venezuela, os fatores políticos internos que facilitaram o ataque de 3 de janeiro, por que os EUA mantiveram o governo no poder e como as forças políticas rivais e a população reagiram.

Chavista, socialista, revolucionário e diretor do Centro de Estudos sobre a Democracia Socialista (CEDES), Jaua também compartilhou suas opiniões sobre o governo Maduro e o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), o nível de participação popular no país atualmente e o tipo de solidariedade que a Venezuela precisa.


FEDERICO FUENTES

Após o ataque imperialista de 3 de janeiro, você se referiu à situação na Venezuela como uma “ocupação militar”. Poderia explicar o porquê?

ELÍAS JAUA

Baseio essa afirmação em declarações oficiais tanto do governo venezuelano quanto de Donald Trump e Marco Rubio. O governo dos Estados Unidos declarou que, sob a ameaça de destruição em massa da infraestrutura e da liderança na Venezuela, aceitou o plano proposto por Trump.

Portanto, sem dúvida alguma, existe uma ameaça pública de um ataque militar em larga escala, o que implica coerção militar. Isso também explica o que aconteceu posteriormente.

FF

Qual é o plano de Trump para a Venezuela?

EJ

O fato mais visível, conforme declarado por Trump e seus assessores, é que a comercialização da produção de petróleo venezuelana está em suas mãos e que a receita da venda desse produto vai para um fundo administrado pelo Departamento do Tesouro, liberando alguns recursos para o funcionamento do Estado venezuelano.

Isso dispensa maiores explicações para compreender a gravidade da situação em que um país, uma nação, um Estado, tem de aceitar que sua principal fonte de renda seja administrada por outro país. Isso nada mais é do que tutela coercitiva e administração neocolonial de um governo sobre outro, sistema que vem sendo implementado na Venezuela.

Em seguida, suas intenções se intensificaram, passando a incluir ouro e outros minerais estratégicos. E a política externa da Venezuela tem sido condicionada a questões como a solidariedade com Cuba, Irã e Palestina. O que o governo dos EUA está fazendo com a Venezuela é um ato de agressão gravíssimo e está fora dos limites de qualquer estrutura de direito internacional. Deveria gerar séria preocupação na comunidade internacional que um país esteja sendo submetido às condições impostas à Venezuela.

FF

Recentemente, você escreveu que a “incapacidade ou falta de vontade de gerir o conflito político de forma nacional e democrática” abriu caminho para essa interferência estrangeira. Que fatores internos ajudam a explicar o que aconteceu em 3 de janeiro?

EJ

Bem, é um longo caminho até 3 de janeiro de 2026, mas podemos resumi-lo da seguinte forma. Desde o início da Revolução Bolivariana, um setor da oposição optou por recorrer à interferência estrangeira para tentar interromper o processo democrático revolucionário iniciado em 1998 com a vitória eleitoral do Comandante Hugo Chávez. A partir de 2001-2002 [quando a oposição lançou uma tentativa de golpe em abril de 2002 e, em seguida, organizou uma greve de petroleiros em dezembro de 2002 e janeiro de 2003], a presença de um agente externo foi introduzida no conflito político nacional, que marcou a história por mais de 20 anos. E o conflito se agravou com o falecimento do Comandante Chávez, dada a crença equivocada, na época, de que sua morte havia enfraquecido os alicerces da Revolução Bolivariana e que poderiam resolver rapidamente a questão derrubando o presidente Nicolás Maduro, eleito em 2013.

Portanto, em 2014, testemunhamos a chamada “Saída” [uma onda de protestos violentos entre janeiro e fevereiro daquele ano], que foi uma estratégia insurrecional para derrubar o governo. Em seguida, diante do fracasso dessa estratégia, passamos à participação aberta do governo dos EUA como ator na política interna. Isso ocorreu quando o governo do presidente Barack Obama declarou a Venezuela uma ameaça “incomum e extraordinária”.

FF

O que mudou especificamente?

EJ

Acredito que foi aqui que o controle do que chamo de gestão nacional do conflito se perdeu, pois, apesar de toda a interferência estrangeira ocorrida desde 2002, pelo menos até 2013, o conflito poderia ter sido administrado democraticamente e entre atores nacionais. Em 2004, ele foi resolvido por meio de um acordo político entre o chavismo e todos os setores da oposição. Isso permitiu um longo período de estabilidade política e, naturalmente, crescimento econômico, redução da pobreza e diminuição da desigualdade. Tudo isso ocorreu após 2004, depois do referendo revogatório, uma solução constitucional venezuelana que, em última análise, reafirmou a presidência de Chávez.

Mas, a partir de 2014-2015, o conflito ultrapassou o âmbito da gestão política nacional, e os EUA começaram a intervir diretamente nas tentativas de resolução política dentro do país, condicionando esses acordos e sabotando-os. Eu fazia parte da equipe de negociação na República Dominicana, onde estávamos prestes a assinar um acordo com a oposição para as eleições de 2018, mas ele foi cancelado por instruções dos Estados Unidos. Depois veio o governo Trump e o estabelecimento e reconhecimento do governo paralelo de Juan Guaidó.

FF

Qual foi a resposta do governo Maduro?

EJ

É precisamente nesse ponto que o governo nacional tenta estabelecer um diálogo direto — que irá construir e alcançar — com o governo dos EUA. A partir daí, a negociação deixa de ser nacional, e tanto a oposição (que solicitou, incentivou e abriu as portas para a intervenção estrangeira) quanto o governo (que apenas deseja reconhecer os EUA como seu interlocutor) fazem com que a gestão nacional do conflito se perca.

A partir de então, a situação se desenrolou e chegou ao 3 de janeiro, com a grave consequência de um ataque militar traiçoeiro e a subsequente ocupação e controle da Venezuela pelo governo dos EUA. Além do controle econômico e da administração ilegal e arbitrária de nossos recursos, podemos agora afirmar que decisões fundamentais sobre o cenário político na Venezuela não estão sendo tomadas ou resolvidas dentro da própria Venezuela. Todos os atores políticos, ou pelo menos a maioria deles, estão agora de olho na Casa Branca para ver o que ela decide, quando convocará eleições e quem apoiará como candidato.

A principal responsabilidade pela atual situação política reside no fato de termos permitido que a direção, a regulação e a contenção do conflito escapassem das mãos dos venezuelanos, especialmente nos últimos 10 anos. Isso facilitou a entrada do governo dos EUA para atingir seus objetivos: reservar recursos energéticos e minerais para si e esmagar a resistência popular, em sua busca por se reposicionar como potência hegemônica.

FF

Qual é o estado de espírito da população após 3 de janeiro?

EJ

Existem diversos sentimentos. Em relação ao sequestro do presidente Nicolás Maduro, algumas pessoas condenam o fato e se mostram emocionalmente abaladas pelo ocorrido; enquanto outras o celebram e se identificam com os eventos. Este é um nível.

Mas então surge a questão da percepção em relação à agressão militar, à tutela que está apenas começando e que gera angústia, dor, a sensação de que estamos perdendo nossa República. As pessoas não compreendem totalmente nossa relação com os Estados Unidos, mas a realidade diária demonstra que ela nada mais é do que uma tutela por outro Estado. Isso gera um sentimento de vergonha, que se intensifica a cada dia.

Mas há também outro nível, um sentimento de expectativa, de que a situação econômica e social do país vai melhorar. Naqueles primeiros dias, em meio à confusão, à dor, aos que comemoravam, aos que condenavam, o sentimento subjacente era: “Vejam, tudo vai melhorar”. Já nos imaginávamos em prosperidade econômica. Era assim porque este é um povo que foi submetido, especialmente após a morte de Chávez, a uma agressão sistemática que minou todo o sistema de direitos sociais, participação política e esperança de construir algo diferente.

No cerne de todos os sentimentos expressos por ambos os lados em relação ao país e ao governo, está o desejo de que a situação melhore. Mas a realidade é que não houve mudanças significativas. Quatro meses se passaram e podemos afirmar que a situação econômica diária das famílias venezuelanas é pior do que era antes de 3 de janeiro de 2026.

FF

Apesar de muita conversa sobre uma possível mudança de regime, Trump manteve o governo no poder. Por que você acha que isso aconteceu?

EJ

Acho que isso decorre, antes de mais nada, de uma questão de política interna dos EUA. Trump joga muito bem com a vinculação da política interna e internacional, a chamada abordagem interméstica. Uma parte fundamental de sua plataforma era que os EUA não deveriam mais promover mudanças de regime em outros países. Portanto, o que ele conseguiu com o governo em Caracas se encaixou perfeitamente em sua retórica e em suas promessas de campanha. É por isso que ele tentou repetir a mesma estratégia no Irã: assassinar o aiatolá e manter a liderança iraniana no poder, chegar a um entendimento com eles e alegar que não houve mudança de regime. Acho que essa era a intenção.

Em segundo lugar, havia a necessidade de estabilidade política e o reconhecimento de que a oposição venezuelana não possuía a liderança, a força e a autoridade necessárias para garantir essa estabilidade política a curto prazo. Isso era especialmente importante porque o ataque à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores devem ser entendidos como um prelúdio para um ataque ao Irã. Trump acreditava que, controlando as reservas de petróleo da Venezuela, os EUA poderiam se aventurar em uma guerra com o Irã sem que o fechamento do Estreito de Ormuz causasse danos à segurança energética, doméstica pelo menos.

No entanto, ele desconsiderou em sua avaliação os danos causados ​​pelas sanções impostas à capacidade produtiva da indústria petrolífera nacional, cuja recuperação total levará pelo menos quatro anos, segundo especialistas, caso todas as sanções sejam suspensas e haja investimentos bilionários, o que não está previsto no momento.

Acredito que essa seja, em parte, a explicação para o reconhecimento da sucessão constitucional que ocorre temporariamente, conforme previsto na Constituição, e para o estabelecimento, sob coerção e ameaça, de uma relação de tutela com o atual governo da Venezuela.

FF

Qual foi a posição da oposição tradicional após 3 de janeiro?

EJ

A oposição ficou bastante desconcertada, pois desde 2002 sonhava com uma ocupação militar, inclusive de maior magnitude — uma ocupação com tropas e a aniquilação de todas as forças populares. Imaginavam que os ocupantes chegariam de helicóptero e se instalariam na sede presidencial, no Palácio de Miraflores. Isso os deixou um tanto perplexos. Mesmo assim, acionaram todos os seus mecanismos de influência nos EUA para tentar forçar um processo eleitoral na Venezuela, acreditando que serão os vencedores dessa eventual eleição.

FF

Há claramente opiniões divergentes sobre o novo governo da presidente interina Delcy Rodríguez. Na sua opinião, como podemos caracterizar o atual governo e suas ações?

EJ

O governo atual deve ser caracterizado e suas ações compreendidas a partir do fato de ser um governo submetido à coerção militar e cujos recursos nacionais são administrados por um governo estrangeiro. Essa é a realidade.

Agora, o conjunto de políticas, especialmente as relativas ao petróleo e à mineração, representa, sem dúvida, um retrocesso em comparação com os ganhos e conquistas em termos de soberania que a Venezuela havia alcançado ao longo de quase 100 anos, e que haviam sido particularmente consolidados e ampliados durante o governo do Comandante Chávez. A Lei dos Hidrocarbonetos, por exemplo, após sua reforma poucos dias depois do ataque militar, é uma lei que estabelece que o controle operacional de todo o processo de produção de petróleo, da extração à comercialização, pode ser transferido. Isso é um retrocesso que nos coloca em uma situação semelhante à da década de 1930.

Existem questões muito sérias, como a eliminação dos royalties do petróleo; agora pode haver uma concessão petrolífera em que a concessionária não paga um único centavo em royalties ao proprietário do recurso, que é a nação venezuelana. Esses são alguns dos elementos que representam sérios retrocessos para a soberania petrolífera da Venezuela, entre outros.

FF

Mas, dada a situação, será que o governo poderia fazer algo diferente? E, em caso afirmativo, o que seria?

EJ

Sinceramente, sou muito cauteloso ao dar conselhos ao governo ou especular sobre o que ele deveria ou não fazer. Já trabalhei no governo e sei que, quando se está no poder, você tem acesso a informações que não são públicas, a dados mais precisos, o que te obriga a tomar certas decisões.

Só posso dizer que a decisão de 3 de janeiro, de não responder ao ataque militar, parece-me ter sido a decisão correta na época para evitar a destruição total de nossas Forças Armadas e danos massivos à população civil, como sem dúvida teria ocorrido. Mas quatro meses depois, o Estado venezuelano deveria denunciar internacionalmente a coerção a que está sendo submetido.

FF

Em seu “Manifesto por uma República Democrática”, o senhor propõe um “acordo nacional” para “demonstrar ao mundo que a vasta maioria dos venezuelanos não aceita ser um Estado tutelado, nem uma colônia”. Poderia explicar sua proposta?

EJ

Você me perguntou o que poderia ser feito? Bem, a resposta está naquele documento ao qual você se referiu.

A realidade é que o governo sozinho não pode fazer isso. É preciso que a nação como um todo — todos os atores políticos e sociais, e uma ampla maioria da população — se una em torno de uma reivindicação política e diplomática. Isso inclui fóruns internacionais, mesmo sabendo que esses fóruns e o direito internacional não são aplicáveis ​​no momento, mas ainda estão em vigor. A República deve estabelecer precedentes para que, no futuro, possa fazer reivindicações apropriadas em relação aos graves atos cometidos contra a Venezuela.

Primeiro: um ataque militar injustificado, não provocado e desproporcional, que colocou em risco grandes segmentos da população civil na cidade de Caracas e em outras localidades.

Segundo: a ocupação, que é absolutamente proibida pelas resoluções das Nações Unidas, que afirmam que nenhum país pode ser explorado por seus recursos. Nenhum governo pode reivindicar o direito de administrar os recursos econômicos de outro país. Nenhum país pode ser coagido a tomar decisões políticas, econômicas ou legislativas sob ameaça militar.

A nação como um todo, todas as forças políticas, devem levantar esta questão imediatamente perante os organismos internacionais e os povos livres do mundo. É preciso exigir a devolução do controle sobre a renda nacional ao Estado venezuelano para que este possa enfrentar os graves problemas que todo esse confronto político, o bloqueio, as sanções, a agitação social, a violência e outros fatores causaram, provocando danos estruturais à economia. Esta é a única maneira de o Estado abordar as questões mais importantes para a população: salários, educação, saúde e serviços públicos. Não haverá prosperidade sem uma república de fato.

Este acordo nacional implica uma resolução, ou pelo menos uma regulamentação, do conflito político na Venezuela e o estabelecimento de um caminho democrático, eleitoral, político e pacífico. Deve ser uma decisão tomada pela nação venezuelana para resolver o conflito interna e democraticamente, e não imposta pela potência ocupante.

Meu ponto final é que a Venezuela deveria ter autonomia para gerar uma política externa independente, o que é um elemento fundamental para a soberania de um Estado.

FF

Sem dúvida, o governo Maduro teve que lidar com uma situação extremamente difícil: sanções, violência da oposição, uma profunda crise econômica, entre outros fatos. No entanto, tem sido criticado por setores de esquerda, que o acusam de buscar governar em prol de interesses capitalistas e de implementar medidas antitrabalhadores. Qual a sua avaliação do governo Maduro?

EJ

Desde 2018, muitos de nós adotamos uma postura crítica em relação à política econômica, especialmente no que diz respeito à política salarial adotada pelo governo naquele ano. Também expressamos discordâncias sobre os métodos políticos empregados, que não contribuíram para a coesão nacional necessária diante da aproximação de um conflito da magnitude que prevíamos. Além disso, levantamos outras preocupações, tanto em documentos internos quanto em declarações públicas. Infelizmente, não houve oportunidades para uma discussão construtiva sobre essas e outras questões.

FF

Qual o papel do PSUV em tudo isso? De fora, parece não haver muito debate ou discussão, e até mesmo pouca atividade política dentro do partido. É esse o caso?

EJ

O partido perdeu há muito tempo seus espaços autênticos de discussão e debate. Esse fechamento dos espaços de debate político foi justificado pela escalada da agressão estrangeira, o que levou a uma lógica de guerra entre inimigos. No entanto, muitos de nós ainda acreditamos que, uma situação de agressão é justamente quando devemos ouvir o povo, que devemos abrir o debate, para ouvir a pluralidade de opiniões sobre como lidar com o cenário posto.

Com esses espaços de deliberação, de pluralismo de opiniões, a coesão teria de fato se fortalecido: primeiro do chavismo como força revolucionária e, em seguida, do chavismo como motor da coesão social necessária para enfrentar uma agressão como a que a Venezuela sofreu e segue sofrendo.

FF

A Venezuela tem se caracterizado por seu alto nível de politização e organização popular, particularmente com o exemplo comunas. Qual é o estado atual desse nível de politização e organização?

EJ

Tanto as comunas quanto o partido mantêm uma estrutura organizacional significativa. Além disso, o PSUV é a única estrutura organizacional realmente existente hoje, porque possui presença territorial e setorial.

Parte do problema no país é que os partidos de oposição não são realmente partidos de oposição. Eles não têm uma presença enraizada, entre a classe trabalhadora, e assim por diante. A maioria dos líderes da oposição são simplesmente comentaristas de redes sociais, fortemente financiados do exterior, pelos EUA e por países europeus. E, particularmente nos últimos seis anos, a principal atividade política de grande parte da liderança da oposição na Venezuela não tem sido a construção de partidos ou movimentos, mas sim a promoção da agressão militar que, em última análise, conseguiram desencadear em 3 de janeiro.

Contudo, a deterioração das condições materiais e sociais diminuiu não os níveis de politização — porque a sociedade venezuelana não é despolitizada — mas sim os níveis de participação política. Tanto que o próprio nível de politização entre grande parte da população, tanto na oposição quanto nas bases chavistas, permitiu compreender o que aconteceu depois de 2018. O que havia sido um conflito de luta social para transformar as condições materiais de existência, onde as sucessivas vitórias do chavismo se traduziram em melhorias e ampliação de direitos, tornou-se novamente um conflito clássico entre grupos de poder, onde a grande maioria nada ganhou, mas, ao contrário, perdeu cada vez mais.

Isso reduziu a participação política. A partir de então, numa democracia que havia alcançado níveis de participação eleitoral superiores a 80%, a mobilização permanente em massa de setores da população em favor de uma ou outra proposta, o entusiasmo pela participação nos níveis territorial, setorial e outros, começou a declinar.

Esse declínio se manifestou nos altos níveis de abstenção em todos os processos eleitorais realizados desde 2015. Também se manifestou na diminuição do ativismo político, social e comunitário. Isso se deve, entre outros fatores, à preocupação das pessoas com a sobrevivência: “Preciso ter três ou quatro empregos; não tenho mais tempo para ir a uma reunião, a uma marcha, para participar da autogestão”. A situação econômica também teve um impacto político na participação.

Portanto, sem dúvida alguma, o ataque militar de 3 de janeiro foi perpetrado contra uma sociedade exausta pelo conflito, de ambos os lados. Porque, independentemente do que os EUA tivessem planejado, se a oposição aqui tivesse possuído a força política organizada que alegava ter, aquele dia teria sido a oportunidade perfeita para tomar o poder por meio de uma insurreição, o que não aconteceu. Mas também é preciso reconhecer que havia uma certa hesitação entre os setores que historicamente apoiaram o processo revolucionário naquele fatídico dia.

FF

A questão da solidariedade com a Venezuela tem sido um ponto de debate na esquerda internacional. De que tipo de solidariedade o povo venezuelano precisa hoje?

EJ

Neste momento, manifestamos nossa solidariedade à Venezuela, ao país, ao povo que tem sido atacado e explorado. Fundamentalmente, a esquerda internacional precisa compreender que — independentemente do governo e da interpretação que se faça dele — a Venezuela é hoje um país que foi militarmente e ocupado militarmente, submetido a uma política de coerção e controle. Portanto, o dever da esquerda internacional é denunciar isso, independentemente do governo no poder.

Sempre me lembro de que éramos jovens ativistas de esquerda durante a invasão do Panamá, e nada poderia estar mais distante de nossas simpatias do que Manuel Noriega. Mas não era sobre Noriega; era uma nação irmã sendo invadida e massacrada, e nós, a juventude de esquerda latino-americana, nos levantamos durante meses, marchando, protestando e assim por diante, contra essa intervenção militar. Portanto, a esquerda internacional não deve excluir a luta pela libertação da Venezuela de sua agenda. Porque o povo venezuelano terá que travar uma luta de libertação nacional nos próximos meses e anos. E essa luta pela libertação nacional de nosso país da tutela do governo dos EUA deve ter a solidariedade de toda a esquerda internacional e, muito além da esquerda, daqueles setores que acreditam que o mundo não pode ser o que Trump quer que ele seja.

Hoje é o momento de erguer as bandeiras anti-imperialistas com mais força do que nunca e denunciar o fato de que estão esmagando o direito internacional, esmagando Estados-nação e cometendo crimes contra a humanidade e genocídio, como os que testemunhamos em Gaza e que continuam a se desenrolar diante dos olhos do mundo, ou como vemos com o ataque contra o Irã. Independentemente da opinião que se tenha sobre o regime que governa o Irã, o que está acontecendo é inaceitável. Isso obriga a esquerda internacional a fortalecer sua capacidade de organização, comunicação e mobilização, porque a luta contra o imperialismo e a agressão militar dos impérios contra os povos tem sido uma bandeira histórica da esquerda. Hoje, a causa humana exige que lutemos.



Elías Jaua

é um político venezuelano, professor universitário e sociólogo que ocupou diversos cargos durante as presidências de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, incluindo o de vice-presidente (de janeiro de 2010 a outubro de 2012).

Cierre


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