Venezuela/Sismo: Portuguesa que sobreviveu a 2 desastres naturais de partida para Portugal

Hermínia Pinto de Fernandes, que dirige o Grupo Folclórico do Centro Luso-venezuelano de Cátia La Mar, “perdeu tudo” no duplo sismo de 24 de junho e prepara-se para partir para a Madeira, onde espera ajuda para recomeçar.


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«Vou partir no dia 27 de agosto e chegarei a 28, no dia do meu aniversário. Porquê para Portugal? Porque aqui não tenho ninguém; só me restava o meu irmão, que faleceu nesta tragédia. Tenho cunhados e cunhadas, mas a minha família está lá. O meu filho, a minha neta e o meu marido estão lá. Há aqui algo que adoro imenso, que é o grupo folclórico, mas não posso dividir-me em duas», disse à Lusa a conhecida portuguesa de La Guaira, que já tinha sobrevivido às enxurradas de 1999 na região.

Com o braço direito arrancado pelo sismo, Hermínia relata que esteve emigrada na Madeira dos 04 aos 10 anos de idade.

«Amo e quero muito a Madeira, mas tenho o coração dividido porque amo também a Venezuela, o grupo folclórico», desabafou a luso-venezuelana natural de Cágua, no estado venezuelano de Arágua.

Dois meses após o duplo sismo, as coisas continuam difíceis, mãe já tinha falecido e agora sente a ausência do irmão.

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«Perdi tudo. Estou a ficar com uma cunhada que me ofereceu a sua casa. Tenho estado tranquila, mas os sismos [réplicas] que se sentem de vez em quando deixam-me nervosa, inquieta e às vezes não consigo dormir», disse.

«Estou viva, que é o mais importante. Foi isso que tanto pedi a Deus [durante o sismo]: que me concedesse o milagre de ficar viva para ver a minha família, a minha neta, o meu filho, o meu marido e os meus parentes», disse.

Para Hermínia, o que aconteceu é uma lição, uma oportunidade para aprender e mudar: «Acho que se eu já tinha mudado algo, agora a mudança vai ser maior, porque esta é uma oportunidade que Deus me deu, de continuar viva».

Em Portugal, Hermínia espera conseguir ajuda para uma habitação, para tratamento médico e fisioterapia dos dedos da mão fraturados durante o sismo.

O duplo sismo de 24 de agosto causou danos graves em infraestruturas, pessoas feridas e vítimas mortais em sete estados da Venezuela, Caracas, Miranda, Arágua, Carabobo, Lara, Yaracuy e La Guaira, este último o mais afetado.

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Segundo o último balanço atualizado divulgado pelas autoridades, 6.438 pessoas faleceram e 86.358 pessoas foram assistidas nos hospitais depois dos sismos.

Entre os mortos, há pelo menos 138 portugueses e lusodescendentes.

Hermínia Pinto de Fernandes narrou que estava sentada no pátio da sua casa, um prédio de quatro andares, quanto sentiu o abalo.

«Levantei-me e corri em direção à porta da cozinha. Parei na ombreira, mas como procurava o meu irmão, corri para o outro marco e gritei: Mário, Mário, está a tremer! Ele saiu do quarto, escorregou, e caiu no chão. Em frações de segundo, a vitrina da sala desabou e separou-o de mim. Continuei a chamá-lo, mas já não houve resposta», disse.

Em pleno sismo, virou-se «e viu o edifício a desabar».

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«Estiquei a mão e sobre ela caíram escombros que me fraturaram os dedos [do braço esquerdo]. Em frações de segundo o edifício desabou e fiquei em posição fetal com este braço [direito] preso entre uma coluna e escombros. Tudo ficou escuro e sentia que não me conseguia mexer», precisou.

Hermínia explicou ainda que a determinada altura viu um pequeno buraco por onde passava a luz de uma lâmpada que depois se apagou.

«As horas passaram e eu nunca adormeci, nunca tive o ataque de asma de que sofro, nem a dor que com frequência sinto no peito. Ali, eu só rezava para que nada tivesse acontecido ao meu sobrinho, que vivia no último andar, e para que o meu irmão estivesse vivo. E, pedia a Deus que me deixasse viva para ver a minha família», frisou.

Horas depois, conseguiu ver, pelo mesmo buraco, que já era dia e começou a pedir ajuda, enquanto se questionava porque os socorristas não chegavam.

«Não sabia a magnitude do que estava a acontecer. Sentia-me cansada e pedi ajuda até que uma rapariga me ouviu e começaram a gritar: Hermínia está viva!», disse, precisando que estavam à sua procura, mas não sabiam onde se encontrava.

Foi então que chegaram os rapazes do grupo folclórico, a quem deu instruções sobre como separar os escombros, para evitar que os detritos caíssem sobre si.

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«Abriram um buraco, meteram uma porta [pedaço de madeira] e uns lençóis e tiraram-me deitada, enquanto eu temia ficar encravada», disse.

Explicou ainda que foi levada para o Hospital Militar, que fica nas proximidades, onde o médico lhe disse que teriam de amputar-lhe o braço que já não sentia, ou perderia a vida, o que aceitou.

«Duas vezes sobrevivi a tragédias [desastres naturais]. Foram diferentes uma da outra, mas tristes as duas. Foram dois milagres», exclamou, recordando que em 1999 milhares de pessoas faleceram durante as enxurradas do estado de Vargas, hoje La Guaira.

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