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O Governo cabo-verdiano decretou luto nacional, anunciou apoio às famílias e iniciou uma avaliação às condições da estrada.
Local em que se vê o autocarro onde pelo menos 25 pessoas morreram no ultimo sábado 05 de setembro de 2026, em consequência de um acidente, na ilha do Fogo, a maioria das vítimas eram crianças e adolescentes
ELTON MONTEIRO
Entre as rochas, os destroços do autocarro e vestígios marcam o lugar da tragédia que matou 25 pessoas na ilha cabo-verdiana do Fogo, enquanto um dos moradores que ajudaram no resgate recorda uma criança que pedia para ser levada à sua vila.
“Uma das crianças, quando chegaram a ela [no local do acidente] , disse: ‘Levam-me à Bila'”, contou aos jornalistas José Alves, referindo-se à designação tradicional, em crioulo cabo-verdiano, de São Filipe, principal centro urbano da ilha do Fogo.
O morador falava no local do acidente, em Campanas de Cima, a cerca de 21 quilómetros do centro de São Filipe, onde participou nas primeiras operações de resgate.
“Foi doloroso, nunca imaginava que ia estar nessa situação. Todos os que chegavam, ficavam desanimados. Mas dissemos uns aos outros que já chegámos e tínhamos de fazer alguma coisa”, recordou, apontando que começaram a retirar vítimas da ravina, entre elas a criança que ainda falou com os outros moradores.
Outras vítimas estavam já mortas.
O mesmo disse que regressou ao local por mais três vezes para transportar outras vítimas, apesar do cansaço.
“Eu dei quatro voltas. Foi cansativo, mas nem sei de onde vieram as forças”, contou, explicando que chegou a pensar que não voltaria a descer, mas acabou por regressar para continuar a ajudar.
O resgate foi feito sem equipamento especializado para uma operação daquela dimensão. Os moradores desceram pela encosta até às vítimas e fizeram o transporte até um ponto onde outras pessoas aguardavam.
“Sem conhecimento nenhum, pegámos nas pessoas para salvar, sem equipamentos nenhum”, afirmou.
À medida que mais pessoas chegavam ao local, a entreajuda foi crescendo e permitiu retirar várias vítimas da ravina.
“Muitas pessoas chegaram e deram um grande apoio. Nesse junta-mão tirámos muitas pessoas”, relatou.
Para José Alves, como para os restantes moradores que participaram nas operações, as imagens daquela noite permanecem difíceis de esquecer.
“Todos vivemos esse momento, todo o coração de cada pessoa. Todos estão tristes. Não tem sido fácil”, disse. “Esperamos que todos consigam livrar-se desta imagem, deste trauma”, concluiu, três dias depois do acidente.
No fundo da ravina, as marcas da tragédia permanecem visíveis. O autocarro, de cor verde e branca, aparece completamente destruído e deformado no fundo da encosta, e partes da viatura continuam entre as rochas.
ELTON MONTEIRO
Espalhados pela vegetação e pelo terreno acidentado encontram-se ainda roupas, mochilas, sapatos e outros objetos pessoais que saíram do autocarro durante a queda. Um telemóvel permanece entre os destroços e as rochas.
O local situa-se na estrada entre Chã das Caldeiras e Campanas de Cima, na zona serrana norte do município de São Filipe. A forte inclinação da encosta e a irregularidade do terreno tornam particularmente difícil o acesso ao ponto onde a viatura ficou imobilizada.
O acidente provocou 25 mortos e 14 feridos entre os 39 ocupantes do autocarro, na maioria alunos e jovens. Entre os adultos estavam o condutor e uma cozinheira. Dos 14 feridos, um teve alta, dois deverão ser transferidos para um hospital na cidade da Praia e os restantes estão a evoluir favoravelmente.
O primeiro-ministro de Cabo Verde, Francisco Carvalho (C), acompanhado pela ministra da Família, Inclusão, Desenvolvimento Social e Trabalho, Adélsia de Jesus Almeida (E), e pelo ministro da Saúde, Lúcio Miranda Fernandes (D), durante uma conferência de imprensa na ilha do Fogo, em Cabo Verde.
ELTON MONTEIRO
O Governo cabo-verdiano decretou dois dias de luto nacional na sequência da tragédia. O primeiro-ministro, Francisco Carvalho, anunciou uma análise às circunstâncias do acidente e às condições relacionadas com a estrada. Uma equipa técnica especializada das Estradas de Cabo Verde encontra-se no terreno para avaliar as condições de segurança da via e a infraestrutura rodoviária.
O Governo enviou também para o Fogo uma equipa médica especializada, anunciou apoio social e psicológico às famílias e criou um gabinete de crise para acompanhar a situação.
Francisco Carvalho anunciou ainda o reforço da Proteção Civil e a criação de uma equipa multidisciplinar, com profissionais de diferentes entidades e competências, que deverá ficar de prontidão para responder a situações de emergência.
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