A refinaria do Lobito vai resolver o problema de Angola

Angola é um dos maiores produtores de petróleo em África, mas continua a depender da importação de combustíveis refinados para abastecer o mercado interno. Mais de 70% dos combustíveis consumidos no país são importados, uma situação que reflete a limitada capacidade nacional de refinação e que tem alimentado debates sobre a necessidade de acelerar projetos como a refinaria do Lobito.

Ao mesmo tempo, o setor enfrenta outro desafio: o modelo de preços dos combustíveis. Durante anos, os preços foram mantidos abaixo dos custos reais através de subsídios estatais, mas o Executivo tem vindo a avançar gradualmente com a retirada desses apoios, um processo que tem impacto direto no custo de vida das pessoas. 

Falámos com José de Oliveira, analista da área petrolífera e colaborador do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, sobre o que explica este aparente paradoxo entre produção petrolífera e dependência das importações, o papel que a refinaria do Lobito poderá desempenhar e os desafios associados aos preços dos combustíveis.

DW África: Angola é um dos grandes produtores de petróleo de África, mas continua a importar grande parte dos combustíveis que consome. Como é que se explica este paradoxo?

José de Oliveira (JO): É verdade. Angola importa entre 70% a 80% dos combustíveis que consome. Como é que se explica isto? Nós temos uma refinaria pequena, bastante antiga e simples. Isso faz com que, embora não tenhamos um consumo muito grande, dependemos da importação. Não se aumentou a refinaria de Luanda quando isso era económico e rentável, nos anos 70 e 80, com a desculpa da guerra, de que não havia dinheiro para mais nada. Mas podíamos ter-nos endividado e feito essa obra e hoje seríamos autossuficientes. Assim, só vamos ser daqui a um tempo e a um custo muito mais elevado do que seria se as obras tivessem sido feitas há 20 ou 30 anos. Além disso, nesta altura está muito complicado, porque há falta de gasóleo no mundo, que é o produto que está mais caro, mas estamos com dificuldades em abastecer o mercado. 

DW África: A refinaria do Lobito é um dos principais projetos liderado pela Sonangol para aumentar a capacidade nacional de refinação e reduzir a dependência das importações. A construção desta refinaria pode resolver este problema?

JO: Pode. A Refinaria do Lobito vai resolver o problema de Angola e vai até permitir que o país exporte alguns refinados. É para 200 mil barris por dia. Nós não temos esse consumo, o nosso consumo anda à volta dos 100 mil barris por dia, portanto não precisamos de 200 mil barris de refinados. A refinaria tem uma primeira fase, que deverá ficar concluída para o ano. Mas o importante é a segunda fase, quando deixar de produzir fuel oil, que consumimos muito pouco, e passar a produzir a maioria dos produtos leves de que precisamos, como jet, gasolina e gasóleo. Essa segunda fase, se tudo correr bem, deverá estar concluída em 2029 ou 2030. Ainda assim, quando a primeira fase estiver concluída, em 2028, já vamos importar menos de 50% daquilo que consumimos.

DW África: E por que razão faltam combustíveis nos postos de abastecimento?

JO: Há dois aspetos. Um externo, as dificuldades de importação, nomeadamente de gasóleo. Depois há uma tendência, nestas alturas, quando há perspetivas de que vai haver falta de combustíveis, os consumos aumentam imediatamente. Há uma tendência: as pessoas enchem o depósito do carro, mesmo quando ele está a meio, porque têm medo de que na semana seguinte já não haja combustível. Trata-se de uma tendência para uma ligeira subida dos consumos. As filas aqui, em Angola, não estão em todos os sítios, mas no interior, temos problemas; em Luanda, ainda não.

Angola Moto Taxis warten auf Benzin Cunene
Foto: Adolfo Guerra/DW

DW África: O atual modelo de preços dos combustíveis em Angola é sustentável? 

JO: Não. Nós temos preços muito baixos. A diferença entre o custo real e o preço de venda ao público é muito grande, e as Finanças, que deveriam cobrir a diferença, não o fazem. Há anos não estão a cobrir, portanto a Sonangol está numa situação financeira difícil, porque tem esse prejuízo anual. Nós precisamos subir os combustíveis para preços reais ou próximos dos reais, mas temos de organizar os transportes públicos, porque, se não tivermos transportes públicos organizados, com passes mensais mais baratos para os estudantes e trabalhadores, as pessoas não têm dinheiro para andar nos mini autocarros privados. Isso porque, se sobe o combustível, eles vão subindo a tarifa. Já começou, inclusive, o ano passado, uma certa confusão social com o aumento do preço do combustível, porque as famílias sentiram-se “encostadas à parede”, sem dinheiro para irem ao trabalho e os seus filhos aos estabelecimentos de ensino. Portanto, antes de mexer no preço do combustível, é preciso organizar os transportes públicos das principais cidades.

DW África: A economia angolana continua demasiado dependente do petróleo? 

JO: Infelizmente, continua. A dependência tem diminuído, mas não à velocidade desejável. Talvez porque começámos muito tarde a ter, de facto, diversificação. Quando o país se habitua a viver de um produto, retirar essa dependência não é fácil.

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